A ascensão do fascismo ou o retorno do recalcado

Bem sei que motivos e sensibilidades diferentes há e houve que conduziram ao voto no Chega, desde os assumidamente fascistas aos abandonados pelo regime e seu capitalismo, desde os afirmativamente racistas aos negativamente iludidos, mas se quisesse definir o voto no Chega e a sua vertiginosa ascensão reduzindo-o a uma única expressão diria que representa o retorno do recalcado.
Benito Mussolini faz revisão às tropas, em 1937.
Benito Mussolini faz revisão às tropas, em 1937.

E de que recalcamento aqui se trata? Nada menos do que as tendências fascizantes que pairam como um espectro no devir do capitalismo e da sociedade que dele depende. O retorno das formas mais violentas de afirmação do machismo, da sociedade patriarcal, do racismo e da xenofobia não são tanto uma anomalia do sistema, um simples episódio, um elemento estranho, irracional e incompreensível, mas algo que está desde sempre incrustado à nossa forma de organização coletiva e que condiciona o seu desenvolvimento. O fascismo será sempre para nós uma ameaça enquanto o capital e as formas de exploração e opressão em que este assenta e de que depende de modo estrutural forem dominantes. O fascismo não será eliminado de forma derradeira enquanto a construção da nossa sociedade se basear no seu arquétipo classista, patriarcal e racista. É claro que sociedades há que mesmo dentro do mundo capitalista, e pelas mais variadas particularidades históricas, são mais ou menos permeáveis ao fascismo, mas este não é apenas uma “singularidade histórica”, algo que simplesmente aconteceu, acontece ou pode vir a acontecer na história coletiva de um dado povo. A montante da sua realização histórica o fascismo e suas formas representam uma tendência inscrita nas sociedades capitalistas independentemente das suas particularidades nacionais ou outras.   

Não conseguiremos talvez compreender em todo o seu alcance a subida fulgurante da extrema-direita no nosso país enquanto não interiorizarmos o simples facto de que esta força política e tudo o que representa não é um elemento estranho à nossa sociedade mas algo que nos é “estranhamente familiar”, demasiado familiar, demasiado próximo, ao ponto de assistirmos a muitos dos nossos amigos, membros da família, vizinhos, colegas de trabalho…, serem “seduzidos” pelo bazofo e sinistro canto negro do protofascismo. A luta contra o fascismo, ou a sua resistência, para ser absolutamente eficaz, não pode nunca deixar de significar uma luta coletiva pela liberdade que é simultaneamente uma luta pela libertação dos elementos políticos que constituem a sociedade do capital: a propriedade, a soberania e a exploração de classe.

O voto na extrema-direita é o esplendor do revanchismo. Por onde quer que olhemos para a composição do seu eleitorado, do mais fiel ao mais iludido, em toda a parte encontraremos motivos de vingança e de desforra. Seja contra a democracia na sua expressão liberal, o “marxismo cultural”, a “ideologia de género”, a classe política instituída (o establishment), ou, até, a insatisfação da classe operária nacional com as suas condições laborais, a incomportável subida do custo de vida e a imigração de outros tantos trabalhadores pobres. É também a revanche do grande capital contra os direitos laborais entretanto conquistados e, também, em viva contradição, a revanche da força de trabalho nacional contra os direitos civis alcançados apodados agora como “direitos a mais”. Nada há de construtivo ou por construir que tome por ponto de partida o voto no Chega. Também aqui o desejo de revanche não é mais do que uma expressão do retorno do recalcado. O voto massivo na extrema-direita é bem a expressão de uma revolta por agora relativamente silenciosa, mas é uma revolta estéril, incapaz de criar, ou ajudar a criar, melhores condições de vida para todos. O que a alimenta é tão só a frustração e a frustração – – por todos e mais alguns motivos que a justifiquem – – nunca é boa conselheira política.

Até que ponto estamos dispostos a ir para contrariarmos o racismo que há em nós, ou o machismo, ou a vontade de exploração do outro? E até que ponto estamos dispostos a ir para contrariarmos o racismo, o machismo ou a vontade de exploração que há nos outros? A verdade é que ninguém consegue ficar tranquilo na sua certeza ou convicção de que não é racista, machista ou que deseja dominar os outros explorando-os economicamente. Não apenas porque o combate ao racismo, à homofobia ou à exploração nunca é estanque, mas, principalmente, porque esse combate nunca deixa de ser um combate que mobiliza a sociedade inteira, antes de tudo, exercendo-se contra ela. Se a luta contra o fascismo é a luta das nossas vidas talvez isso signifique que é um combate que nunca deixa de convocar todas as nossas forças, individuais e coletivas, contra esse leviatã fascista que é a sociedade do capital e, claro, do Estado.   

Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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