“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá- las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.”

O anjo da história de Walter Benjamin não é só o anjo da destruição é também o anjo ingénuo e angustiado que para fazer avançar a história tem de produzir incessantemente a “catástrofe”. É o rosto do fatalismo que não consegue fazer face a essa “tempestade a que chamamos progresso”. O anjo da história é a humanidade em processo, em constituição, a tempestade é a produção da alienação no seio desse mesmo processo, desse devir. É como se a história escapasse aos seus fazedores, ou, melhor, às classes que não tomam a dianteira da história, que não a fazem “progredir” subjetivamente, que não comandam. O desespero do “anjo da história” é o nosso desespero – enquanto classe oprimida – que nos encontramos desapossados da história que ajudamos a criar.

Mas uma coisa é uma história sem sujeito, sem classe condutora, outra é a história que avança pela destruição do passado, pela acumulação da ruína. A história da exploração, da luta de classes, é essa história. Se fizermos reconhecer a história das revoluções na história da luta de classes então as revoluções não refletem mais do que recomposições nas relações entre as classes exploradoras e as exploradas. “[Homem] livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo [Leibeigener], burgueses de corporação [Zunftbürger] e oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta”.

Na fábula do anjo da história condensam-se duas ideias essenciais sobre a história e sobre a revolução. A revolução encontra-se com a história para fazer progredir a ruína ou para a redimir? A revolução é um acelerador da história ou é expressão de uma mudança radical na hegemonia?
As revoluções são epifenómenos do desenvolvimento das forças produtivas? A revolução é um momento fraturante mas vinculado à evolução da história, ou, pelo contrário, uma força que de alguma forma – por sua potência – distorce e condiciona o carácter linear da história?

Mas nós, multitude, classe explorada, conhecemos a revolução como uma força irresistível, como esse apelo para o “paraíso”. Não como a terra prometida da liberdade negativa, nem sequer como a inscrição da liberdade positiva, mas como libertação. Que libertação? A libertação da própria história da luta de classes. O anjo da história como anjo do progresso é o anjo do materialismo dialético, da metafísica da luta de classes que para progredir tem de fazer progredir o sofrimento, a ruína, o esquecimento, a destruição. A vitória final do proletariado corresponde à aniquilação de toda a história até aqui, não é a redenção, é a exterminação da história. O problema é como fazermos a luta de classes sem cairmos no seu ardil, como é que através da dinâmica da luta nos projetamos para além dela. Como penetramos no comunismo?

A revolução não é a história da realização teleológica da humanidade é a história da libertação. Uma libertação que precisa de revoluções para se realizar mas que não vê nas revoluções apenas recomposições de classes ou realizações de um determinado sujeito universal-singular. A história como tarefa de libertação é a história universal que alia o presente ao passado e ao futuro. A história da libertação, como história da democracia, é a contra-história das recomposições oligárquicas e a tarefa de libertação da própria metafísica da luta de classes.

O anjo da história é a metáfora para o materialismo dialético, para a metafísica da luta de classes, do historicismo, da filosofia da história e do desenvolvimento das forças produtivas. A tarefa histórica da libertação no quadro da luta de classes é o materialismo histórico desvinculado do materialismo dialético. A luta de classes é só a forma-política estrutural, aquilo a que damos o nome de praxis, mas o nosso desígnio político é a sociedade sem classes, o comunismo.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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