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O liberalismo está em crise, ou, melhor, percebemos agora que não há liberalismo sem a retaguarda, sem a rede de segurança, sem o fiador de última instância do Estado, de formas de socialização de infraestruturas e de serviços universais básicos (entre estes, e de forma hoje expressivamente vital, a saúde). Poderão replicar que é evidente que não há liberalismo sem condições sociais mínimas para que a liberdade se possa desenvolver, para que se desenvolvam relações sociais livres em termos de costumes, de ciência, de arte, de desporto e de economia, para que se possa constituir uma sociedade civil baseada nas liberdades de opinião, de culto, de imprensa e de reunião, e relações de trocas económicas igualmente livres segundo a máxima liberal ideal do laissez-faire.

Mas, na verdade, a liberdade política entendida pelos liberais de agora é uma distorção da liberdade como emancipação social, como conquista da liberdade civil por via de formas de reivindicação da igualdade radical e de socialismo. Antes ainda de ser expressão da canónica distinção de Isaiah Berlin entre liberdade negativa e liberdade positiva, entre o ser livre de… e o ser livre para…, a liberdade é expressão do desejo coletivo quer em relação ao viver sem se ser oprimido, quer em relação ao viver sem se ser violentado pelos fenómenos naturais, quer em relação ao viver de uma forma não alienada, socialmente destruturada e economicamente insatisfatória. A liberdade significa sempre libertação como signo de emancipação social.        

Assim, o regresso do socialismo não se faz apenas sob as figuras e a articulação institucional do Estado-nação, com as formas de socialização das infraestruturas económicas e logísticas e de serviços sociais básicos. O regresso do socialismo não se reduz ao regresso do Estado omnipotente e omnipresente – ainda que democrático. O espírito do socialismo é a solidariedade entre o povo e entre os povos, apesar, em conformidade e às vezes contra o socialismo de Estado. Neste tempo em que a comunidade global tem o peso da facticidade, em que os efeitos de decisões e comportamento locais têm repercussões globais simétricas, em que um vírus define a globalização como um espaço único e homogéneo que se impõe como uma realidade única (à boleia do cavalo de troia de uma ameaça pandémica), a sociedade global expressa-se não só com as suas mais diversas línguas como com as suas múltiplas linguagens. As comunidades nacionais convergem e se solidarizam como uma única comunidade global, ao menos essa comunidade culturalmente cosmopolita que habita as redes sociais e se representa através dos meios de comunicação de massa.     

As formas sociais de solidariedade já não se limitam ao nacional ou ao transnacional, a solidariedade é global, ela é o reflexo da multiplicidade de vozes que se fazem ouvir face a uma crise global que atinge homogeneamente (subtraindo as diferenças de impacto pelas diversas nações) e simultaneamente (subtraindo o ritmo e a sistematicidade da vagas) os povos do mundo. O desafio global colocado pela pandemia fez emergir a comunidade global enquanto tal, a comunidade do múltiplo nas suas diversas formas e meios de se exprimir, nas suas múltiplas linguagens e origens socioeconómicas. O mundo está em efervescência, não apenas nos compreendemos como indivíduos de pertença local num espaço e horizonte que é global, como o conjunto das nossas atividades/reações sociais e culturais acabam por marcar formas de solidariedade global. A união social face à ameaça viral fez emergir não só essa comunidade do cuidado, da atenção, da cura, da solidariedade, como a comunidade como expressão da multitude através das mais diversas formas de arte, de expressão cultural e de trabalho científico (tanto nas ciência ditas naturais, como nas ditas sociais), isto apesar do imperativo ético e policial de confinamento. O mundo ferve de desejo de ajudar o outro independentemente do preço (que pode custar a quem ajuda) ou da dívida (que poderia contrair quem é ajudado), e ferve também de criatividade cultural – na música, na escrita, na pintura, no pensamento, nas mais diversas formas de arte…    

Na recente polémica em torno das reações de Agamben ao combate à pandemia e à articulação dos dispositivos estatais face ao vírus (entre estes a evocação do Estado de emergência), uma das críticas centrais respeita ao entendimento do autor de a Comunidade que vem (La comunità che viene) no que concerne à redução biopolítica do ser humano a mera entidade biológica e consequente despolitização cívica pelo prolongamento do estado de exceção. Da nossa parte recusamos esta ideia no que respeita a este contexto em particular, já que apesar ou contra esta “nudez” biopolítica (tem de se manter a ambivalência entre o “apesar” e o “contra” precisamente para nos resguardarmos do exercício biopolítico da governança) as formas comunizantes desdobram-se, sejam pelos múltiplos e reiterados exemplos de altruísmo, pela vontade de contrariar a dissolução dos laços sociais (por vias de formas de socialização alternativa, como as construídas online), sejam pelas mais diversas e múltiplas formas de expressão cultural, artística e científica. Não são tempos de neutralização política e espezinhamento do conjunto das liberdades civis (apesar da limitação excecional de algumas liberdades sob o enquadramento do Estado de emergência) pela bota negra do fascismo. Há mais comunidade agora do que nesses tempos de funcionamento regular do sistema, da padronização neoliberal das relações sociais (com o seu espírito ultracompetitivo e o seu modo híper-consumista de viver), do modo capitalista das relações de produção, da dinâmica da sociedade civil no quadro da conceção liberal do espaço e da esfera pública (em que a participação civil é constrangida pela vida privada). 

Mas a luta não apenas continua como se agudiza, como acelera, se torna infinitamente mais preponderante, urgente e emergente. A realidade distópica que hoje vivemos já é o lugar de transformação dos processos produtivos e das relações económicas. A par dessa comunidade do cuidado que a vertigem do contágio impulsionou, a transição para o modelo do teletrabalho em que a permeabilidade das fronteiras entre o local de trabalho e a habitação familiar é finalmente desfeita. A par do apelo universal à luta pela vida de não importa quem, a gestão biopolítica da vida humana e o primado do interesses económicos sobre os interesses dos cidadãos e cidadãs. A par da distribuição solidária do comum, a continuação das privatizações naqueles que são os bens e serviços do Estado social e a gestão governamental desses mesmos bens e serviços. A par de uma conceção do trabalho baseada na partilha e interajuda, a precarização das relações laborais, a “selvajaria” no mercado de trabalho, a desregulação e a “flexibilização”. A par da comunidade dos afetos, dos impulsos e da autenticidade, a vigilância e o controlo policial da vida social e respetiva gestão biopolítica do medo. A par da recentralização e revalorização daquelas que são as tarefas essenciais à comunidade humana e respetivas profissões (como a medicina, a enfermagem, a limpeza urbana, o tratamento de resíduos, a agricultura, a pesca…), a reconstituição de um modelo económico baseado na especulação, no consumo desenfreado e na exploração do homem pelo homem. A par de boas práticas ambientais, a continuação do paradigma extractivista industrializado. A par da conquista da liberdade como processo de emancipação social, a reconfiguração e adaptação do neoliberalismo.

 

 1 – Ver as suas recentes crónicas no site da Quodlibet, https://www.quodlibet.it/giorgio-agamben-riflessioni-sulla-peste

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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