Confesso que quando fiz o meu êxodo para Viseu me inquietava esta entidade que é o interior. Questionava-me: mas não somos o mesmo país? Há mesmo o interior enquanto problemática ou enquanto forma identitária?
Foi preciso, mais do que viver em Viseu, viver Viseu para perceber que aqui as coisas são realmente diferentes. As lutas são mais suadas, as vitórias mais doridas, as conquistas mais singulares.
Por vezes parece que nas grandes cidades litorais é tudo automático… Pois no interior nada se repete. Cada experiência tem de ser conquistada a pulso e interpretada na sua peculiaridade contextual e individual.

No interior não se vive e faz o mesmo que no resto do país? Sim, pode viver-se da mesma forma e até fazer o mesmo... Mas é muito mais difícil.

Hoje sei que existe o interior, que não é bem igual ao resto do país e que enquanto não o for em oportunidades, condições e respeito pelas suas gentes haverá trabalho a fazer.
O maior problema que o interior enfrenta é o despovoamento, que tem como consequências a falta de jovens e massa crítica. Mas se este é o início, é também o resultado, pois os obstáculos resultam uns dos outros, acumulam-se e adensam-se, como uma bola de neve. Além das pessoas, faltam no interior os serviços, o investimento, os empregos, as oportunidades…

Faltam acima de tudo políticas de proximidade conscientes das necessidades das populações e do território.

Aplicar medidas através de folhas de cálculo não serve, é preciso saltar do gabinete e conversar com o João que quer fazer da agricultura biológica o seu futuro, com a Maria que tinha o hábito de se encontrar com as amigas quando ia levantar a pensão aos correios e com a Joana que é apaixonada pela terra onde nasceu e gostava de não ter que sair dela para conseguir emprego.

O Interior precisa com urgência de políticas que procurem descentralização e regionalização… Mas não de qualquer forma. O interior precisa de órgãos próximos e autónomos, eleitos de forma claramente democrática, dinâmicos e com a capacidade de se ajustarem às necessidades de cada realidade.

Só dessa forma virão os comboios, os investimentos, os empregos, as pessoas. Só dessa forma seria óbvio que às populações do interior não pode faltar a saúde, a educação e a justiça. Só dessa forma se poderá mudar de residência de Coimbra para Viseu e sentir que não existe interior.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-me em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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