Alguns filósofos têm refletido sobre aquilo que André Barata designa de “desligamento do mundo”. A experiência coletiva do confinamento é só o culminar deste “desligamento”, quando, na verdade, as condições que garantem a eficácia da gestão da pandemia já lhe pré-existiam. O estado de emergência permanente no quadro de resposta a uma grave crise sanitária não representa tanto a glória e a soberania do Estado-nação dentro de uma determinada forma-de-regime, quanto uma tremenda reação defensiva pelo perpetuar de um dano, neste caso, de um dano à natureza, ao ecossistema. Vivemos à tona da água, sem navegação à vista.

Fundamentalmente descubro três formas fundamentais para nos voltarmos a religar, sendo que, por essa religação, se decide também o nosso futuro coletivo, enquanto questão política fundamental. Fazer da disputa política uma disputa no terreno da ontologia é crucial para nos podermos livrar da armadilha do paradigma que procurar diluir a vida política nos problemas da governabilidade, da contenda pela gramática do estabelecido e das regras do jogo pré-instituídas. 

Pode parecer paradoxal mas esse voltar a nos ligarmos ao mundo só se processa por via do antagonismo. É no antagonismo contra o mundo tal qual este se nos apresenta – com a sua vida social e as suas estruturas, a sua ideologia e os seus constrangimentos – que este mesmo mundo se revela, ou, pelo menos, nos volta a atingir com toda a sua brutalidade e densidade.

Uma certa experiência, fenomenológica e existencial, do mundo como precariedade, como fragilidade absoluta e incomensurável, como “o silêncio dos espaços infinitos que apavora” (Pascal), liga-nos, dessa forma existencial, ao mundo em toda a sua intensidade e imensidão. O mesmo Pascal, tão deslumbrado como atemorizado, descobria que somos um ínfimo ponto no universo, mas um ponto que, pelo pensamento, abrange/abarca todo o universo. É nesse antagonismo, por meio desse desamparo radical, dessa precariedade cósmica, que o humano se define ontologicamente, se religa ao mundo, descobrindo-se como o pó que retornará ao pó. No filme Melancholia de Lars Von Trier encontramos uma bela imagem desse radical recontro com o mundo quando três personagens, sentadas debaixo de uma espécie de tenda simbólica, desse artefacto da habitação, contemplam o fim da vida humana com um gigantesco planeta prestes a colidir com a Terra.   

O senso comum dir-nos-ia que este gesto de religar demanda por uma espécie de retorno a um estado inicial ou primitivo de harmonia; e este desejo ou a esta nostalgia de um estado inicial nunca vivido é o coração da utopia primitivista. A revelação do mundo e da natureza dar-se-ia então, e ao contrário do que defendemos, por uma espécie de reconciliação, de um “voltar às origens”, de um enraizamento na natureza. O problema é que esta conformação e reconciliação, esta harmonização dos sentidos em relação a esse estado inicial, a essa utopia, o que lhe sobeja em ideologia lhe falta em materialização. O gesto de reconciliação e de conformação não nos revela o mundo para além daquele que a ideologia descreve e prescreve. O gesto de aproximação do mundo, mesmo que percebido enquanto Natureza, não se pode realizar sem a exposição de uma fratura, de um irreconciliável, de uma certa violência ou de uma certa dimensão do selvagem, do indominável ou indomesticável. Portanto, o justo contrário da utopia naturalista que julga realizar-se através dessa coincidência entre os sentidos e a imaginação ecológica (mais do que a razão) e a Natureza, a harmonização da vida social humana na vida natural.  

Já a atividade da inteligência, revelada enquanto dimensão do espírito, mais ainda, como competência igualitária (já que a potência da inteligência é igual em todos os humanos), tem essa capacidade de, por meio da sua atividade, não só colocar em causa as ideologias e as injunções da heteronomia, da superestrutura, como de superar/transcender essa espécie de filtro ou de matriz que tende a distorcer e a condicionar o nosso acesso ao mundo, de o apreender ainda antes de a razão se aproximar do real. A atividade da inteligência, enquanto competência igualitária, é a que se realiza politicamente, i. é, comunitariamente, pela capacidade de suspensão da atuação da ideologia e com a criação justaposta de uma gramática contra-ideológica e contra-hegemónica. 

A outra forma de embate/choque com o mundo é a da luta. Mas, também aqui, a luta não pode ser vista na sua dimensão abstrata, enquanto dialética, enquanto compreensão mecânica e desenraizada do mundo da vida. Este embate/choque com o mundo, esta religação, tem de ser apreendido nas expressões concretas da luta de classes, na sua expressão sensível. É o pai que pelo roubo fura o ordenamento jurídico, infringe a lei, para alimentar os seus filhos. É o real que se impõe por via da necessidade, particularmente da necessidade económica. É o sujeito racializado que é obrigado a se defender das agressões de um grupo de skinheads, apesar e para lá das garantias do Estado de direito. É a família caída na pobreza devido ao desemprego e/ou aos salários baixos que enfrenta todo o tipo de privações. É o sistema judicial que tem critérios diferentes para o mesmo tipo de crimes quando se tratando, num caso, de um sujeito branco, e, noutro, de um sujeito negro ou cigano. É o racismo estrutural que rebenta pelas fissuras de uma letra e de um espírito constitucional que proclama a igualdade de todos e de todas, independentemente da etnia, raça, género… É o homossexual que num país onde fica constitucionalmente salvaguardado a não discriminação por orientação sexual se vê obrigado a esconder essa mesma orientação por medo de represálias por parte dos seus colegas de trabalho ou da comunidade onde está inserido. Mas é também o esforço do recém-licenciado, mestre ou doutor, que procura, por via do seu capital cultural acumulado, ascender nas hierarquias, pôr à prova a ideologia meritocrata. É esse embate/choque com o mundo que em cada enfrentamento no quotidiano nos religa novamente ao mundo, à sua aspereza, à sua brutalidade. Há então este mundo real que o reino da publicidade das mercadorias, ou da propaganda política, ou da realidade virtual das redes sociais, não consegue eliminar/extinguir/rasurar na sua totalidade. Apesar de todas as formas de alienação produzidas pela sociedade capitalista – precisamente por ser uma sociedade moldada pelas necessidades e exigências do capital – permanece sempre um resíduo de real que o antagonismo, nomeadamente, de classe, acaba sempre por revelar em cada situação concreta, nessa história clandestina feita de rostos e de nomes concretos.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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