1ºMaio 1980 Porto Henrique Matos

Estamos presos à Terra, lugar de todas as paixões, sonhos, conflitos e, também, enfermidades. A Terra é o nosso território como território de uma incomensurável precariedade. Estamos suspensos no vazio, sozinhos no universo, amarrados pela gravidade. Na imensa vulnerabilidade dos terráqueos – condição que partilhamos com todas as formas de vida na Terra – reside, para além dessa absoluta fragilidade, toda a fertilidade inerente à potência libertada pelo fenómeno-vida. A Terra é condição de vida, o progresso humano não, o capitalismo não. Este pontinho na imensidão a que damos o nome de planeta Terra é também o lugar ideal para a criação das condições de vida. E a vida é mais do que simples reprodução biológica, é multiplicação criativa da diversidade, é uma janela para o infinito neste confinamento involuntário ultra-finito.

Já sabemos que o mundo da vida – o território Terra – dispensa o humano, o seu engenho, a sua história, a sua cultura, a sua maquinaria e, sobretudo, os seus aterros. O humano não é indispensável à vida, mas a vida é indispensável ao humano. E a vida está incrustada ao corpo e o corpo não é mais do que um órgão da Terra. O desenraizamento em relação às nossas origens, ao húmus da vida que é solo do nosso planeta azul, não é mais do que um mito “expansionista”, um mito do progressismo. Apesar da metamorfose antropocénica, apesar da transformação da Natureza em “espelho da humanidade”, apesar da transição a várias velocidades do capitalismo industrializado e de massas para um capitalismo cognitivo e atomizado, as nossas “forças próprias” são ainda ridículas em relação ao ambiente que habitamos e que ajudámos a tornar cada vez mais inabitável. Não nos chegam fortalezas quando a contaminação atravessa as frestas e os buracos das fechadoras dos grandes portões que nos afastam da natureza selvagem, imensa, anárquica, viva.

A pandemia não é um castigo divino nem um castigo da “mãe-natureza” é um evento perfeitamente tangível no quadro do território que habitamos com os demais seres vivos. Toda a dor e sofrimento que hoje experimentamos coletivamente, nessa globalização da dor, não é nenhuma fatalidade desenquadrada do nosso horizonte – prova contrário foi demonstrada pelo super-rico Bill Gates que previu a possibilidade de um cenário idêntico há cinco anos atrás, principalmente prevendo a gritante impreparação dos nossos sistemas. A questão reside não só no que podemos coletivamente fazer para minimizar os impactos deste tipo de crises, mas como conviver com este tipo de fenómenos que a nossa organização económica e política ajuda a exponenciar, como ainda em compreender os limites existenciais relativamente à nossa capacidade de responder, por efeito das mutações climáticas, aos cada vez mais violentos e virulentos eventos naturais. Sendo que, na minha ótica, o problema está menos na nossa capacidade de nos prevenirmos contra eventos desta e de maior dimensão do que à emergência de uma reconfiguração radical do paradigma. Tal como a pandemia tornou necessárias a paralisação da economia e a suspensão de algumas liberdades e garantias fundamentais (como a liberdade de circulação e o direito de resistência) no contexto do Estado de emergência, à que fazer desse mesmo apelo à necessidade o mote para não retornarmos ao mesmo modelo que nos conduziu ao estado em que estamos hoje.

Num artigo no Le Monde Bruno Latour reposicionava o problema:

E, no entanto, a exigência de proteger os franceses [e todos os outros povos] para o seu próprio bem contra a morte é infinitamente mais justificada no caso da crise ecológica do que no caso da crise sanitária, porque se trata aí literalmente de todo o mundo, e não apenas de alguns milhares de humanos – e não por um tempo, mas para sempre1.

É evidente que já não vai ser tudo igual, as previsões económicas que os governos e as instituições nacionais e internacionais vão publicitando em catadupa são emocionalmente mais paralisantes do que a própria experiência física do confinamento – o desemprego é já essa antecâmara da inação. Mas a adaptação do paradigma já está em andamento, em plena crise, durante a vigência do Estado de emergência, e sem que haja grande distanciamento, crítica e resistência popular. Vivemos agora tempos de reconfiguração das relações sociais e relações de produção conduzidas pelo mesmo padrão de governamentalidade, pelas mesmas relações de propriedade e pelas mesmas classes dominantes que cativaram as nossas vidas em nome da produção e da reprodução capitalistas, do paradigma do business as usual. Nunca como agora fomos reduzidos a meros corpos destituídos de vontade coletiva, de subjetividade. Enquanto nós povos fomos destituídos de potência no quadro da ameaça pandémica e do estado policial de emergência, as forças dominantes, com o seu aparelho de instituições republicanas e as suas elites económicas e políticas, têm operado a sua retoma à “normalidade” quando é exatamente o “normal”, todo o paradigma, que tem de ser reconfigurado, revolucionado de uma ponta à outra.

O futuro ou é socialista ou não é futuro. Quando o livre funcionamento do mercado está em suspenso, mas as forças produtivas se mantêm exatamente as mesmas (o que não se sucederia se a guerra fosse real), está aberto um tempo (no sentido grego de kairos, de tempo oportuno), uma janela de oportunidade, para iniciarmos a reconfiguração. E esta precisa de mobilização popular, melhor, a reconfiguração é a mobilização popular defendendo uma melhor distribuição dos recursos e rendimentos, de modo a que a condenação à miséria de uma parte substancial da nossa população não se afigure uma fatalidade conforme a retórica dos porta-vozes (o comentariado) do establishment, dos que se recusam a abdicar dos seus privilégios. Depois precisamos de ir adiante, ameaçando voltar a paralisar tudo – o business as usual, a reconstrução do modelo pelas forças da governamentalidade burguesa – por uma melhor distribuição do trabalho, do seu ritmo e dos seus horários. Nunca como hoje se tornou tão politicamente premente o arrancarmos a necessidade das mãos das classes que comandam e que têm ao seu dispor todo o aparato de recursos legais, institucionais e policiais – incluindo a evocação do estado de exceção. À necessidade da filosofia burguesa contraporemos a nossa necessidade, a necessidade de uma distribuição mais justa do produto social, a necessidade de nos defendermos das alterações climáticas reconfigurando a estrutura produtiva industrializada, a necessidade de defendermos a vida, não só nos seus termos biológicas, mas como defesa de uma “vida boa” (não confundir com “boa vida”) para todos e para todas sem exceção.

Na verdade, como defende o já citado Bruno Latour, já não basta atuarmos sobre a redistribuição é preciso irmos adiante e atuarmos sobre a própria produção. Um controlo cívico, intensamente democrático, igualitário, da produção é algo vital para derrubarmos o paradigma, para que as engrenagens do capitalismo selvagem, necropolítico, produtor de todas as externalidades negativas – como a extinção das espécies, a reprodução das patologias racistas, machistas, heteronormativas…, a alienação social e a pobreza endémica – possam ser, mais do que travadas, finalmente despedaçadas pelo martelo do levantamento popular.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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