Foto por Jornal de Albergaria | Facebook

Os partidos não fazem revoluções. O grande alarido criado em torno da greve dos motoristas fez-nos perder a capacidade de criarmos distância. Aquela distância requerida para não nos fazermos perder no campo das relações de poder pré-instituídas. Uma distância requerida para que possamos atravessar a espessura dos discursos, das práticas e dos respetivos antagonismos institucionalizados.

Enquanto se discutia o autoritarismo bonapartista de Costa, os termos ditatoriais da requisição civil, a falência do sindicalismo tradicional e o emergente sindicalismo por prestação de serviços, a comunicação social lá chegava à voz dos muitos, dos que se expressavam à revelia desta textura de relações de poder institucionalizadas. Esses eram os muitos. E eles tinham consciência, isto é, não precisavam de procuradores para falarem por eles ou para lhes dizerem como deviam pensar. Lá onde a linguagem dos “aparelhos ideológicos” (Althusser) procura neutralizar o poder de expressão dos muitos, de condicionar a sua inteligência, a revolta dos muitos faz-se expressar por seus próprios termos, por sua própria criatividade. A revolta dos muitos também se faz contra os “educadores da classe”.

Respondendo à conceção política das nossas democracias oligárquicas (Rancière), das nossas democracias dos poucos para os poucos, a revolta dos muitos faz deslocar o campo pré-instituído dos regimes do consenso fazendo da política um exercício de rutura. Uma rutura com a apropriação burguesa da democracia que transforma a circulação viva das palavras dos muitos em palavra morta, estanque, ideologicamente capturada, capturada pelos aparelhos. Uma rutura com o próprio campo das práticas possíveis que se processe para além da estratégia partidária, do tecido jurídico, da separação dos poderes, do conflito oligárquico, do grande consenso em torno da “social-democracia”.

Os partidos não fazem revoluções mas podem – com os seus recursos materiais e materiais – institucionalizar a figura e as formas do contrapoder, da contra-hegemonia. E o que é o contrapoder, a resistência, se não a resistência ao extermínio continuado da potência política dos muitos através da apropriação burguesa da democracia. Dissolvendo-a inteiramente nos jogos de poder entre as oligarquias, os poucos, “os eleitos”; na cristalização das possibilidades através da definição burguesa das regras do jogo da república; da redução, enfim, dos muitos à representação – reproduzida institucionalmente – dos poucos.

Criar a rutura, fazer a revolução, fazer com que a revolta dos muitos se possa constituir em força viva para o derrubamento da organização burguesa das nossas sociedades.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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