Rememorar Marx 202 anos depois não é simplesmente retomar a liturgia quando o objeto de culto se juntou ao relicário da história. Em tempos de exceção social, económica e política por efeito de uma pandemia a luta não se tornou secundária pela situação de emergência. Pelo contrário, poucas vezes como hoje foi desvelada a natureza brutal do neoliberalismo a que todos até agora estávamos submetidos.

Com a suspensão parcial da circulação de capitais, pessoas e mercadorias, com a paralisação das relações económicas correntes, percebemos com maior clareza que nunca a matriz dos processos de acumulação do capital e de exploração da força do trabalho e dos recursos naturais. Depois dos negócios terem sido subitamente interrompidos a reação do capital e das classes dominantes foi despedir a massa de trabalhadores por conta de outrem que foram sendo sistematicamente precarizados ao longo de décadas de “flexibilizações” do mercado e da legislação do trabalho. Dos que não foram simplesmente demitidos muitos perderam rendimento por via de soluções como o lay-off simplificado (cerca de 1,2 milhões portugueses) que implica um corte real nos salários. A esmagadora maioria de trabalhadores independentes, os designados “recibos verdes” e os “falsos recibos verdes”, foram simplesmente catapultados das relações retributivas para passarem a estar inteiramente dependentes da segurança social e de um rendimento de “apoio” extraordinário no valor máximo de 292 euros. Enquanto o manto da austeridade já penetrou em grande parte da classe trabalhadora e por pequenos e médios empresários, as grandes empresas como a Galp, a BP e a EDP prosseguem alegremente a distribuição multimilionária de dividendos pelos seus acionistas. Outros ainda, trabalhadores e trabalhadoras do sector dos serviços, foram reencaminhados para regimes de teletrabalho que, mais uma vez, implicarão transformações estruturais nas relações de produção. A monotorização do trabalhador(a) estendendo-se do local do trabalho ao local de habitação é apenas um dos múltiplos aspetos desta “reestruturação” em curso.     

Celebrar Marx e as suas profundas repercussões na história do pensamento emancipatório e da praxis anticapitalista é hoje mais crucial do que nunca, para que entre os escombros do capitalismo hodierno se abram novos espaços para novas lutas, para novas configurações na organização coletiva que contrariem as tendências políticas para uma reestruturação nos limites de um novo normal, de um outro capitalismo. Seguindo este ensejo o coletivo do Expropriações Filosóficas irá publicar um conjunto de artigos que pretendem abrir o debate sobre Marx e o marxismo ensaiando sob títulos como a “Propriedade, a sua abolição e o conceito de comunismo”, “Big Data como pensamento unidimensional – sobre a relevância do marxismo na sociedade tecnológica” e “Pensar Marx depois de Marx”. Todas as contribuições são bem-vindas, o Expropriações Filosóficas está aberto para novos contributos no pensamento de tradição marxista e, de forma mais abrangente, da teoria crítica e das filosofias emancipatórias. Porque não há praxis transformadora sem pensamento, nem pensamento transformador sem praxis.

Pelo coletivo da Expropriações Filosóficas

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A propriedade, a sua abolição e o conceito de comunismo

Big Data como Pensamento Unidimensional – Sobre a Relevância do Marxismo na Sociedade Tecnológica

https://interiordoavesso.pt/paulo-viegas/pensar-marx-depois-de-marx/

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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