Foto de Vítor Oliveira | Flickr

Estamos em Abril, em particular na semana de abril que antecede o 25 de Abril. O dia que relembra a conquista da democracia e da liberdade, que é, além de uma recordação ou de uma efeméride, um “dia-luta”. Democracia e liberdade não são ainda dados adquiridos e exigem uma conquista contínua.

Neste momento em que grande parte da população se encontra limitada nas sua rotinas e nas suas deslocações por dever de distanciamento físico, devido à crise pandémica do COVID-19, nunca terá feito tanto sentido hastear a bandeira de Abril, 46 anos volvidos desde o 25 de Abril de 1974.

Diz-nos a história da humanidade que crises epidemiológicas têm desencadeado: estigmas e segregações. Regra geral, são os grupos mais fragilizados socialmente quem mais sofre, havendo uma transição dos medos associados à doença para estes grupos. Foi assim com a Doença de Hansen, mais conhecida como lepra, e com o pecado e a impureza. Foi assim com a designada Peste Negra, o terror Europeu da Idade Média, e com a pobreza. Foi assim com a Sida e com a homossexualidade.

Embora opiniões surjam que apresentam o COVID-19 como democrático, uma análise mais profunda permite perceber que não é bem assim: esta crise não atinge da mesma forma todas as pessoas, todas as populações ou todos os lugares, algumas estão particularmente frágeis. Desigualdades já existentes acentuam-se fortemente, faltas já denunciadas aumentam de gravidade e quem já pouco tinha fica com menos.

Se neste país existia uma conceito de Interior que, além das características geográficas, se definia pelo despovoamento, pela precariedade laboral associada à falta de alternativas, pela falta de serviços públicos de proximidade e por carências em termos de mobilidade e transportes públicos, estes são problemas que desde março se têm vindo a acentuar, ou modificar no sentido de causarem ainda maior preocupação e desfasamento face à realidade vivida noutros locais do país.

Isolamento é uma palavra do momento mas que não é novidade no Interior.

Falamos de isolamento de pessoas, de povoações, dispersas num grande território, composto por muitos retalhos muito mal cozidos, cada vez mais mal alinhavados. Falta a coesão conseguida com medidas estruturais de aposta na mobilidade e na reabertura de serviços públicos. As soluções que se exigem agora para o interior não diferem em muito do período anterior à crise pandémica, mas são agora ainda mais emergentes. Emergência que irá crescer nos próximos tempos com o regressar gradual a algumas rotinas.

O acesso aos serviços públicos serão agora ainda mais dificultados, pois não existem em lógica de proximidade e a mobilidade, já antes deficitária, é agora, muitas vezes, inexistente. No interior transportes públicos rodoviários deixaram de existir com esta crise, por indicação ou aceitação de autarquias locais e Comunidades Intermunicipais. No interior as vias de circulação ou são, vulgo, más ou pesadamente pagas (como no caso das ex-scut A23, A24 e A25). No interior transportes ferroviários também não são alternativa, pois praticamente não existem e, quando existem, apresentam diversos problemas.

O que vai acontecer quando as aulas presenciais para o secundário regressarem se muitos transportes públicos estão suspensos? O que acontece quando o acesso à saúde de forma autónoma é impossível porque nem os únicos dois horários usualmente disponíveis das carreiras existem (um de manhã e um ao final do dia)? O que acontece quando fábricas agora fechadas reabrirem e as funcionárias e funcionários, que muitas vezes se deslocam de outros concelhos, não tiverem forma de transporte?

Apesar da paisagem ser bonita, falta muito para uma boa qualidade de vida no Interior.

O emprego no interior já era desafiante. As alternativas são poucas e consistem frequentemente em monopólios de grandes grupos e/ou mananciais de precariedades, desde as empresas de trabalho temporário às apanha de fruta sem contrato. Para escapar a esta rede que limita a voz e os direitos de quem trabalha resta a migração para o litoral o país ou a emigração, sendo que o que muitas vezes se encontra não é menos precário.

Estes são problemas que se intensificam agora, com despedimentos coletivos, utilização abusiva do regime de lay off, férias forçadas a título de chantagem e o regresso de emigrantes desempregados.

Mais uma vez, este problema de crescimento facilmente antecipado, demanda soluções que passam por estratégias estruturais e não por medidas pontuais. É necessário executar um plano ferroviário nacional, é necessário reabrir gradualmente serviços públicos, é necessário defender e garantir os direitos de quem trabalha, são necessárias alternativas rodoviárias viáveis e não portajadas, entre muitas outras coisas, que com elas trarão a tão afamada coesão territorial, qualidade de vida, emprego e pessoas para o Interior, diminuindo o despovoamento.

Até que se encontrem e executem soluções para o interior, este será um dos lugares do país mais afetado por uma crise pandémica, social e económica, provocada por um vírus que assim se constitui como tudo menos democrático.

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Nasceu em Coimbra. Cresceu em Coimbra, com fortes raízes familiares em Castelo de Paiva e no Porto.
Reside em Viseu. Não voou para longe, mas encontrou uma outra casa.
Desde cedo, manifestou interesse em áreas comumente assumidas como divergentes: literatura, ciência, arte, medicina, religião, filosofia, política.
É procurando uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo e da humanidade que decidiu formar-se em Antropologia.
Atualmente "existe" em diversos desígnios e lutas. Desde a militância no Bloco de Esquerda ao ativismo na Plataforma Já Marchavas, passando por diversos projetos culturais onde se cruza com a filosofia (Nova Acrópole) ou o cinema (Nómada Malabarista).

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