Foto por Lars Plougmann

Ser marxista, assumir-se intelectualmente como marxista, não implica qualquer espécie de veneração – de tipo religiosa – por Marx – como se este fosse uma espécie de profeta. Se nos fosse legítimo fazermos este tipo de relação então teríamos de a estender também aos cartesianos, kantianos, heideggerianos, popperianos, rawlsianos… Assumir-se como marxista é fundamentalmente assumir a centralidade da luta de classes e teorizar sobre o mundo a partir dessa crença básica: de que o mundo até aqui não foi mais do que a luta de classes, que “a história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes”. Marx é um autor de referência, um autor incontornável, mas não esgota certamente – e a tradição marxista assim o demonstra – todo o campo de teorização sobre o estado e a evolução da luta de classes.

Se quiséssemos tentar uma analogia com o pensamento de Thomas Kuhn, aplicando a sua epistemologia às denominadas “humanidades”, poderíamos dizer que o marxismo é um paradigma – tal como o cartesianismo, o kantismo, o heideggerianismo,… -, uma ideia reguladora sobre a nossa compreensão do mundo. O problema é que a compreensão do mundo através da dinâmica histórica da luta de classes não é um paradigma no sentido a que Kuhn se referia. Não é um simples modelo explicativo ao lado de todos os outros, neste caso, ao lado de todos os outros modelos filosóficos. A luta de classes é simultaneamente a chave hermenêutica para a compreensão dos processos sociais e uma tomada de posição política. Ou, reformulando, é só através da consciência da luta de classes, e, consequentemente, da tomada de posição dentro deste quadro, que o marxismo – enquanto teoria crítica – pode progredir cientifica e filosoficamente.

A teoria da luta de classes é uma teoria performativa, assim, ao assumirmos a centralidade desta luta estamos também a participar nela, a tomar parte. A prática da luta ilumina a teoria e vice-versa. Nas Teses sobre Feuerbach Marx escreve que já não se trata de pensar o mundo, mas de o transformar. Uma primeira aproximação a esta afirmação bastar-nos-á para podermos confirmar este carácter praxiológico do marxismo, tanto enquanto metodologia, como enquanto praxis.

Já o Capital não é o livro sagrado dos adeptos do marxismo (a sua “bíblia”), corresponde antes a essa notável tentativa de aclarar as “leis do capital” (Negri) de modo a que o proletariado, a multiplicidade oprimida, possa consciencializar-se, por um lado, dos mecanismos sociais que perpetuam a sua condição de oprimidos, e, por outro lado, possa dotar-se de ferramentas concetuais que visam desmontar, desarticular, esses mesmos mecanismos socioeconómicos de opressão e dominação. O Capital – como a restante opus marxista – não é uma obra fechada, isenta de crítica e exegese. Pelo contrário, o estudo das “leis do capital” mantém a sua pertinência na justa medida em que a dinâmica do capitalismo se metamorfoseia ao longo do tempo. O estudo do capitalismo no século XXI não compromete, pelo contrário, aprofunda, os resultados dessa mesma investigação no século XIX. Da mesma forma que, como propõe Antonio Negri – em conformidade com o reconhecimento da luta de classes – além do estudo das “leis do capital” cumpre-nos ainda compreender as “leis do trabalho”. O trabalho de produção teórica marxista deve refletir os próprios estádios de desenvolvimento do capital e do trabalho. Não há obras acabadas.

Por fim, o comunismo, na relação essencial que mantém com o marxismo, também não é uma ideia religiosa. Ao arrepio de toda essa densa, erudita e sofisticada literatura sobre a secularização e as religiões políticas, é preciso persistir na defesa de que o comunismo não é uma ideia com carácter religioso, não é uma religião política. O comunismo é simplesmente o mundo superado da realidade da luta de classes. Um mundo em que o próprio marxismo, enquanto metodologia, enquanto forma de compreensão da história, perde a sua pertinência e atualidade.

O comunismo, enquanto ideia, é a justa expressão de um desejo, de uma vontade, que nasce no interior do mundo da luta de classes. A ideia do comunismo é o horizonte ontológico (não escatológico) dos oprimidos pela luta de classes. O comunismo é o próprio processo histórico de composição da realidade, e, com esta, do ser, através da luta de classes e contra essa mesma luta. Isto é, o comunismo é o horizonte histórico da luta das classes oprimidas contra a perpetuação no tempo da mundanidade como luta de classes. Afinal, a ascensão evolucionária dos oprimidos não se pode dar senão no próprio movimento de liquidação da condição do oprimido em conjunto com a liquidação histórica do opressor.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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