Agora vivemos como o homem amedrontado. Não esse homem assustado que Nietzsche descrevia e que era o mais cobarde dos animais terrestes, que passava os dias nas cavernas e que só delas saía para se alimentar. Não esse homem com medo da profundidade da floresta (a noite escura dos lugares ermos) ou das feras. O nosso homem amedrontado também é mais do que a totalidade da vida social humana. O nosso homem amedrontado é aquilo que por economia de palavras designamos: “o sistema”. Tal como na informática, um vírus (uma espécie ou quase forma-de-vida não humana) danificou o nosso sistema, a forma como nos organizamos, a “ordem social”. O vírus ainda está “cá dentro” e por cá vai ficar, e quando finalmente nos livrarmos dele já não seremos os mesmos; não digo apenas como indivíduos ou como coletivo, digo como ordem social. Não conseguimos sair desta sociedade zombie.                  

O mais estúpido no meio disto tudo é que vamos sair desta crise colossal com as exatas mesmas soluções que garantem a continuidade do sistema com a sua ordem social, política e económica, com a sua governança e o seu capitalismo. Tudo o que se debate institucionalmente em torno das melhores medidas para se gerir a pandemia é, na verdade, da ordem do paliativo – ainda que possa ter um impacto não negligenciável e incontornável na vida das pessoas. Na verdade, tudo o que estamos a fazer é salvar a realidade tal como a conhecemos, com as suas relações sociais, as suas oligarquias, a sua burocracia, a sua alienação, os seus interesses económicos e financeiros, as suas referências, o seu circuito, enfim, o seu paradigma. 

As pessoas devem perguntar-se se querem mesmo salvar aquilo que temos, o aparato do regime e o sistema económico. Se querem sacrificar as suas vidas por esta “superestrutura”. É que pelo imperativo de nos defendermos dessa entidade primitiva que é o covid passa também a questão da defesa dos pilares do regime político (burguês) e do sistema económico (capitalista). O estado de exceção é só a figura jurídica e política-limite de uma forma de organizar a realidade humana que se confunde inteiramente na emergência do antropoceno. Não se trata de negarmos a evidência de nos defendermos da pandemia, nem, quanto mais, de negarmos a gravidade da situação, trata-se de começarmos a pensar uma outra ontologia, uma outra forma de compreendermos o mundo que partilhamos, não só com os nossos pares, mas, também, com os animais não-humanos num ecossistema que tem de tão infinitamente complexo como de infinitamente frágil. Até porque isto é só um pequeníssimo sinal daquilo que a emergência climática permanente insinua, da sua imensa sombra ameaçadora. Centrar o debate sobre o futuro das comunidades humanas na questão da proteção civil (no sentido mais lato possível) é uma anedota quando se trata de reinventarmos a vida na Terra.  

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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