Cresci e vivo em contextos de empoderamento, que sempre me fizeram sentir que poderia ser quem e como entendesse, em que ser mulher nunca foi sentido como um limite ou uma desvantagem. Para mim sempre foi óbvio que pessoas são pessoas e que esta verdade era muito natural e simples. Por isso continua a ser chocante cada vez que se torna óbvio que ainda não há igualdade de género plena. É chocante cada vez que esbarro com a realidade. Sou mulher. Enquanto tal faço parte de 53% da população. Então porque continuo a ser tratada como minoria social?

Uma minoria social que se exprime através da justiça machista, em que preconceitos e determinadas percepções de papéis de género que remontam, por exemplo, ao tempo bíblico, moldam acusações e sentenças nos tribunais. É necessária formação de magistraturas e forças policiais, para que as mulheres deixem se ser tantas vezes responsabilizadas pelas violências que sofrem.

Uma minoria social que se exprime na desigualdade salarial: os salários das mulheres são ainda cerca de 16% mais baixos, por trabalho igual ou equivalente, uma desigualdade que se acentua quanto mais altos forem os salários.

Uma minoria social que tem expressão porque uma maioria ainda pensa que a gestão do trabalho doméstico é responsabilidade da mulher, que todas as mulheres devem ter instinto maternal para serem completas e casar para serem felizes. Uma perceção de minoria, apesar de sermos 53%, marca de uma sociedade patriarcal.

Em 2019 o movimento da Greve Feminista Internacional introduziu no debate político português a ideia de “greve social”, um conceito que vai além da greve laboral, colocando no centro a vida concreta das mulheres, diferenciando “trabalho” de “emprego” e estendendo-o aos cuidados domésticos e familiares, à vida estudantil e à sociedade de consumo.

Em 2020 a Rede 8 de Março volta a convocar greve para o Dia Internacional das Mulheres, dia 8 de março. Uma greve social feminista que reivindica mudanças nas ruas, nas escolas, locais de trabalho e em casa, no sentido da igualdade, do fim da discriminação e do fim das violências.

A Rede 8 de Março é uma plataforma nacional que reúne colectivos, associações, organizações políticas, sindicatos e pessoas a título individual. É constituída por núcleos em diversos pontos do país: Amarante, Aveiro, Braga, Coimbra, Évora, Faro, Lisboa, Porto, Vila Real e Ponta Delgada.

Embora as palavras feminismo ou greve possam assustar a questão torna-se muito simples se começarmos a pensar no que acontecerá se as mulheres pararem.

E se as mulheres pararem? Pára o mundo. As mulheres são seres tão válidos como qualquer homem. Então porque continuam a ser as principais vítimas de violência doméstica? Porque continuam a morrer em contextos que deveriam ser de segurança? Porque continuam a ser preteridas para determinados cargos? Porque continuam a ser objeficadas diariamente? Porque continuam a ter medo de sair à rua sozinhas? 8 de março será  o dia para pensar profundamente estas questões, para lembrar que ainda há um caminho a percorrer na defesa dos direitos das mulheres e na conquista da igualdade. 8 de março será o dia para celebrar as mulheres, que se querem vivas, livres e unidas!

As mulheres demandam ter voz. Os feminismos em Portugal existem de forma inegável… Mas ainda não é suficiente. As medidas políticas têm sido escassas para enfrentar o problema, basta olhar para os números negros do feminicídio. Tudo o que se fizer, de iniciativa cidadã ou política, de conquista de direitos sociais ou formais, de âmbito local ou nacional, será sempre insuficiente enquanto os números de feminicídios forem tão absurdamente elevados. Por isso, por tudo o resto, porque as mulheres não são uma minoria: vamos sair à rua no dia 8 de Março?

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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