Foto de Oregon National Guard | Flickr

Desde o final da Segunda Guerra Mundial que o mundo ocidental não testemunhou uma ameaça à existência humana tal como esta que o vírus SARS-CoV-2 acabou por criar. Tal não quer dizer que elas não tenham existido, aliás, são várias as que podem ser contabilizadas só na segunda metade do séc XX. Contudo, nenhuma se fez sentir de forma tão directa e tão globalmente como esta que agora nos assola e nos confina ao isolamento social. Ao contrário das restantes ameaças com as quais a humanidade se confrontou nos últimos 70 anos — desde o nuclear aos inúmeros perigos decorrentes da escalada do aquecimento global — a pandemia de Covid-19 possui uma característica que a distingue de todas elas: ela é imediatamente próxima, materializa-se na figura do «outro», naquele que é semelhante a mim.

«Nestes extremos da solidão, enfim, ninguém podia esperar o auxílio do vizinho e cada um ficava só com a sua preocupação. Se um entre nós, por acaso, tentava confessar-se ou dizer alguma coisa do seu sentimento, a resposta que recebia, qualquer que ela fosse, magoava-o a maior parte das vezes.»

Camus, Albert. (1947) A Peste, Porto, Livros do Brasil, 2016, p. 72.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial que o mundo ocidental não testemunhou uma ameaça à existência humana tal como esta que o vírus SARS-CoV-2 acabou por criar. Tal não quer dizer que elas não tenham existido, aliás, são várias as que podem ser contabilizadas só na segunda metade do séc XX. Contudo, nenhuma se fez sentir de forma tão directa e tão globalmente como esta que agora nos assola e nos confina ao isolamento social. Ao contrário das restantes ameaças com as quais a humanidade se confrontou nos últimos 70 anos — desde o nuclear aos inúmeros perigos decorrentes da escalada do aquecimento global — a pandemia de Covid-19 possui uma característica que a distingue de todas elas: ela é imediatamente próxima, materializa-se na figura do «outro», naquele que é semelhante a mim.

A forma como o significado do humano se manifesta na relação que estabelecemos com o «outro» é um tema caro aos defensores do humanismo, sobretudo no que diz respeito à sua formulação existencialista. Jean-Paul Sartre e Albert Camus construíram importantes reflexões sobre esta questão, atentando, sobretudo, no modo como nas disposições afectivas que são em nós despoletadas pela presença do «outro» — o medo, o desejo, a vergonha, o ódio, entre outras —, se manifestam os traços fundamentais de uma possível determinação daquilo que significa ser humano. No entanto, a relação «eu-outro» sobre a qual se debruça esta escola de pensamento, não pode ser devidamente circunscrita sem ter em conta o período histórico que a determina, i.e., quais as condições sociais e culturais que sobre esta relação são capazes de influir, e pelas quais ela acaba por se determinar essencialmente. É neste sentido que, mediante o contexto existencial que tem vindo a ser definido pela actual pandemia de Covid-19, é importante questionar se não nos encontramos hoje perante o ressurgimento de uma concepção do «outro» que deixou de nos ser familiar; uma concepção que em grande medida determinou o progresso da civilização, e da qual nos temos vindo entretanto a esquecer.

O pressuposto sob o qual se edifica a norma de isolamento necessariamente imposta, assenta na ideia de que no «outro», seja ele compreendido como potencial transmissor ou como aquele cuja vida devemos salvaguardar, se representa a morte como uma possibilidade imediata. Em suma, encontramo-nos confinados ao isolamento por duas razões fundamentais: ou porque tememos que no «outro» se encontre o nosso fim, ou porque não queremos ser nós os responsáveis pela sua morte. Em ambas, demonstra-se na concepção que fazemos do «outro» um confronto imediato com a mortalidade que nos marca profundamente, e do qual advêm sérias repercussões.

A concepção que fazemos do «outro» enquanto potencial transmissor é, de ambas, aquela à qual se tem vindo a prestar mais atenção, e também a que poderá ter piores repercussões sobre as interacções sociais no contexto da sociedade pós-pandémica que se aproxima. Nas poucas interacções de corpo presente que temos vindo a estabelecer no decorrer do estado de emergência, podem-se desde logo evidenciar alguns dos efeitos indesejáveis que advêm desta concepção do «outro» enquanto potencial transmissor do vírus. O desvio dos olhares no supermercado, o sentimento de pânico quando alguém se aproxima de nós ou se cruza no nosso caminho, o desconforto sentido ao dizer “olá” sem o toque que antes nos mostrava o «outro» como um corpo presente, são todos eles sinais do medo inerente à concepção que fazemos dos nossos semelhantes como proximidade real da nossa própria morte. A larga escala, esse medo que se sente mediante a presença do «outro», tem vindo a alimentar uma constante politização do vírus. A ideia do «outro» como transmissor da morte, como um “estrangeiro” que traz consigo a peste, fundamenta a estrutura argumentativa da maioria dos discursos xenófobos que alimentam o despotismo que se espalha — também ele como um vírus — por esse mundo fora. A discussão da possibilidade de supressão de liberdades individuais, das quais a cultura ocidental não pode de forma alguma abdicar, encontra o seu enraizamento ontológico nesta ideia segundo a qual, no «outro», se encontra a manifestação mais imediata da nossa própria finitude.

É absolutamente necessário manter o distanciamento social nos dias que correm, assim como o será no período que se seguirá ao levantamento do estado de emergência. Só desta forma se poderá justificar o sacrifício que até agora tem sido levado a cabo por todos nós, mas sobretudo por aqueles que se encontram na linha da frente do combate contra o vírus. No entanto, mesmo tendo em conta a absoluta necessidade destas restrições às quais nos encontramos submetidos, de forma alguma poderemos fundamentar o argumento do distanciamento social sobre uma concepção do «outro» enquanto potencial transmissor. Sob uma tal concepção, não se torna possível promover um pensamento humanista que, desde o final da primeira metade do séc. XX, nunca se fez sentir como tão necessário.

No entanto, se esta concepção do «outro» não pode ser utilizada como fundamentação normativa da necessidade de regulamentação das interacções sociais no contexto de uma sociedade pós-pandémica, de que forma poderá então ser esta justificada? Onde poderá encontrar-se o pressuposto estrutural que, ao mesmo tempo que se mostra capaz de regular as interações sociais para conter a proliferação do vírus, não abre (tanto) espaço aos argumentos que defendem a necessidade de supressão de liberdades individuais, por seu turno enraizados numa politização da ideia do «outro» enquanto inimigo sempre presente?

É neste sentido que a necessidade do uso da máscara sanitária se apresenta como um exemplo que deve ser extrapolado para a forma como é construída a nossa concepção do «outro»; como o instrumento em cuja utilização se poderá também facilitar a compreensão da fundamentação teórica das normas de restrição das interacções sociais, não só no decorrer do estado de emergência, mas também para o período que a ele imediatamente se segue.

O design dos modelos de máscaras sanitárias cuja utilização é sugerida como metodologia de combate à pandemia (sejam elas a cirúrgica, FFP2 ou FFP3) obedece a um «código técnico» pré-determinado, i.e., a uma norma que define tecnicamente o seu propósito, a sua função. Esta norma, ao contrário do que é pensado por grande parte da população, assenta sobre a uma concepção do «outro» como aquele que deve ser protegido do seu utilizador. O uso da máscara, procura sobretudo conter a propagação do vírus do seu hóspede para um potencial portador com o qual o hóspede tem necessariamente de interagir. Enquanto instrumento, a máscara sanitária é concebida a partir da ideia de que somos nós, os seus utilizadores, quem deve proteger o «outro» da ameaça mortal que nós hipoteticamente representamos; de que somos responsáveis, não só pela nossa própria vida, mas também pela vida desse «outro» que é semelhante a nós, e com o qual temos obrigatoriamente de interagir.

Esta importante concepção do «outro» como aquele que deve ser protegido — e que no decorrer do séc. XX a humanidade parece ter esquecido —, tem vindo a guiar a maior parte da propaganda sanitária disseminada pela Direcção Geral de Saúde nos diversos meios de comunicação disponíveis, e é também sobre ela que deverá fundamentar-se a regulamentação das interacções que estabelecemos entre nós no nosso quotidiano. No entanto, habitamos hoje um mundo hipermediatizado, onde a imediatez da informação acabou por diluir a barreira antes existente entre a verdade e as fake news. Os canais de informação que, há três décadas atrás, eram tomados como autoridades credíveis na transmissão de informação, têm vindo a perder progressivamente o seu espaço e credibilidade para a utilização generalizada das redes sociais. O mundo “feito à medida” que se representa no scroll infinito que caracteriza a utilização dos social media, é hoje um inimigo real no combate ao vírus, assim como o é do humanismo do qual agora nos encontramos necessitados.

Na cultura do gosto e da partilha digital tem vindo a fundamentar-se, não uma linha de defesa baseada na partilha das informações necessárias no combate que agora travamos, mas uma concepção do mundo individualista pela qual facilmente se propaga uma concepção do «outro» que, no actual contexto, deve ser evitada. Cabe, por isso, a cada um de nós a responsabilidade de proteger o «outro» da sua morte, mas também o imperativo de disseminar a concepção do «outro» que fundamenta essa mesma atitude humanista.

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Ângelo Nunes Milhano, nascido aos 17 de março de 1984, é Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora e Investigador em Filosofia da Técnica/Tecnologia no grupo PRAXIS - Centro de Filosofia, Política e Cultura. Foca-se com particular interesse na problematização hermenêutica da relação que se estabelece entre técnica/tecnologia a linguagem e a ideologia.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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