Aaron Bushnell ou a trágica revolta contra a banalização do mal

O que pode levar alguém a autoimolar-se naquele que podemos conceituar como um gesto extremo de protesto político? E o que significa este gesto senão um gesto extremo de desespero?
"A Zona de Interesse" (2023), de Jonathan Glazer
“A Zona de Interesse” (2023), de Jonathan Glazer

Num artigo no The New Yorker sobre a autoimolação do jovem militar Aaron Bushnell, como forma de protesto contra o genocídio em curso na Faixa de Gaza, a colunista Masha Gessen sintetiza bem esse ato: “Self-immolation is a nonviolent act of despair” (a autoimolação é um ato não-violento de desespero). (Quer dizer, mesmo se pudermos assumir que é uma forma pacífica de protesto nem por isso deixa de ser violenta, extremamente violenta…). A autoimolação como forma política tem essa característica de representar o limite da revolta contra o estado de coisas e simultaneamente a assunção de que esse estado de coisas é irreversível. A autoimolação é a confissão de uma impotência; mais, é uma declaração política sobre a perda de esperança neste mundo. Por isso Masha Gessen pode escrever que esse gesto “began when hope died” (começa quando a esperança acabou). A autoimolação abrange o paradoxo de constituir uma forma de protesto político votado à autoextinção, à confissão da impotência, à demissão de toda a vontade. É uma forma de protesto político contra a própria possibilidade da política, a sua produtividade. De facto, chama a atenção, distingue-se e afirma-se pelo seu caráter público, mas esgota-se integralmente na força do seu próprio gesto; comunica que o mal está entranhado em todos os poros da sociedade e que nada há a fazer não sendo colaborar, conformar-se ou suicidar-se. A autoimolação é o fim de toda a resistência. Será preciso uma grande sensibilidade (e consciência) das formas de opressão política que tornam insuportável continuar a conviver com as mesmas, esse continuar a “normalizá-las” ou “banalizá-las”, mas como que esta “hipersensibilidade”, este apurado sentido ético, corre o risco de se tornar meramente “performativo” (reconhecendo-se na dimensão do religioso e suas mais exacerbadas expressões de sacrifício terreno) quando se revela incapaz de servir de motivação para permanecer (perseverar) ao invés de abandonar. Nesse sentido a autoimolação é o mais acabado e integral exemplo de “suicídio político”. Por outro lado, é também um ato que nos interpela e provoca. Ao procurar tornar visível a banalização do mal (para repescar uma fórmula de Hannah Arendt), a mais acabada cumplicidade das pessoas com a violência tornada sistema, a autoimolação pretende acordar-nos do nosso torpor ético, esse outro “sono dogmático”. Quem desiste do mundo desiste efetivamente de nós sem exceções. E qual o nosso real contributo para que o desespero não tome a forma política da autoimolação? Até onde é capaz de ir a nossa indiferença e conformação? É que enquanto um grupo muito raro de pessoas se autoimola porque sente que o mundo já não tem salvação nem resposta, a esmagadora maioria dos homens e mulheres continuam nas suas vidas garantindo todos os dias que o mundo não tem mesmo salvação. A autoimolação é também essa tentativa de nos confrontar no espelho daqueles que são os nossos verdadeiros valores e princípios; o lugar que ocupamos no mundo.

Na sua última mensagem ao mundo deixada no seu mural no Facebook o jovem trágico Aaron Bushnell escreveu: “Many of us like to ask ourselves, ‘What would I do if I was alive during slavery? Or the Jim Crow South? Or apartheid? What would I do if my country was committing genocide?’ The answer is, you’re doing it. Right now.” (“Muitos de nós gostamos de nos perguntar: ‘O que eu faria se estivesse vivo durante a escravatura? Ou no Sul dos Estados Unidos perante as leis de Jim Crow? Ou em apartheid? O que eu faria se o meu país estivesse a cometer genocídio?’ A resposta é: nós já estamos a fazer isso. Agora mesmo”.).

O sentido das perguntas é política e eticamente avassalador; traz-nos para dentro da espessura da história a que fazemos parte, da qual não podemos fugir, nem mesmo através de falácias como a do anacronismo. Não há espírito do tempo (zeitgeist) que possa justificar a nossa fuga à responsabilidade moral perante os outros e, claro, perante nós próprios. É muito difícil tornar eticamente aceitável o racismo pelo simples e sinistro facto de toda a gente à nossa volta o ter tornado aceitável. A ética interpela-nos enquanto sujeitos de escolhas, de vontades, que não podem ser simplesmente alienadas para o regime heterónomo do senso comum, do faço assim porque todos os fazem da mesma maneira. Compreendermo-nos como sujeitos dotados de personalidade ética e de autonomia é justamente escaparmo-nos a esta mesmidade moral; ao disse que disse, ao faço que faço. E se o mal se torna banal isso talvez se deva à nossa desistência, antes de todas a desistência individual, de escolhermos o bem, de o promovermos, propagarmos e praticarmos. Isto apesar ou para lá de todas as dificuldades de definirmos o que é isso do bem ou das boas ações. Até esta definição é procurada e precariamente alcançada através dessa busca pelo agir bem; as respostas estão sempre subjacentes às perguntas e as perguntas às respetivas respostas…

E o nosso Aaron Bushnell não deixa de pôr o dedo na ferida. As especulações em torno daquilo que faríamos em x ou y contexto de interpelação política e ética são infrutíferas se não tomarmos consciência de que elas não se projetam para cenários hipotéticos, mas para a contemporaneidade da qual sempre fazemos parte. “The answer is, you’re doing it. Right now”. Nós já estamos embarcados dentro dos nossos próprios “cenários do mal”. Seja a repetição do horror genocida em Gaza, seja a sobre-exploração laboral dos estafetas, a guetização de sujeitos racializados ou a cada vez mais desabrida afirmação de contravalores fascistas através do voto na extrema-direita e sua respetiva normalização institucional.

Num imperdível artigo para o The Guardian intitulado “The Zone of Interest is about the danger of ignoring atrocities – including in Gaza”, Naomi Klein relembra as palavras do realizador Jonathan Glazer em respeito ao filme em causa: “Genocide becomes ambient to their lives”. O genocídio tornou-se o novo normal na vida pequeno-burguesa de uma família nazi que habitava paredes-meias com um campo de concentração. E, na verdade, podemos até assumir que essa relação entre os privilégios relativos de alguns, poucos, e a deterioração absoluta do modo de vida de outros, muitos, pertence à própria condição da sociedade de classes. No capitalismo a burguesia só pode triunfar sobre a miséria dos proletários; assim como a condição para o modo de vida aristocrata dependia das condições de vida dos plebeus, dos servos ou dos escravos. Assim se compreende por que razão a ética nunca pode ser dissociada da política e de sua disputa. A pergunta que nos podemos também colocar é sobre até onde estamos dispostos a ir na banalização do mal, na institucionalização da violência, na defesa dos interesses enquanto membros de uma determinada classe e respetivos privilégios relativos. Qual o preço que estamos dispostos a pagar para preservarmos a nossa condição de vida relativamente estável ou orgulhosamente burguesa? Porque aquilo que temos a pagar é pago ao preço de o genocídio se poder tornar parte do ambiente das nossas vidas “normais”, numa espécie de estética negra que torna possível esta mesma “normalidade”.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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