Foto de Paula Nunes | Esquerda.net

Podemos continuar a reprodução institucional da ideologia que isso não alterará um centímetro que seja o modo de como relacionamos a vida – a nossa vida – com a política. O significado da maior representatividade no parlamento não significa necessariamente um incremento na qualidade da representação parlamentar – talvez a entrada abrupta de partidos como o Iniciativa Liberal e o Chega nos bastará para nos fazer refletir sobre a dinâmica da conquista do parlamento. E se ela implicar esse incremento de qualidade e de pluralidade democráticas, de economia deliberativa, isso não significa necessariamente que a vida política parlamentar penetre finalmente no tecido da vida social, que implique uma maior mobilização dos representados na organização da vida política nacional. Afinal estas eleições voltaram a nos confirmar que a festa da democracia parlamentar só é a festa de um pouco mais de metade dos eleitores e eleitoras. A reprodução das instituições representantes da ideologia – os partidos – não é necessariamente a reprodução das forças vivas da sociedade, a sua saída da invisibilidade. Mesmo que assim o fosse, esta replicação seria ao mesmo tempo a causa e o efeito do seu auto-encerramento no circuito eleitores-eleitos-separação de poderes-constituição. Quando a política se confunde com o dirigismo das elites – sejam elas económicas, familiares, académicas, ou tudo isto ao mesmo tempo, em interseccionalidade – quando a política se constitui em torno de oligarquias da representação ideológica – de vanguardas ideológicas – é o encontro com a política das pessoas que se está a perder, é a política “anti-sistema” que se está a perder.

Para os próximos há todo um programa político a fazer cumprir. Um programa de esquerda que começa nas ruas, ao lado das pessoas, em torno das causas que são capazes de fraturar e transformar a vida de todos, não só uma política da inclusão, mas que tenha como motor a inclusividade, que seja, desde logo e desde sempre, uma política inclusiva e incluída. Que antes de ser um programa de conquista da representação parlamentar, seja um programa de conquista das pessoas. Que para além ser a conquista das instituições republicanas, que seja a conquista de formas novas de comunidade conquistadas à organização capitalista e burguesa da vida social.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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