Foto retirada de Cinema Sétima Arte

A decisão da Comuna de Paris de decretar o 1.º de Maio como o Dia Internacional do Trabalhador teve repercussões no nosso país. Entre 1852 e 1910, realizaram-se 559 greves no nosso país. A subida dos salários, a diminuição da jornada de trabalho e a melhoria das condições de laboração eram as principais exigências dos operários.

O 1.º de Maio de 1900 juntou em Lisboa cerca de 40 mil pessoas, numa altura em que “as classes médias ainda viam as organizações de trabalhadores com alguma simpatia”.

Durante a Primeira República continuou-se a festejar o Dia do Trabalhador, no entanto não constava dos feriados nacionais. Em 1933, é decretada a “unicidade sindical” e o “controlo governamental dos sindicatos” esmorecendo um movimento operário que só ganharia novo ânimo na década de 40. Durante o Estado Novo, as manifestações no Dia do Trabalho, assim como outras, eram organizadas e controladas pelo Estado, caso contrário proibidas.

O primeiro 1.º de Maio celebrado em Portugal depois do 25 de Abril foi a maior manifestação alguma vez organizada no país.

Aqui fica uma lista de sugestões em que o tema se debruça sobre trabalho, relações de trabalho, algumas profissões em particular ou só pela forma como o trabalho monopoliza as nossas relações sociais e pessoais. Tentei que pudesse conter estilos e formatos diferentes e que fosse transversal cronologicamente.

– A Greve – Serguei Eisenstein (1925)
Uma obra na qual se propõe expor as minúcias do desenrolar de um ato revolucionário, tendo como pano de fundo uma greve numa fábrica russa desencadeada pela morte de um operário injustamente acusado de roubo. Eisenstein usa as palavras do próprio Lenine para compor a epígrafe: “A força da classe trabalhadora é a organização. Sem a organização das massas, o proletariado não é nada. Organizado, é tudo. Estando organizado significa que está unido para a ação, unido para a atividade prática”. O realizador rejeitou a utilização de maquilhagem e efeitos que alterassem a fisionomia dos proletários. Pelo contrário, policias e burgueses aparecem muitas vezes sobrepostos com imagens de animais. A opção com um claro sentido ideológico, o de fazer com que o público se sentisse mais próximo dos protagonistas, do filme, e do momento histórico.

– Tempos Modernos – Charlie Chaplin (1936)
Uma das obras mais emblemáticas do realizador satiriza a linha de produção do sistema fordista. Um clássico do tema do trabalho, o filme passa-se no período imediatamente posterior à depressão económica de 1929, decorrente da queda da bolsa de Nova Iorque, quando o desemprego atingiu em cheio a sociedade norte-americana. Nele, a “modernidade” figurada na sociedade industrial, urbana, na linha de montagem e especialização do trabalho é alvo da crítica. No filme, o operário, ao conseguir emprego numa grande indústria, transforma-se em líder grevista e é perseguido pelas suas ideias “subversivas”. O filme trata também das desigualdades entre a vida dos pobres e das camadas mais abastadas. Embora o cinema falado já existisse há nove anos, Chaplin insistia em realizar filmes mudos, “Tempos Modernos” foi o último deles.

– As Vinhas da Ira – John Ford (1940)
O filme, baseado no livro homónimo de John Steinbeck, conta a saga da família Joad, da expropriação das terras onde viviam, à longa viagem de Oklahoma à Califórnia, pela rota 66, movidos pela ilusão de que as plantações de laranjas garantiriam emprego fácil. Na chegada ao tão sonhado destino começa a desilusão. Entram em contacto com o mundo de miséria por detrás da prosperidade capitalista. Aos poucos descobrem fazer parte do imenso contingente de trabalhadores expulsos das suas terras, desesperados por qualquer tipo de colocação nas novas formas de emprego que se estabelecem.

– A Terra Treme – Luchino Visconti (1948)
Este filme semidocumental conta a história da família Valastro, pescadores há gerações. Porém, agora são forçados a aceitar as condições de poderosos comerciantes grossistas, cujos magros pagamentos são insuficientes para sustentar as suas famílias. Revoltam-se, escapam aos grossistas e começam a prosperar. Quando uma violenta tempestade destrói o seu único navio, são forçados a trabalhar para os grossistas, ou a morrer à fome. O fracasso dos Valastros é, de certo modo, o fracasso da ideologia do empreendedorismo que ilude os proletários com a ideia de que o trabalho por conta própria é uma saída para a exploração da força de trabalho e até mesmo do desemprego.

– Ladrões de Bicicletas – Vittorio De Sica (1948)
Um dos filmes mais marcantes do neorrealismo italiano. Expõe o drama do desemprego logo após a Segunda Guerra Mundial numa Itália derrotada e em profunda crise económica. Não há trabalho e o povo está imerso na pobreza. António Ricchi procura trabalho, qualquer um. Depois de muitas tentativas, surge-lhe um emprego como afixador de cartazes publicitários nas ruas de Roma. António sente-se feliz, assim como a mulher e o filho. No entanto, um dia um ladrão rouba-lhe a bicicleta. António fica desesperado porque sem ela não pode trabalhar. Está de tal maneira perdido que pede ajuda aos amigos e ao filho para recuperá-la.

– Há Lodo no Cais – Elia Kazan (1954)
Filmado durante o período em que o macarthismo dominava a produção cinematográfica dos EUA, este filme conta a história de Terry Malloy, interpretado por Marlon Brando, um estivador das docas de Nova Iorque que entra em conflito aberto com um sindicato que tem estreitas ligações ao mundo do crime. Apesar de ser considerada uma das melhores obras de Kazan, tendo recebido oito dos dez Óscares para que foi nomeado, o filme despertou muita polémica. Existe a leitura que o realizador tentou passar subliminarmente a mensagem de que, em certas circunstâncias, trair os colegas é a atitude mais correta, procurando desta forma justificar as denúncias que ele próprio fez, num período da história do cinema americano que ficou conhecido como a “caça às bruxas”.

– Esse Mundo é Meu – Sérgio Ricardo (1964)
Pedro trabalha e não recebe aumento há anos. Toninho, engraxador, junta dinheiro para comprar uma bicicleta. Paralelamente, o sentimento de injustiça toma conta dos dois jovens, resultando numa revolta contra o sistema. Este filme é um bom exemplo da realidade do trabalhador brasileiro sobre um olhar neorrealista. A miséria e a opressão afeta brancos e negros, porém de forma subtilmente diversa. Pedro tem alguma consciência de classe, da realidade de sua condição de oprimido, sentimento que não é plenamente partilhado por Luzia, sua companheira. Toninho é pragmático, em momentos de felicidade é ele quem cantarola e assobia a canção do título de Sérgio Ricardo, “Esse Mundo é Meu”. O filme antecedeu a ditadura militar em pouquíssimo tempo. Lançado no marcante 1 de Abril de 1964, dia do golpe, e nesse sentido sinistramente premonitório da situação que se abateu sobre o país. É um filme que fala de trabalho, mas o patrão fica ausente, apenas intuído.

– Norma Rae – Martin Ritt (1979)
Denúncia profunda da exploração que sofrem os trabalhadores e as trabalhadoras, em especial, na sociedade capitalista e baseado em factos reais, o filme transporta-nos para uma pequena cidade do sul dos EUA, Hinleyville, estado do Alabama, onde há uma fábrica têxtil de 800 operários, onde as condições de trabalho são péssimas. Como muitos dos integrantes da sua família antes dela, Norma Rae trabalha nessa fábrica têxtil por um salário que não condiz com as longas horas e as péssimas condições de trabalho. Depois de ouvir um discurso de um defensor dos direitos do trabalho, a jovem é inspirada a convencer os seus colegas de trabalho a lutar pela criação de um sindicato. Tendo de cuidar dos filhos, da casa, trabalhar na fábrica e ainda organizar o sindicato, vê-se constantemente exausta. Enquanto isso, as reuniões crescem de tamanho e os trabalhadores começam a falar dos seus problemas. Por conta do fortalecimento do sindicato, Norma passa a dedicar menos tempo às tarefas domésticas, o que vai gerar confronto com o marido, incapaz de perceber a sua militância e a importância desta.

– O Homem de Ferro – Andrzej Wajda (1981)
Um trabalhador comum que se torna um “homem de ferro” forjado pela experiência, um filho que faz as pazes com seu pai, um casal que se apaixona, um repórter que busca coragem para mudar a sua vida e uma nação inteira a passar por duras mudanças. Estes são os ingredientes deste filme, continuação do “Homem de Mármore” (1977). Na Varsóvia de 1980, o Partido Comunista envia Winkel, um repórter alcoólico e frágil, até Gdansk para descobrir os podres que estariam por detrás das greves nos portos. Um dos focos principais dessa investigação seria o jovem Maciej Tomczyk, um articulado trabalhador cujo pai foi morto durante os protestos de Dezembro de 1970. Fingindo interesse e simpatia, Winkel entrevista diversas pessoas que conhecem Tomczyk, incluindo a sua esposa, a presidiária Agnieszka. Ao fazer isso, Winkel depara-se com uma realidade diferente da que ele imaginava.

– ABC da Greve – Leon Hirszman (1990)
O filme cobre os acontecimentos na região do ABC paulista, acompanhando a trajetória do movimento de 150 mil metalúrgicos em luta por melhores salários e condições de vida. Sem obter êxito em suas reivindicações, decidem-se pela greve, afrontando o governo militar. Este responde com uma intervenção no sindicato da categoria. Mobilizando numerosos contingentes policial, o governo inicia uma grande operação de repressão. Sem espaço para realizar as suas assembleias, os trabalhadores são acolhidos pela igreja. Passados 45 dias, patrões e empregados chegam a um acordo, mas o movimento sindical nunca mais foi o mesmo.

– Germinal – Claude Berri (1993)
A Revolução Industrial provocou uma série de transformações políticas, económicas e sociais na história. O escritor francês Émile Zola representou essas transformações numa das suas mais célebres obras, “O Germinal”. A adaptação para filme transporta a abordagem às relações de trabalho e lutas de classe existentes na sociedade capitalista. É o processo de instalação do capitalismo nas cidades e o ritmo da produção e da exploração dos trabalhadores pelos patrões através do trabalho desumano nas minas de carvão francesas. O filme retrata claramente as severas transformações sociais impostas pelo modo de produção capitalista e o amadurecimento dos movimentos grevistas nas minas de carvão do século XIX em França.

– Recursos Humanos – Laurent Cantet (1999)
Frank é um jovem estudante de uma grande faculdade de comércio. Ao voltar para a casa dos pais, consegue estágio na empresa onde o seu pai é porteiro há trinta anos. Trabalhando no setor de recursos humanos, achou que conseguiria mudar o conservadorismo da empresa, negociando para que houvesse uma redução nas horas de trabalho dos empregados. Mas logo descobre que a sua tarefa é preparar caminho para uma reestruturação que levará a demissão de doze pessoas, inclusive a do seu pai.

– O Quadro Negro – Samira Makhmalbaf (2000)
Um grupo de professores, todos homens, atravessa os caminhos montanhosos de uma região remota do Curdistão Iraniano. Carregam grandes quadros negros às costas, viajam de cidade em cidade à procura de alunos. O ruído inesperado e ameaçador de helicópteros sobre as suas cabeças força-os a procurar refúgio perante um inimigo que não podem ver. Um professor, Reeboir, aventura-se, afastando-se dos outros e depara-se com um grupo de rapazes adolescentes que se arriscam ao transporte de contrabando de bens entre o Irão e o Iraque. Reeboir tenta convencer os jovens das vantagens de aprender a ler e a escrever, mas nenhum deles está interessado. Não há tempo para ler. Estão demasiado ocupados em arriscar as suas vidas para sobreviver. Said, outro professor que agora viaja sozinho, chega a uma vila aparentemente deserta. Ninguém responde à sua chamada, oferecendo os seus serviços como professor. Ele insiste, mas a única resposta que obtém são portas e janelas a bater. Mais tarde, Said encontra um grupo de aproximadamente cem pessoas, homens velhos, acompanhados apenas por uma jovem mulher e uma criança. Também eles estão fechados e desinteressados de aprender.

– Pão e Rosas – Ken Loach (2000)
Em 1908, mais de 14 mil mulheres marcharam nas ruas de Nova Iorque: reivindicavam o mesmo que as operárias do ano de 1857 e exigiam o direito de voto. Caminhavam com o slogan “Pão e Rosas”, o pão simbolizava a estabilidade económica e as rosas uma melhor qualidade de vida. Deste pressuposto dual de luta, o realizador parte para a história de duas irmãs mexicanas que atravessaram a fronteira para os EUA em busca de melhores condições de vida. Trabalham de noite e de cabeça baixa nas limpezas de um edifício de escritórios em Los Angeles, mas o encontro com um ativista norte-americano que as incita a reivindicar melhores condições pode pôr em risco a sua permanência no país.

– 8 Mile – Curtis Hanson (2002)
Retrato de uma semana na vida de um grupo de jovens que luta por um lugar ao sol na decadente cidade de Detroit, em 1995. 8 Mile é o nome da rua que divide um dos subúrbios pobres de Detroit do resto da cidade. Uma fronteira que Eminem, na figura de “Rabbit”,  se habituou a ter de enfrentar e que representa, para si e para os que como ele nasceram e cresceram no meio discriminado do subúrbio, um forte limitativo da sua existência. Esta é a história da importância destas fronteiras, da relação que cada um estabelece com elas, mas é também a história de um rapaz que não se resigna à exclusão, que procura ultrapassá-las e evitar que a sua vida acabe definida por elas.

– Às Segundas ao Sol – Fernando León de Aranoa (2002)
Uma cidade portuária no Norte, que há muito tempo voltou as costas ao campo e que se rodeou de indústrias que a fizeram crescer desproporcionadamente, que alimentaram a imigração e desenharam um horizonte de chaminés, de esperanças, de futuros desenraizados. Um grupo de homens todos os dias percorre as suas ruas, procurando as saídas de emergência. Trapezistas de fim de mês, e de início de mês também, trapezistas sem rede, sem público, sem palmas no final, que caminham diariamente pela corda bamba do trabalho precário, que aguentam a sua existência com andaimes de esperança e que se refugiam nas suas poucas alegrias, como se o naufrágio de que tentam salvar-se diariamente não fosse o seu, enquanto falam das suas coisas e se riem, de tudo e de nada em especial, esperançosos, tranquilos, na manhã de uma segunda-feira ao sol. O desemprego é a explicitação perversa da “situação-limite” do trabalho na sociedade do capital. Aranoa consegue traduzir em dramas pessoais a condição perversa do agudizar da vivência da classe operária, expresso por meio do desemprego de longa duração.

– Até Amanhã, Camaradas – Joaquim Leitão (2005)
Filme que adapta a obra homónima de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal. Num país oprimido por uma ditadura retrógrada, servida por uma polícia política implacável (PIDE), há quem resista e se organize para mobilizar o povo na luta pelo pão e pela liberdade, mesmo que isso lhes possa custar a prisão, torturas, ou até a vida. Pessoas como Vaz, Ramos, António e Paula, militantes e funcionários do Partido Comunista, que desenvolvem a sua ação na clandestinidade, reorganizam o Partido nas zonas dos arredores de Lisboa e do Ribatejo, ao mesmo tempo que preparam uma grande jornada de luta, com greves e marchas contra a fome.

– O Corte – Konstatin Costa-Gavras (2005)
Este drama com toques de comédia negra narra a história de Bruno Davert, um típico executivo que está há dois anos sem conseguir emprego e a ver as suas poupanças a chegarem ao fim. Sente o seu estilo de vida a ruir e isso acaba por leva-lo à loucura. Começa a traçar um mirabolante plano para recuperar o seu emprego, assassinando o homem que ficou no seu lugar e todos os seus possíveis concorrentes. O filme alterna as incursões criminosas deste anti-herói com uma outra empreitada igualmente complicada, a de manter a sua família na completa ignorância da situação e plenamente unida apesar da crise que vivem. 

– Ainda há Pastores – Jorge Pelicano (2006)
O retrato traçado a alguns dos últimos e resistentes pastores da Serra da Estrela, as suas histórias de sobrevivência num mundo quase perdido entre montanhas, as paisagens pitorescas, intocáveis, um estilo de vida que marcou os nossos antepassados e que ainda perdura no presente são alguns dos ingredientes deste filme. Em cada imagem ou plano, Jorge Pelicano captou a essência de cada pastor e encontrou em Hermínio, o pastor mais novo, uma personagem única, genuína. Dizem que é o pastor mais novo, mas também o mais doido. Sozinho, com rádio na mão, rasga montanhas ao som das cassetes do popular cantor Quim Barreiros, que um dia sonha conhecer.

– Nas Nuvens – Jason Reitman (2009)
Ryan Bingham, interpretado por George Clooney, é um quarentão empedernido, misantropo e com fobia ao compromisso. A sua especialidade é despedir pessoas, reformulando as necessidades empresariais com vista à maximização de recursos. Por isso, está sempre a viajar em trabalho, com uma bagagem minimalista que leva para todo o lado, facto que aproveita para saciar a sua compulsão em colecionar milhas aéreas. Porém, quando está prestes a atingir o objetivo das dez milhões de milhas como cliente regular, o patrão decide aplicar a Ryan o seu próprio conceito de maximização de recursos e mudar o método de trabalho, fazendo-o cumprir as suas funções através de vídeoconferência. A ideia de estar confinado a um escritório seria a mais aterradora de toda a sua carreira, não fosse algo ter mudado: Ryan acabou de conhecer Alex Goran e agora a perspetiva de assentar e começar uma família parece muito menos assustadora.

– A Mãe e o Mar – Gonçalo Tocha (2013)
O filme foi filmado na praia de Vila Chã, em Vila do Conde, e tem como tema as “pescadeiras”, tidas como caso único em todo o mundo. Aqui, elas são representadas por Glória, a única mulher que, depois de tantos anos e tantas adversidades, ainda se atreve a enfrentar o mar. Através de entrevistas e várias conversas onde se recorda o passado, o realizador revela como estas mulheres desafiaram a tradição e obtiveram licenças de pesca, dedicando a sua vida a uma profissão predominantemente masculina. Através de conversas, o documentário revela como as “pescadeiras” que antecederam Glória desafiaram a tradição e obtiveram licenças de pesca, dedicando as suas vidas à faina “e ao amor pelo mar”. 

– Vida Activa – Susana Nobre (2013)
Susana Nobre trabalhou durante cinco anos no Programa Novas Oportunidades e fez um filme. A estrutura é simples e os objetivos claros. Não se procura fazer uma avaliação política do programa, apenas expor histórias e vidas, deixando margem para o espectador tirar as suas ilações. Em grande parte, este documentário cru mas sensível vive das entrevistas feitas aos beneficiários do programa. Em primeiro lugar, as entrevistas de triagem, onde estes expõem as suas experiências profissionais e os caminhos que os levaram a esta tentativa de requalificação (invariavelmente encontram-se desempregados). O programa educativo Novas Oportunidades centrava-se na certificação académica de adultos que deixaram a escola cedo. O programa encorajava os alunos a reelaborarem e reinterpretarem a sua “experiência de vida”, levando os trabalhadores a refletir nas suas condições de trabalho e origens. Uma reflexão sobre o trabalho no mundo contemporâneo.

– A Lei do Mercado – Stéphane Brizé (2015)
Thierry, de 51 anos de idade, está desempregado há quase dois anos. O subsídio aproxima-se do fim, as formações profissionais que lhe indicaram no centro de emprego não têm saída e o banco pressiona-o a vender o seu apartamento. Depois de muitos meses de angústia em que procurou incessantemente um meio de sustentar a mulher e o filho deficiente motor está quase a perder a esperança. Um dia é selecionado para a função de segurança de um supermercado. Apesar do modesto ordenado, é finalmente capaz de cobrir as necessidades básicas da família. Tudo corre bem até ao momento em que recebe a tarefa de espiar as colegas das caixas para justificar o seu despedimento. Thierry sente-se em conflito com o que considera moralmente aceitável e tem de escolher entre compactuar com a entidade patronal ou voltar para a precariedade que quase o levou ao desespero.

– Eu, Daniel Blake – Ken Loach (2016)
Diagnosticado com um grave problema de coração, Daniel Blake, um viúvo de 59 anos, tem indicação médica para deixar de trabalhar. Mas quando tenta receber os benefícios do estado para que lhe concedam uma forma de subsistência, vê-se enredado numa burocracia injusta e constrangedora. Apesar do esforço em encontrar um modo de provar a sua incapacidade, parece que ninguém está interessado em admiti-la. Durante uma espera numa repartição da Segurança Social conhece Katie, uma mãe solteira de duas crianças a precisar de ajuda urgente que se mudou recentemente para Newcastle. Daniel e Katie, dois estranhos cujas voltas da vida os deixaram sem forma de sustento, veem-se assim obrigados a aceitar ajuda do banco alimentar. E é no meio do desespero que se tornam a única esperança um do outro.

– Máquinas – Rahul Jain (2016)
Um retrato íntimo do ritmo de vida e de trabalho de uma gigantesca fábrica têxtil em Gujarate, na Índia. Movendo-se pelos corredores e entranhas da estrutura, a câmara coloca o espectador num espaço de exploração laboral e de trabalho infantil, provocando uma reflexão sobre as condições de trabalho da cadeia de aprovisionamento global. Desde a década de 1960, a região de Sachin, no oeste da Índia, sofreu uma industrialização sem precedentes e sem regulamentação, exemplificada nas suas inúmeras fábricas têxteis. O filme retrata uma dessas fábricas, mas representa também os milhares de trabalhadores que trabalham na indústria têxtil indiana. Com uma forte linguagem visual, imagens memoráveis e entrevistas cuidadosamente selecionadas dos próprios trabalhadores, Jain conta uma história de desigualdade, opressão e do enorme fosso entre ricos, pobres e as perspetivas de ambos.

– Linhas – Vassilis Mazomenos (2016)
São sete capítulos sobre sete indivíduos derrotados, sobre o que significa viver na Grécia nos difíceis tempos de crise e de contenção financeira. Não incide sobre o lado político da crise, mas concentra-se nas pessoas que tiveram de suportar tudo. Mazomenos coloca rostos sobre os números e cria um angustiante testamento para os anos que deixaram cicatrizes em muitos num período que parece ainda não ter terminado.

– Fábrica de Nada – Pedro Pinho (2017)
Uma noite um grupo de operários percebe que a administração está a roubar máquinas e matérias-primas da sua própria fábrica. Ao decidirem organizar-se para proteger os equipamentos e impedir o deslocamento da produção, os trabalhadores são forçados – como forma de retaliação – a permanecer nos seus postos sem nada para fazer enquanto prosseguem as negociações para os despedimentos. A pressão leva ao colapso geral dos trabalhadores, enquanto o mundo à sua volta parece ruir. Entre o ensaio e o musical, o argumento, escrito por Pedro Pinho, Luísa Homem, Leonor Noivo e Tiago Hespanha, parte de uma ideia de Jorge Silva Melo: adaptar a peça de Judith Herzberg e fazer um musical para crianças. Apesar de Silva Melo ter desistido do projeto, Pedro Pinho resolveu transformá-lo em filme.

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“A atividade crítica tem três funções principais: informar, avaliar, promover”. É desta forma que pretendemos estimular o debate pelo cinema.
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