Cultura, Património e Desporto: parentes pobres, instrumentos ou a chave para “um mundo melhor”?

Cidade da Cultura – Foto de Nachos Pintos | Flickr
A cultura permite abrir horizontes para a reflexão crítica do que nos rodeia. Deve ser estimulada, livre, partilhada, discutida, parte do espaço público. É importante que seja pensada estrategicamente! Mais do que apenas numa lógica de oferta de programação e eventos, é preciso estimular a criação e programação regular, estimular o trabalho descentralizado, em proximidade, com foco na criação de públicos.

As Câmaras Municipais devem ser facilitadoras da dinâmica e diversidade de propostas culturais, zelar pela sustentabilidade do setor, bem como apoiar projetos que visem a participação ativa das comunidades: estas são linhas de uma efetiva política cultural, não a habitual instrumentalização da cultura e de agentes culturais.

Já o património é a janela para a memória do passado, permite conhecer quem somos sem esquecer de onde viemos, deve ser, por isso, preservado e valorizado, entendido como algo além de uma peça de promoção turística. A classificação é fundamental para a proteção do património, impedindo que se torne permeável a políticas e vontades que vão variando com o tempo e com as pessoas que as assumem.

Sobre desporto: o direito à atividade desportiva consta da Constituição da República Portuguesa e, por isso, garantir condições para a sua realização é uma das obrigações dos municípios. O desporto pode também, a par da cultura, desempenhar um papel crucial na inclusão social, por isso mesmo deve ser para todas as pessoas, independentemente da sua idade, condição social, territorial ou económica.

O papel fundamental que cultura, património e desporto, enquanto âncoras de sociedades mais justas, coesas, de comunidades mais felizes e preenchidas, de vidas com mais sentido, é esquecido, por intenção ou força do hábito.

A visão para estas áreas, nas nossas autarquias, geralmente, reparte-se entre a desvalorização assumida pela falta de investimento, ou uma instrumentalização que alimenta relações de dependência/ subserviência e o interesse pessoal de umas poucas pessoas.

Neste tempo que antecede a campanha para as autárquicas de 26 de setembro e em que se vão discutindo ideias, é preciso pensar propostas que vejam a cultura para além do grande evento anual, património para além da oferta turística e desporto para além da equipa de futebol federada e bem classificada.

O grande evento anual, o turismo, a equipa que ganha coisas, são importantes! Mas estas áreas não podem ser reduzidas apenas ao que é mais visível, têm de ser reconhecidas como estruturantes e emancipadas dos executivos municipais, que deve ter como papel o apoio orçamental e a garantia da democratização da participação participação cultural, do acesso ao que o património ensina e da prática desportiva.

Com estes três pilares, caminharemos certamente para aldeias, vilas e cidades mais plurais, diversas, ricas, com pessoas mais integradas, participativas, com uma vida em comunidade mais significativa e profícua.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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