Foto por Gerd Altmann | Pixabay

«A “sociedade informática” desse futuro não muito distante será a sociedade dos tateadores de teclas em busca de informação nova. E isto, precisamente por ser sociedade programada para tatear sobre teclas. A forma até agora insuspeita de liberdade será a da deliberação dentro de um programa. Pois dizer isto é a um tempo articular utopia e utopia negativa, porque tal forma insuspeita de liberdade pode perfeitamente virar dialeticamente escravidão tão total e totalitária que ninguém mais se ressentirá de falta de liberdade. Eis como estamos no mundo: tateamos, e nas pontas dos nossos dedos se condensa um futuro simultaneamente aterrador e inebriante.»

Flusser, V. (1985). O Universo das Imagens Técnicas – Elogio da Superficialidade, São Paulo, Annablume, 2008, p. 38.

A pandemia de Covid-19, sobretudo o período de confinamento que se registou por todo o mundo, solidificou em nós a ideia da importância que as plataformas digitais desempenham no nosso quotidiano. Foi graças a elas que nos foi possível manter o contacto com aqueles que nos são próximos mas que, devido às mais variadas circunstâncias, se encontravam/encontram distantes. Foram também elas que — infelizmente, apenas para alguns de nós — garantiram a continuidade do trabalho e da remuneração que dele advém, que nos possibilitaram o acesso a conteúdos de entretenimento mais diversificados e, o mais importante, o acesso à informação da qual, hoje mais que nunca, dependem as nossas vidas.

A compreensão da íntima relação que estabelecemos com a tecnologia no decorrer do período de confinamento, demonstra como a fronteira entre o real e o digital se tem vindo a tornar muito difícil de traçar. Com o desenvolvimento e a massificação do acesso às plataformas digitais no decorrer da última década, tornou-se difícil delimitar uma linha de fronteira capaz separar o real do virtual. Real e virtual encontram-se hoje numa relação quase simbiótica, e essa fronteira, se pode ainda ser efectivamente traçada, tornou-se, contudo, muito permeável. Ao atentar sobre o processo de construção que cada sujeito faz do seu «mundo-da-vida», verifica-se desde logo como as vivências digitalmente mediadas pelas plataformas digitais desempenham, hoje, um papel quase tão importante como aquele que é desempenhado pelas vivências “reais”. O smartphone acabou por se transformar numa extensão de nós mesmos, um objecto que se constitui como uma parte incontornável do nosso quotidiano, pois que nos encontramos cada vez mais dependentes das várias aplicações que através dele utilizamos. E isto, não apenas porque as aplicações trazem o outro até nós, mas também porque nos mostram a nós como parte desse mesmo espaço que, embora virtual, partilharmos com os outros e se constitui, por isso, como uma parte importante do nosso «mundo-da-vida».

O facto de estar a escrever este texto num destes dispositivos digitais é de tudo isto uma evidência. Através do meu smartphone, tenho acesso a uma plataforma onde se encontram os meus textos; posso editá-los, convertê-los, guardá-los e partilhá-los, dispondo ainda da possibilidade de aceder a eles mais tarde, e a partir de um outro dispositivo. Esta plataforma é uma extensão digital do meu eu. Um espaço “egológico” cujo acesso, há não tantos anos assim, se encontrava limitado a um único dispositivo, e que apenas poderia ser acedido num conjunto limitado de locais. Nunca a leitura que McLuhan fez dos dispositivos tecnológicos — nomeadamente dos meios de comunicação — enquanto “extensões do homem” pareceu fazer tanto sentido como nos dias que correm.

Contudo, e tal como o demonstra toda a história da tecnologia moderna, não podemos deixar de estar atentos aos perigos inerentes ao uso massivo das tecnologias digitais que se encontram ao dispor da humanidade. No processo de estruturação do «código técnico» que determina a funcionalidade e a evolução de um barco, contempla-se o naufrágio, com o do avião, os desastres aéreos, no do automóvel, os acidentes rodoviários. Em todos os exemplos que poderiam aqui ser referidos, o processo de desenvolvimento tecnológico contempla sempre o perigo inerente ao uso dos dispositivos em causa. Contudo, tal perigo apenas se manifesta aquando da sua utilização, razão pela qual se torna necessário questionar: onde reside o perigo inerente à utilização massiva das plataformas digitais?

São vários os perigos para os quais é necessário atentar no contexto do digital. A criação e implementação de um Regulamento Geral para a Protecção de Dados (RGPD) pela União Europeia em 2018, foi uma consequência da tomada de consciência de alguns desses perigos. Mais recentemente, a criação de aplicações que permitem seguir o «rasto» de quem se encontra infectado pelo SARS-CoV-2, constitui por si uma outra chamada de atenção para os problemas de privacidade inerentes ao registo digital de dados. No entanto, e embora ainda se encontre relacionado com as questões da privacidade digital, há ainda um outro perigo sobre o qual a sociedade tecnológica pós-pondémica terá de reflectir com bastante atenção: o de como o processamento digital dos nossos dados se mostra capaz de determinar a nossa própria concepção do mundo; de como o nosso rasto digital pode ser interpretado pelos algoritmos de modo a prever e, em alguns casos, a determinar, os nossos comportamentos.

O papel desempenhado pelos Social Media na decisão do referendo que levou ao Brexit, na eleição de Donald Trump, e também na de Jair Bolsonaro,  são alguns dos casos que ganharam bastante atenção mediática, e que demonstram como a interpretação do registo de dados por um algoritmo, quando devidamente enviesado, se mostra capaz de influenciar a concepção do mundo que é construída por um determinado utilizador. Muito embora a maioria dos algoritmos que processam os dados que cada um de nós fornece, voluntariamente, aos Social Media tenha um propósito comercial bastante simples — i.e., direcionar a publicidade de produtos e bens de consumo de acordo com as nossas preferências — a sua capacidade interpretativa, ainda que rudimentar, mostra-se capaz de criar um perfil dos utilizadores, no qual se poderá compreender uma representação — ainda que limitada — da sua mundividência.

O problema que assim se desenha, embora demasiado grave, não reside apenas na possibilidade destes algoritmos serem passíveis de um enviesamento que obedece a interesses políticos. Os casos mediáticos acima referidos — nomeadamente o Brexit e a eleição de Trump como Presidente dos E.U.A. — foram alvo de análise e escrutínio por diversas entidades governamentais e não governamentais (algo que não acontece no contexto da utilização quotidiana dos Social Media por um utilizador mediano). O perigo inerente à interpretação do «rasto» digital, a partir do qual se torna possível a um algoritmo a criação de um perfil, mostra-se logo no seu nível de funcionamento mais rudimentar. Ao deixarmos um «rasto», sobretudo no que diz respeito às plataformas dos Social Media, estamos a dar informação aos algoritmos acerca das nossa preferências. Depois dessa informação ser processada, esses mesmos algoritmos comandam o tipo de conteúdos que nos são apresentados, sempre em conformidade com o perfil traçado para cada um de nós.

A publicidade direcionada é, contudo, o menor dos problemas com os quais nos devemos preocupar. Com a escalada de utilização massiva dos Social Media, e sobretudo com a possibilidade de comunicação e partilha que estas plataformas disponibilizam, elas transformam-se numa versão contemporânea da Torre de Babel. Cada um de nós recebe apenas informação da qual já estava à procura, aquela que, de acordo com o nosso «rasto», será do nosso interesse, e que nos fecha, pouco a pouco, numa bolha informativa de redundância, numa câmara de eco digital. A possibilidade de abertura para o mundo que as tecnologias digitais permitem, tem sido fechada de acordo com este modelo de funcionamento. O próprio «código técnico» que as comanda, direciona a seu funcionamento no sentido da ultra-subjectivização dos seus utilizadores.

Na Torre de Babel que são os Social Media, o perigo mais avassalador vem assim mostrar-se como o de carácter estritamente ideológico. Na medida em que um utilizador toma os Social Media como uma fonte fidedigna de informação — uma vez que é possível estabelecer um contacto directo com os agentes políticos que delas também fazem uso — o ideal político de um utilizador mediano, ainda que embrionário, facilmente se transforma numa convicção extrema. A câmara de eco que é construída pelo algoritmo — ele próprio racionamente objectivo e, aparentemente, independente de uma orientação ideológica substancial —, apenas dá força aos preconceitos dos seus utilizadores, uma vez que já faz parte do seu «mundo-da-vida». Num contexto social pós-pandémico, onde o medo do outro se manifesta com uma intensidade nunca antes vista, torna-se necessário estar consciente desse perigo silencioso, no entanto, potencialmente letal. Tal como um biólogo que sabe como observar e analisar cautelosamente um animal feroz, também hoje necessitamos de ter presentes estes perigos que caracterizam o uso que todos nós fazemos das plataformas digitais.

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Ângelo Nunes Milhano, nascido aos 17 de março de 1984, é Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora e Investigador em Filosofia da Técnica/Tecnologia no grupo PRAXIS - Centro de Filosofia, Política e Cultura. Foca-se com particular interesse na problematização hermenêutica da relação que se estabelece entre técnica/tecnologia a linguagem e a ideologia.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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