[Conteúdo e linguagem sexual explícita. Uso de calão.]

 

Os braços engalfinhavam-se. Não se percebia bem aquela tensão, entre uma luta e uma dança, uma vontade de corpo. Desenhava os contornos do corpo com as pontas dos dedos escaldados. Os braços muito níveos e macios, os pelos rasos quase transparentes eriçando-se levemente à passagem do toque. A voz que se contorce, o suave espasmo do tronco. O amado ri-se com graciosidade. Os seus finos lábios azuis numa boca extraordinariamente sensual. Deitados na cama, abraçados como se o mundo pudesse acabar daí a um par de minutos. Jonas encaixava o rosto entre o ombro e a cabeça de Samuel. Sentia a segurança do seu amante como o porto seguro onde sempre poderia atracar, não importa de que tamanho fosse feita a tempestade ou de que rosto se vestisse a ameaça. Enquanto lhe confidenciava os seus mais íntimos e excêntricos desejos – as viagens exóticas, o casamento, a vida eterna… – Jonas passeava o joelho pelas pernas entrelaçadas de Samuel. Fazia um calor estupendo e os dois pareciam dois gatos lambidos, dois gatos serenos e sorridentes. As janelas estavam totalmente abertas e facilmente a vizinhança do prédio do outro lado da rua os poderia descobrir. Mas não havia problema, estavam no paraíso. A ilha era como o lugar de exílio dos amantes renegados e foi onde estes dois solitários foram agraciados pela sorte de se cruzarem. Em breve teriam de voltar ao seu país, mas, enquanto esse dia não chegava, havia que aproveitar. Por isso deixaram-se ficar na cama até ao entardecer. Mantinham-se frescos beijando-se mutuamente, espreguiçando a língua por todas as partes dos corpos, até as mais polutas, os cotovelos, os calcanhares, as nádegas, o pénis. Mas era no olhar de Jonas que podíamos adivinhar uma certa devoção, um certo encantamento que o fazia olhar para Samuel como a um deus antigo, grego talvez, apolíneo certamente. Ao lado deste deus Jonas ficava sempre mais baixo, mais subordinado, mas nem por isso mais diminuído ou humilhado. Era próprio da paixão essa cedência voluntária ao outro em nome de um pouco mais de felicidade. Um pouco mais, um pouco mais… era desta forma que Jonas procurava arrastar o tempo ao lado de Samuel.

Quando entardeceu desceram à praia. As areias brancas cintilando ainda, o espelho do universo nas dunas. Jonas sentia-se sempre embaraçado em exibir o seu corpo em público, mas a fisionomia de Samuel protegia-o, fazia com que se sentisse mais à vontade. Não que Samuel fosse especialmente fisicamente dotado. As suas feições eram deveras singulares, entre o masculino e o feminino, como um ser sem forma ou indefinido ou projetado, transcendente, diáfano, mesclado e impuro. A masculinidade e a feminilidade eram em Samuel meros ponto de vista, ângulos, perceções, sensibilidades. Através de Samuel, Jonas podia atravessar todas essas categorias sociais para gozar simplesmente o que lhe sugestionava e lhe excitava a líbido. Usufruir do corpo de Samuel era deixar fluir a sensibilidade para procurar aquilo que lhe dava mais prazer e ponto. Vê-lo com aqueles calções brancos que lhe faziam lembrar um jogador de ténis, a elegância com que caminhava, o sol poente que atravessando parcialmente o rosto o ofuscava. Às tantas Jonas nem saberia dizer se Samuel caminhava ou se simplesmente levitava, tal a leveza das circunstâncias.

Passaram mais dois dias desta forma, como dois bonitos anjos. No último dia antes de partirem jantaram numa esplanada na praça. A noite estava abafada, as estrelas tão distantes que nem sequer se podia ter a certeza que estivessem lá. Jonas queria aproveitar aquele momento para que pudessem falar de coisas mais sérias, sei lá, fazer planos, tornar as coisas mais sólidas.

– Sabes que te amo e, ao mesmo tempo, que me és um perfeito desconhecido – dizia Jonas sob o severo escrutínio de Samuel. – O que é que para ti significou tudo isto?  

Apesar do ar a um tempo grave e sereno de Jonas, Samuel quase nem pestanejou. Continuava com aquele aspeto imperturbável e distante que o caracterizava. O semblante alongado e magro que desembocava num queixo não rígido mas determinado. 

– Percebes que eu queira saber mais sobre ti, que te queira conhecer melhor – prosseguiu Jonas diante do silêncio espectral do seu amado. – Não penso que esteja a pedir algo fora do meu alcance e direito. Foi para mim o mais feliz dos acasos nos termos conhecido aqui e tão rapidamente nos termos enamorado. Mas, e agora? Onde tu vives, de que terra vens, como e quando nos podemos voltar a encontrar?

Não querendo prolongar a ansiedade de Jonas, Samuel lembrou-lhe que já tinha o seu número de telemóvel. Que morava numa aldeiazinha no interior, tão distante da Lisboa de Jonas. Mas claro que isso não constituía um obstáculo insuperável para se voltarem a encontrar, afinal atravessar o país de uma ponta à outra deixara de ser uma aventura digna da odisseia. Samuel disse também que primeiro tinha de “arrumar” as coisas em casa e no trabalho. Que estava a meio de uma espécie de projeto ligado ao seu trabalho como arquiteto. Enquanto esbofava lentamente o fumo do cigarro Samuel era todo esperança e expectativa, mas Jonas não se conseguia livrar daquela sensação de lhe estarem a tirar o tapete mesmo debaixo dos pés. Percebia dolorosamente a distância entre as promessas apressadas de Samuel, a espessura da sua voz charmosa e diletante, a ausência de solidez nas palavras que proferia, e as reais convicções e sentimentos de Samuel. 

Entretanto tinha chegado o empregado de mesa para levantar os pratos e perguntar se queriam sobremesas. Quando o empregado virou costas e saiu de cena Samuel piscou o olho a Jonas e sorriu maliciosamente como se procurasse desviar a atenção do seu amante para o rabo jeitoso daquele empregado todo elegante, latino e empertigado. Mas Jonas já não estava com disposição.

(continua)

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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O renascer da arte a brotar do Interior e a florescer sem limites ou fronteiras. Contos, histórias, narrativa e muita poesia.

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