Foto por Jr Korpa | Unsplash

Neste dia de poesia entretive-me a protelar como quem protesta. Desde a primeira hora que vagueei pelos compartimentos sem sequer procurar fintar o tempo. Fiz greve ao trabalho, entretive-me a assistir ao dia fechar-se diante de mim, todas as horas passaram diante da minha vitrina sem que eu sequer fizesse o mínimo esforço para as deter. Podia ter-me bem arrependido de nada ter feito, de não ter segurado a morte, mas, hoje foi dia de poesia e, quando assim é, baixam-se as armas e fazem-se as pazes com a vida. Talvez neste ponto possamos aprender com o velho Diógenes, o cão, o cínico, que fez da indolência um programa político. Ou com o “preferia não” do Bartleby e fazer da inércia e da inutilidade um gesto radical contra a opressão moderna: o tempo aliado à produtividade. Talvez possamos compreender agora, ainda que só por hoje, a força poética como essa faca glaciar que cinde a necessidade. Talvez agora o elogio à improdutividade, à preguiça, e a expressão da vida, não como o delírio dos aventureiros e dos construtores, mas como este simples estar destituído de predicado.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

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