Era Outono. As folhas dos plátanos desprendiam-se numa chuva dourada ao longo da Avenida Sá da Bandeira: o antigo Vale da Ribela, outrora pertencente ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, pensava Madalena, percorrendo a cidade académica com os olhos sonhadores de caloira. Pela primeira vez na lusa Atenas, a jovem de 18 anos esperava ansiosamente esquecer o passado e recomeçar uma nova vida: a cidade a descobrir, novas pessoas a conhecer, a faculdade a explorar… sim, as expectativas eram elevadas!

Corriam os anos sessenta e não havia limites para a imaginação! Em França, Françoise Hardy cantava “Tous les garçons et les filles de mon âge”, Michel Delpech ousava “Pour un flirt avec toi”; os Beatles, em Liverpool, proclamavam “All you need is love”… e um longo etc para os discos de vinil que Madalena ouvia no seu quarto.

Desceu até ao mercado D. Pedro V, ladeou a Biblioteca Municipal e foi até Santa Cruz: ali, na penumbra do panteão real, ajoelhou e orou pela realização de todos os seus sonhos. Mergulhada no silêncio do templo, só despertou do seu imobilismo com a súbita algazarra que vinha do exterior; surpresa, deu por findas as orações e saiu da igreja: grupos de estudantes, muitos envoltos em capas negras, berravam palavras de ordem a caloiros pintados ou mascarados, empunhando cartazes com dizeres irreverentes – “S:, que letra tão torta!”;”Farah: fará, não fará? Já fez!” “Elétrico: autocarro enganado pela mulher”; “Salazar tem um cancro: coitado do cancro!”; outros, batiam em latas, num barulho ensurdecedor. E, em volta, a multidão de futricas que se divertiam com o espetáculo: era a Latada, festa académica do início do ano letivo e receção dos caloiros.

Ao verem uma linda rapariga loira a sair de Santa Cruz, logo dois doutores ordenaram a um caloiro que fizesse ali já uma declaração de amor, de joelhos! Madalena, com a sua timidez, sentiu o sangue subir-lhe ao branco do rosto e teve vontade de se sumir nalgum buraco, mas não havia fuga possível: as capas negras logo a rodearam e o caloiro, com todo o desembaraço, ajoelhou à sua frente, exibindo um sorriso descarado e recitando uma torrente de palavras lisonjeiras! Foi muito aplaudido, com palmas e risos e ainda tentou beijar-lhe a mão, não a alcançando, porém, já que a também caloira desatara a correr e só parou em casa, próxima da biblioteca, no início da avenida. Subiu vários lanços de escadas até ao último andar, onde se refugiou no seu quarto, ainda assustada, com o coração aos pulos!

No dia seguinte, o sol brilhava e Madalena, alegremente, levantou-se cedo, vestiu um vestido azul-celeste, da cor dos seus olhos e prendeu os caracóis louros de modo gracioso, no alto da cabeça. Subiu a avenida, cortou na Rua Padre António Vieira e chegou à Faculdade de Letras a arfar; mal teve tempo de respirar fundo, para se refazer do esforço da marcha rápida, em sentido ascendente, para ter logo um baque no coração ao ver a porta da faculdade ladeada de uma multidão de capas negras de estudantes que ali aguardavam para contemplar o forçoso desfile das alunas que se dirigiam às aulas! Madalena sentiu terror: para alcançar a porta, tinha que atravessar aquele mar de rapazes atrevidos, que assobiavam, mandavam piropos, enfim, tudo o que a fazia temer sempre que saía a rua, mas desta feita, em proporções gigantescas! Parou por instantes, observando as colegas que, em passo acelerado, ultrapassavam aquela prova de fogo e depois, o mais rapidamente que pôde, fez o mesmo, de olhos postos no chão, envergonhadíssima sob os olhares penetrantes e incómodos daqueles voyeurs!

Uma vez no átrio, respirou de alívio e olhou em volta: admirou as paredes com belas pinturas, retratando glórias e heróis nacionais e sentiu-se feliz com a possibilidade de ali estudar. De repente, sentiu um leve toque no ombro:

– Olá! És caloira?

Uma rapariga de olhos escuros brilhantes, sorria-lhe exuberantemente.

-Sim, sou. Nota-se, não é?

– Eu também sou. Chamo-me Maria do Carmo, mas tratam-me por Meca. Estou em Românicas.

-Ena, que bom, também eu! Chamo-me Madalena, mas costumam-me tratar-me por Lena.

– Temos agora aula de História de Portugal, no quinto piso.

Subiram os lanços de escadas e dirigiram-se ao anfiteatro.

– Porque é que aqueles rapazes lá em baixo, não entram na faculdade?

-Porque não são daqui. São estudantes de Direito, de Medicina, Ciências e como nas faculdades deles não há raparigas, vêm para a nossa, para nos ver passar.

– É horrível! Eu tive tanta vergonha!

-Eu também não gosto.

Entraram juntas no anfiteatro, já quase cheio de raparigas; aqui e ali, dois ou três rapazes, que rareavam no meio.

A aula foi interessante, assim como as que se lhe seguiram ao longo da manhã. Lena e Meca saíram da faculdade, a conversar animadamente, sentindo entre si uma proximidade como se já se conhecessem há muito tempo.

-Queres vir almoçar a minha casa? – convidou Meca.

-Mas não será um incómodo para a tua família?

-Claro que não, recebemos muito os nossos amigos, tanto eu, como os meus irmãos. E os meus pais ficam sempre encantados.

Madalena acabou por aceitar, radiante. Pelo caminho, Meca falou dos seus três irmãos, dois rapazes mais velhos, também estudantes universitários e uma irmã mais nova, que frequentava o liceu Infanta D. Maria. O pai era médico e a mãe, professora, mas deixara a profissão com o casamento, para se dedicar ao lar e à família, não obstante terem duas empregadas.

Atravessaram o Jardim Botânico e dirigiram-se ao Penedo da Saudade, onde ficava: a casa de Meca, uma enorme vivenda, linda, rodeada de um jardim bem cuidado. Madalena foi apresentada à família toda de Meca, sentindo-se um pouco envergonhada com a sua intrusão. Mas eram todos muito hospitaleiros e polidos e rapidamente a jovem se sentiu integrada no seio daquela família generosa. Lourenço, o mais velho, estudante de medicina, era alto e bem-parecido, mas reservado; o segundo irmão, Leonardo, muito extrovertido, estudava direito e falava pelos cotovelos; a irmã mais nova, Teresa, era tímida, mas simpática. O almoço decorreu alegremente e a conversa generalizou-se a todos os convivas, com o tato dos donos da casa que tudo fizeram para que Madalena se sentisse à vontade. Depressa se chegou à conclusão de que o falecido pai de Madalena, também ele médico, fora colega do pai de Meca, o que gerou entre as duas famílias uma maior proximidade. Depois da sobremesa, as duas jovens subiram ao quarto de Meca, com os livros nas pastas, mas sem intenção nenhuma de lhes tocar! A tarde outonal estava ensolarada e a varanda do quarto, virada a poente, convidava a espraiar o olhar pelo verde dos jardins em volta! As duas amigas estenderam-se em espreguiçadeiras, entre orquídeas brancas.

-Obrigada, Meca, estou tão feliz por estar aqui!

– Também eu!

– A tua casa lembra-me a minha, em Viseu, mas com uma substancial diferença: tu tens uma família enorme e maravilhosa dentro dela!

A conversa prosseguiu, percorrendo temas diversos, como cinema, música, literatura, estudo, famílias, amizades… A tarde decorreu rápida e agradavelmente. Madalena despediu-se, agradecendo todo o acolhimento que tivera e regressou a casa, pelo mesmo caminho. Atravessou o Botânico, em passos largos, para saborear melhor o passeio e rever mentalmente as horas maravilhosas que Meca e a família lhe tinham proporcionado. Que bom tinha sido! Que bons tinham sido todos eles! Se sentia o coração consolado, também sentia a nostalgia de algo que só em livros como os de Júlio Dinis encontrara: a felicidade familiar, o amor de pais e irmãos.

Madalena mal se lembrava dos pais, mortos num acidente de viação quando ela tinha apenas seis anos de idade e não tinha irmãos. A única família que lhe restava resumia-se ao famigerado irmão do pai, o tio Hildebrando, viúvo e sem filhos; nem primos havia. A pequena Lena fora logo internada no colégio das doroteias, em Viseu e só nas férias vinha a casa (que, aliás, era dela, única herdeira dos pais, mas administrada pelo tio, nomeado seu tutor). Era estranho viver na mesma cidade, mas ela no colégio e ele instalado na casa que fora o seu lar paterno.

Madalena não mentira quando dissera que a casa da amiga lhe lembrava a sua; em Viseu, vivia num palacete de linhas direitas, rodeado de um imenso jardim frondoso. O jardim e a biblioteca eram os seus espaços favoritos. Na sua imensa solidão, os livros constituíram os únicos amigos, a par dos gatos, dos cães e do mundo vegetal.

Ao longo do Botânico, assaltaram-na as memórias do seu próprio jardim; cuidado ao longo de anos pelo velho jardineiro Januário. As estações sucediam-se ali, lentamente, por anos iguais, até à surpresa do ano anterior. Sim, fora no Outono, fazia agora um ano, que o tutor lhe dera, pela primeira vez, permissão para passar os fins-de-semana em casa. Lena chegara do colégio, muito contente, para desfrutar deste pequeno privilégio e correra ao jardim para colher rosas amarelas, as últimas do ano. Percorrera o pequeno bosque de lilases que comunicava do palacete ao jardim das rosas e estacou: como num sonho, um jovem alto e bem feito, semelhante a um deus grego, debruçava-se sobre as roseiras, cortando um ramalhete de rosas amarelas. Depois, olhou para ela, sorriu um sorriso de cortar a respiração e caminhou na sua direção, estendendo as flores com uma das mãos e segurando o boné com a outra.

-Boa-tarde, menina!

-B-b-boa-tarde! – tartamudeou Madalena, sem atinar com o que dizer.

-Colhi estas rosas para a menina.

-Quem é o senhor e o que está aqui a fazer? – conseguiu, finalmente, articular.

-Sou o novo jardineiro; chamo-me Paulo.

-Onde está o Januário?

-Adoeceu.

-Coitado! Ninguém me disse nada! (também era costume, pensou, ninguém lhe dizia nada).

Pegou nas rosas.

-Obrigada.

Deu meia-volta e dirigiu-se para casa. Ao penetrar no bosquezinho, voltou discretamente a cabeça para o ver pelo canto do olho: estava parado no mesmo sítio, ainda de boné na mão, fitando-a. Madalena ruborizou-se e desatou a correr até ao seu quarto. Por detrás do reposteiro do corredor, Lobélia espiava; observara tudo, de soslaio, sorrindo matreiramente. Madalena nem por isso a notou de tão perturbada que ia, ansiosa por esconder, dentro dos cortinados da cama de dossel, o turbilhão de emoções que a abalavam. Sentia o coração aos pulos, o rosto em chamas, a cabeça às voltas. Nunca experimentara nada assim! Também nunca vira um rapaz tão belo, a não ser no cinema! (Aliás, nunca conhecera rapaz nenhum, nem bonito, nem feio! No colégio das doroteias só havia raparigas! E Madalena nem sequer tivera permissão do tutor para ir ao baile de finalistas!) A confusão de sentimentos era tanta que, à mistura, sentia uma alegria enorme! E o desejo de voltar ao jardim, assim que houvesse um pretexto razoável.

Continua…

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Ana Margarida Borges da Silva León nasceu em Lisboa, mas com ascendência beirã. Estudou
Direito em Coimbra e exerce funções como conservadora do registo civil. Desde cedo, esteve
ligada a associações ambientalistas e de defesa dos direitos dos animais. Melómana, estudou
piano e, neste momento, pertence ao Coro Magnus D’Om em Santa Comba Dão. Publicou uma
obra de literatura infantil e participou em duas antologias de contos de Natal. Neste
momento, está a realizar uma licenciatura em História, na Faculdade de Letras da Universidade
de Coimbra.

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O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

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