FOI PARA ACABAR COM A GUERRA QUE SE FEZ O 25 DE ABRIL!

“Ficou-nos a PAZ! O que não é pouco; é quase tudo! O que começou por ser um golpe de Estado e que acabaria por se transformar numa revolução (fugaz como quase todas as revoluções que se deixam iludir pelas canções de embalar da resistência insidiosa das classes desapossadas temporariamente do poder, que nos mandaram para casa, que eles tratavam da ordem e progresso), deve a sua origem à luta vitoriosa dos povos das ex-colónias africanas, que combateram durante 13 anos pela sua liberdade e independência.”

O 25 de Abril está quase a fazer 50 anos. A comemoração deste ano tem o sabor especial de assinalar 48 anos de democracia, mas já com mais uns dias em liberdade do que os 48 anos que passámos em ditadura. O que me faz lembrar o dilema do copo meio cheio ou meio vazio (tudo depende da nossa exigência democrática!), tendo em conta o meio caminho, ou mesmo a regressão, em alguns dos desígnios da Revolução, como sejam a Habitação, um direito constitucional para todos,  com o aumento brutal e incomportável que se tem verificado nas rendas (400 ou 500 euros por um T1 em Viseu) e o enorme défice de habitação social em Portugal (como o município de Viseu já reconheceu); a Educação, visto que mais de metade dos jovens com 20 anos não está a estudar e somos um dos países no mundo em que é mais acentuada a diferença entre o número de estudantes inscritos no ensino secundário e os que acabam por entrar no ensino superior; e na Saúde, em que o Serviço Nacional de Saúde, a melhor conquista da democracia, tem regredido, com um milhão de portugueses sem médicos de família e a “deserção” de profissionais de saúde para os grupos privados. Como disse Constantino Sakellarides, professor catedrático jubilado da Escola Nacional de Saúde Pública, que tinha sido nomeado para liderar um projecto de reforma de cuidados SNS+Proximidade, mas que acabaria por pedir a demissão por “não estarem reunidos todos os requisitos essenciais à transformação do SNS”:  “O SNS não suporta mais 15 anos de retrocesso e estagnação”( DN 9.06.2018). Apesar deste retrocesso, devemos ao SNS e aos seus profissionais  os bons cuidados que nos foram prestados durante a pandemia da Covid-19. Mas o SNS precisa de cuidados continuados!

Resta-nos o Pão, a Paz e a Liberdade. O que não é pouco; é quase tudo! O pão, como outros bens essenciais, está a aumentar exageradamente face à estagnação dos salários e do poder de compra sugado pela especulação e pelos lucros desmedidos. Mas apesar de todas as crises económicas geradas pelo capitalismo (neo)liberal que nos foi imposto pelos vencedores de Novembro (“Quando a nossa festa se estragou/ e o mês de Novembro se vingou/ Eu olhei p’ra ti/ E então eu entendi/ Foi um sonho lindo que acabou/ Houve aqui alguém que se enganou” – José Mário Branco, “Eu vim de longe, eu vou para longe”), que se foram alternando no poder, partilhando as benesses dos fundos europeus desbaratados em corrupção, nas privatizações e nas Parcerias Público-Privadas (Proventos Privados, Prejuízos Públicos!) de que Cavaco e Sócrates, e os seus amigos oligarcas, foram tristes expoentes, apesar de tudo, dizia eu, nada se compara com a fome, a miséria e o atraso social do tempo de Salazar e Caetano que obrigou mais de um terço da população a emigrar para França, Alemanha, Canadá, Luxemburgo e Suíça. Contando com a 1ª República, temos cinco milhões de portugueses, metade da população, espalhada pelo Mundo! O que, só por si, mostra a bizarria de termos hoje uma extrema-direita a crescer no Parlamento com um discurso racista e xenófobo, motivo mais do que suficiente para fazer cumprir a Constituição de Abril que não permite a existência legal de tais excrecências da democracia, em respeito pelos Direitos Humanos.

Ficou-nos a PAZ! O que não é pouco; é quase tudo! O que começou por ser um golpe de Estado e que acabaria por se transformar numa revolução (fugaz como quase todas as revoluções que se deixam iludir pelas canções de embalar da resistência insidiosa das classes desapossadas temporariamente do poder, que nos mandaram para casa, que eles tratavam da ordem e progresso), deve a sua origem à luta vitoriosa dos povos das ex-colónias africanas, que combateram durante 13 anos pela sua liberdade e independência. Tal como hoje faz o povo da Ucrânia ao resistir à invasão e à guerra criminosa do regime pré-fascista de Putin, que nada justifica, por muitas provocações que reconheçamos dos governos ucranianos, de democracia duvidosa (segundo a própria UE),  e da NATO, com a colocação do seu arsenal a 600 km de Moscovo.

Para quem defendendo o 25 de Abril parece ter esquecido a lição tirada pelos capitães de Abril:  “nenhum povo pode ser livre enquanto oprimir outros povos!”, deixem que vos desafie a este exercício de imaginação: Suponham que a NATO,  em vez de ter integrado a ditadura de Salazar no seu seio, desde a sua fundação em 1949, e dos nossos aliados, EUA, França e Alemanha nos terem vendido as armas com que massacrámos os povos africanos, contribuindo assim para o prolongamento da guerra e da ditadura mais longa da Europa, decidiam, em 1961 (inicío da guerra colonial), ou um pouco mais tarde, a pretexto de ajudarem a povo português e os povos africanos a libertar-se, invadir Portugal, bombardeando Lisboa, Porto, Coimbra e Viseu. Ficaríamos agradecidos ao invasor, enquanto contabilizavamos os mortos, os feridos e os custos da destruição de cidades e monumentos?… Ou combateríamos os invasores, aproveitando para nos libertarmos da ditadura antecipando a revolução que só chegaria em 1974?… É com esta perspectiva que muitos ucranianos de esquerda, apesar da repressão e da suspensão das actividades políticas de 11 partidos (para além da ilegalização do PCU já no tempo do presidente Boroschenko que reabilitou o nazi Stepan Bandera, responsável pelo massacre de 4 mil judeus), engrossam a resistência aos invasores russos, combatendo pela liberdade e independência da Ucrânia.

Do 25 de Abril ficou-nos, antes do mais, a Liberdade! O que é tudo! Mas sabe a pouco quando ouvimos e vemos a maioria da nossa comunicação social, cada vez mais dominada economica e ideologicamente pelos “donos disto tudo”. Um exemplo: o grande repórter da Antena 1, Nuno Amaral, viseense por sinal, entrevistou uma jovem ucraniana de 29 anos que decidiu fugir para a Polónia com a mãe, “não por medo, mas por já não ter dinheiro” (é fotógrafa de dança de competição e ficou sem trabalho), e acusou a Rússia, mas também as provocações do governo ucraniano. Ouvi esta reportagem no noticiário das 8 horas, mas, ao contrário do que é costume, não voltei a ouvir a sua repetição nos outros noticiários. Se alguém me desmentir, ficarei mais tranquilo.

Falta ainda cumprir a Igualdade num país com imensas desigualdades sociais e territoriais, onde um governo que se diz “socialista” insiste em não repôr os direitos laborais retirados pela Troika e pelos governos de direita; onde as mulheres ainda estão muito longe do “salário igual para trabalho igual”; onde o interior continua discriminado, em boa parte devido aos investimentos errados que promoveram a litoralização, como os que nos transformaram no país da Europa com mais quilómetros de auto-estradas do que de ferrovias, desprezando as alterações climáticas e a sustentabilidade ambiental.

25 de Abril, sempre… com Paz, Pão, Habitação, Saúde, Educação! E com a Liberdade e a Igualdade que só o Socialismo previsto na Constituiçao da República nos pode garantir. Porque não há Democracia, sem Igualdade, nem Liberdade!

 

 

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Nascido em Viseu, no 1º de Maio de 55; comerciante e professor (não praticante) de EVT; vice-presidente da Olho Vivo – Associação para a Defesa do Património, Ambiente e Direitos Humanos e activista do Núcleo de Viseu desta ONG. Foi deputado municipal do BE, na AM de Viseu, de 2009 a 2017. É cronista em blogues e jornais regionais. Esporadicamente publica cartoons e faz recitais de poesia. É membro do CORO AZUL – grupo vocal da Associação Gira-Sol Azul.

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