A juventude pós-revolucionária como juventude pequeno-burguesa

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O individuo pós-moderno não é exatamente o sujeito pós-heroico, mas o indivíduo que faz da sua existência anónima uma existência heroica em si mesma. Como nos filmes de inspiração hollywoodesca, ou, nos seus antípodas, do cinema neorrealista italiano ou francês, ele é o indivíduo que se constrói e se define por meio das intensas lutas que trava no interior da sua vida, particularmente no seu quotidiano. É também o sujeito passivo de um evento extraordinário que vai mudar completamente a sua vida ou o sujeito ativo que provoca essa mesma rutura na realidade ordinária, na banalidade da vida social.

Há uma enfâse extremamente individualista neste sujeito pós-moderno que não corresponde apenas ao desejo de cada indivíduo em si (uma espécie de desejo de atomização), mas é o resultado de uma certa construção histórico-social. A mitologia dominante na pós-modernidade é a mitologia do pequeno proprietário, do pequeno-burguês. O individualismo heroico que preenche as nossas representações sociais, o modo como nos vemos e compreendemos dentro da vida social, é apenas a forma de subjetivação indicada a esta forma de dominação ideológica, a esta mitologia. Aquilo que significamos sob o slogan “vencer na vida” corresponde inteiramente à realização dos nossos desejos e expetativas enquanto pequeno-proprietários em potência ou em processo de acumulação. O grande ideal da juventude política, instruída, militante, é o da pequena-burguesia.

Por mais feroz que seja a nossa crítica à meritocracia esta crítica vale menos pelo dinamitar da meritocracia enquanto ideologia, do que pelo ressentimento pela sua permanente frustração e sabotagem pelos mecanismos de exploração do capital.

O sistema não nos pressagia um futuro propriamente brilhante, ao menos em termos coletivos, não sendo a precaridade, a desigualdade, e, no limite, a catástrofe. Mas este cenário negro não invalida que não continuemos a construir a nossa vida medindo-a pela bitola da mitologia do pequeno-proprietário. E enquanto não nos libertarmos deste círculo vicioso não há alternativa que possamos ambicionar, não há amanhãs pós-capitalistas que possam cantar nos interstícios do heroísmo individualista que visa a propriedade. É certo que o capitalismo já não nos consegue iludir nas suas promessas, mas o problema é que ao invés de procurarmos uma alternativa coerente, consistente e radical a este modo económico assumimos que cada um de nós tem dentro de si o seu próprio burguês-capitalista e o seu próprio trabalhador-proletário.

Continuamos a iludir-nos. Exploramo-nos a nós mesmos ao mesmo tempo que gozamos da propriedade que extraímos de nós próprios. Nada no sistema nos augura um futuro brilhante, mas nós continuamos a ir à luta com as ferramentas do capital como se a construção de um futuro brilhante para nós mesmos continuasse a depender exclusivamente de nós, da nossa vontade e obstinação. E os eventuais sucessos neste enredo pequeno-burguês pudessem ser atribuídos exclusivamente a nós e os nossos fracassos a esta sociedade de merda.

Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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