Martha Rosler Balloons from the series House Beautiful: Bringing the War Home c. 1967-72

Foi durante a leitura do Espetador Emancipado de Jaques Rancière que vi pela primeira vez uma fotomontagem da artista Martha Rosler intitulada Bringing the war home: ballons. O modo como a autora, através da técnica de montagem, sobrepõe uma fotografia de uma mãe vietnamita que segura uma criança morta nos braços com a imagem de um interior de uma vivenda de classe média tem por efeito o perturbar a nossa falsa segurança burguesa, a nossa superioridade civilizacional, a nossa hipocrisia e apatia política, a nossa alienação e o nosso aquartelamento premeditado, a nossa fortaleza. Trazer a guerra para casa, para dentro das nossas casas, é importar a guerra quando nós, os europeus, a temos tradicionalmente exportado. Um recente artigo de Jean-Luc Nancy relembra-nos desta condição essencial à civilização europeia, o seu histórico guerreiro.

A ironia desta fotomontagem datada de um projeto elaborado entre 1967 e 1972 é que a guerra foi literalmente trazida para dentro do nosso conforto burguês, da nossa romantização da quarentena, da nossa habitação privada. Não há qualquer invasão do terror, apenas esta partilha coletiva do sentimento do medo, esta solidariedade na paralisia, na impotência. Não há qualquer guerra, a guerra não é real, mas há essa presença e esse sentimento partilhado da atmosfera da guerra, o modo como nos invalida civicamente, como esvazia a nossa capacidade de resistirmos fisicamente, de respondermos como um corpo comum. O “estado de guerra” é a radicalização da atomização dos corpos, o isolamento e o deslaçar dos nós sociais, a quarentena da comunidade dos afetos.

Nestes tempos de emergência mais ainda do que imperar a defesa da sociedade o que está em causa é a própria sobrevivência do modelo, do paradigma. Ou, reformulando, contemplamos a defesa da sociedade como acriticamente condicionada ao enquadramento dos dispositivos da governamentalidade. É como se a resposta à ameaça pandémica dependesse necessariamente do regime, do sistema, como se estivessem mutuamente implicados. Mas, será assim? O que estamos realmente a salvar, as vidas per si ou as vidas no quadro do paradigma governamental e capitalista? Quais os limites da sua interdependência, da sua imbricação estrutural? 

A guerra como metáfora para esta situação de anormalidade, de esvaziamento, de impotência, de desvio profundo – e, esperemos, irreversível – em relação à banalização da circulação das mercadorias, dos capitais e das pessoas, é o estado de guerra provocado pelos dispositivos governamentais. Não é a defesa espontânea das comunidades face a uma ameaça que lhes é externa. É a implementação da força, a gestão heterónoma das relações quotidianas, a submissão ao grande Outro, a substituição do voluntarismo pelo autoritarismo, a disposição de técnicas de vigilância e controlo, o monopólio da violência, a imposição do poder por via da coerção, a propaganda contínua, os comunicados governamentais, em suma, a captação da potência coletiva, o sequestro da espontaneidade civil, da autonomia popular. 

O que nos revela este estado de guerra que não é guerra, e justamente por essa dissonância, é que os dispositivos já aí estão todos em plena operabilidade ou em permanente adaptação e construção. O que importa no fundo é que à extensão dessa força irresistível fundada na dinâmica dos dispositivos governamentais corresponde proporcionalmente a descapacitação das contrarrespostas insurgentes, das figuras de resistência civil. Experimentamos coletivamente essa frieza em relação aos meios e à capacidade do Estado, como numa “guerra fria”, como se houvesse uma qualquer barreira invisível que torna as nossas forças intransponíveis, como se coexistissem essas duas dimensões que apesar de não se tocarem afetam-se mutuamente. De um lado o poder do Estado como organismo que alberga os dispositivos governamentais, do outro as demandas da multitude emanadas da condição de igualdade radical. O problema é que a relação entre estas duas dimensões políticas e existenciais pende predominante e estruturalmente para a dominação, para o(s) aparelho(s) de Estado (Althusser). Infelizmente a comunidade sem fronteiras de governamentalidade só emergiu em momentos raros e fugazes: a comuna de Paris, o maio de 68, o 25 de abril, o occupy movement… 

Comunidade constituída ademais das vezes por mistura com as lógicas e os procedimentos que pertencem às lógicas do paradigma, da política como disputa pela dominação e hegemonia, com a reprodução de relações sociais assimétricas e a institucionalização da desigualdade ou do antagonismo cristalizado à potência igualitária.

É no interior desta tensão entre as lógicas hierárquicas e a lógica da subversão igualitária que o estado de guerra se instaura como interrupção violenta da comunidade. Agora só nos resta esta paisagem da sociedade como atomização, como confinamento, como catalogação biométrica, como biopolítica.

Da nossa parte só o imperativo civil de quebrarmos a inércia, de refundarmos o nosso poder justaposto ao Poder dos desdobramentos dagovernamentalidade, da reprodução da hierarquia e da desigualdade pela sistematização da assimetria entre os recursos e a força. É claro que teremos de nos mobilizar num contexto que nos é totalmente estranho, mas, por isso mesmo, mais desafiante.

O retorno do Estado como religião secular é a recente tentação maioritária. E o que nos exige o Estado não é mais nem menos do que submissão a troco de uma salvação que só existe na cabeça e no coração dos seus devotos. O poder de conversão do Estado em tempos de crise – mais ainda em “estado de guerra”, de unanimidade ideológica – é tão grande que facilmente nos leva a esquecer do nosso anterior ódio às elites, do nosso passado de orgulho em relação à livre iniciativa popular, da nossa dissociação em relação ao jogos e às intrigas nos corredores do poder. À imagem do Leviatã de Hobbes entregamos com demasiada facilidade a nossa liberdade a troco de uma segurança que é sempre incerta. Precisamos de um soberano concreto e não de uma conceção abstrata de soberania, de um líder onde depositamos todas as nossas esperanças. Assim o retorno do Estado em tempos de ameaça planetária por resultado da interferência de um elemento não-humano é menos o efeito da supressão violenta e fascista da resistência, da comunidade, do que a submissão, a alienação em relação à nossa própria potência, à nossa capacidade de nos autogovernarmos, de criarmos redes de distribuição do sustento e de auxílio mútuo, de agirmos com responsabilidade sem a necessidade de sermos coagidos por um poder que nos é estranho. 

O pior desta guerra que não é guerra, que é o “estado de guerra”, é a nossa incapacidade de a exteriorizarmos em termos de conflito entre corpos individuais e/ou coletivos. A guerra é trazida para dentro de casa por via da sua interiorização permanente, da sua permeabilidade, pelo modo de como nos faz suspeitar do nosso próprio corpo. E, do lado de fora, através do vidro das nossas varandas, o aparato policial, que na verdade não acrescenta coisa alguma à nossa segurança se nos soubermos organizar coletivamente, não sendo a continuada projeção antecipada de um medo que nos promete salvação a troco da confissão coletiva da nossa menoridade.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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