A Flor do Buriti ou “o futuro é indígena”

Aperaltei-me como um vulgar burguês para assistir ao novo filme de João Salaviza realizado em conjunto com Renée Nader Messora: A Flor do Buriti.
"A Flor do Buriti" (2023), de João Salaviza e Renée Nader Messora
“A Flor do Buriti” (2023), de João Salaviza e Renée Nader Messora

Numa das salas de cinema do país dessa empresa dominante do audiovisual só constava eu mesmo e mais duas pessoas, um homem e uma mulher, todas aparentemente almas solitárias. Os dois eram mais velhos do que eu que também já não vou para propriamente novo. Tal constatação parece prenunciar que o filme não vai ser um êxito de bilheteira….

O que louvo no cinema de João Salaviza é que pretende sempre fazer algo mais do que uma “obra de arte”. E A flor do Buriti não é um fim estético em si mesmo para nosso comprazimento burguês, um divertimento, mas um instrumento político, um meio que transcende o próprio cinema. E não é qualquer cineasta que tem esta relação de humildade com a sua forma de arte. O seu mais recente filme não é entretenimento, nem sequer é simplesmente arte, é mais ainda do que tudo isso: é uma ferramenta para algo que transcende o cinema e que é a sua finalidade política. Muitos poderão julgar esta subversão ou “enviesamento ativista” da arte como um seu rebaixamento; pessoalmente penso justamente o oposto.

Na esquerda aprendemos com Marx que o mundo capitalista está na verdade dividido em dois mundos consoante as suas classes: o mundo dos proletários e o mundo dos burgueses. Estes mundos vivem em contradição dentro do mundo burguês até esta contradição atingir um estado necessário de transmutação (emergência) que na dialética marxista coincidirá com o advento do comunismo: a sociedade sem classes. Nesta autêntica filosofia da história que define a continuidade de Hegel em Marx não há espaço para um “fora” que não coincida com o desenvolvimento do capitalismo até nada sobrar para além de si mesmo e do seu Império. (Todas as estórias hoje narradas são estórias interiores ao mundo do capital, que se desenvolvem a partir de dentro deste mesmo mundo). A história do proletariado é a história do desenvolvimento das contradições imanentes ao capitalismo até ao triunfo final dos trabalhadores. É este portanto o limite constitutivo à epistemologia marxista; ela não sai do campo da metafísica ocidental e a sua teoria da história como história da luta de classes apenas o confirma. E talvez o aspeto trágico da história do socialismo digamos “real” se situe nessa pretensão filosófico-política de a classe trabalhadora realizar a sua emancipação a partir das forças económicas e políticas forjadas no desenvolvimento do capitalismo: o tal “anjo da história” de Walter Benjamin que faz do amontoar das ruínas a medida do seu progresso. Talvez por esta larvar persistência da metafísica ocidental que o socialismo não terá conseguido superar as armadilhas do estatismo, do militarismo, mas, também, da continuação da exploração da força de trabalho, da repressão política e, a culminar tudo isto, num projeto de desenvolvimento assente na depredação dos recursos naturais e no desrespeito absoluto pelos limites ambientais do planeta, a sua sustentabilidade.

A precária cerca que separa a tribo dos Krahô do mundo dos ocidentais, dos apelidados pelos indígenas de “cupés”, o mundo do capital, não divide simplesmente duas propriedades, ou mesmo duas terras, antes separa dois mundos, duas ontologias políticas, duas formas antagónicas de relacionamento com o mundo e seu devir. Mas contrariamente à conceção desenvolvimentista de Marx, e do marxismo que o prossegue, sempre existiu um mundo que se situava para além da força propulsora do capital até à conquista/submissão de quase todo o planeta. E esse mundo resistiu e resiste ainda como potência latente no vasto continente americano em especial no interior das florestas da Amazónia. E é com a vasta e secular história de resistência desses povos que talvez aqui no e do Ocidente devamos aprender – e, claramente, respeitar e politicamente nos solidarizarmos enquanto resistentes ao capitalismo – na intenção de erguermos outro projeto de mundo que não aquele em que se baseia toda a história do Ocidente “até aqui”. Até porque as formas comunais que aqui e ali vão sendo ensaiadas como gestos de resistência no “grande Ocidente” ganham inesperadas similitudes com os modos de vida ancestrais dos índios da Amazónia. E como melhor diria João Salaviza: “O futuro é indígena!”.

As formas de vida indígenas são uma ameaça ao mundo burguês e ao capitalismo porque: 1) são a demonstração prática da possibilidade de comunidades políticas que são alternativas em relação ao desenvolvimento histórico que marca o Ocidente; 2) estes modos de vida indígenas não foram subsumidos, absorvidos, pelo devir do capitalismo, pelo que as tribos não foram proletarizadas e a sua heroica resistência constituiu e constitui um limite material aos processos de acumulação primitiva; 3) por esta razão as formas de existência indígenas situam-se para lá da dialética materialista que constitui, atravessa, não apenas o desenvolvimento do capitalismo bem como a evolução das suas sociedades em direção à formação de Estados; 4) pelas razões elencadas se percebe que a única resposta que os interesses do capital – – à cabeça o agronegócio – – têm para os indígenas é nada menos do que a apropriação das suas terras e o etnocídio. Também por todas estas razões é tão importante aliar, traçar a cumplicidade histórica e política, entre as lutas do proletariado e as lutas dos indígenas.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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