Pior não é a sensação de sermos cobaias do milenar laboratório que é a ciência política. Pior é termos assumido que isso fazia parte da nossa obrigação moral, de termos transformado, mais do que o dever de confinamento, o imperativo de não contaminar/não matar, no projeto das nossas vidas. O problema de tal projeto, imposto pelo fantasma-vírus, é que não é realmente um projeto de vida. Não somos apenas corpos passivos biopoliticamente vigiados e controlados, somos agentes ativos portadores de padrões comportamentais e de “razões” ou de dispositivos de resposta previamente racionalizados. Apesar de um distúrbio aqui e ali, de um ou outro incumprimento, de uma ou outra insurgência, de uma ou outra correção, adaptámo-nos com demasiada leveza e rapidez às circunstâncias impostas pela situação pandémica – como os animais selvagens se escondem nas suas tocas ao sentirem o seu predador.

O que não quisemos ver – e, em grande medida, continuamos a não querer ver – é que o rasto da nossa reação coletiva, a nossa “fuga para a frente”, permitiu que deixássemos para trás as sementes que alimentam um monstro ainda maior: a fratura da comunidade. Da mesma maneira que ao nível biológico o vírus se instala entra as células reprogramando-as, operando como uma espécie de malware natural, de curto-circuito fisiológico, ao nível social o “info-virus” (para utilizarmos o feliz neologismo de Bifo1) liquidou a base psicossocial em que assentavam as nossas comunidades, ou as nossas vivências comunizantes. A política dos corpos não foi destituída pela emergência da biopolítica e dos aparelhos de Estado em emergência, antes forjou novas formas de identidade e subjetivação, formas políticas perigosas porque anti-comunitárias, porque primariamente divisionistas e motivadas pela ostracização do Outro2.

Na verdade estes novos corpos, os corpos-fascistas, constituem-se por via de uma espécie de subjetivação negativa, comprometendo-se com um modo de vida que exclui todos os outros em nome da higienização social. Esta forma de subjetivação é negativa porque o seu movimento, impulso e motivação baseia-se na destruição de qualquer forma de organização civil, de comunidade, que se constitui politicamente pela liberdade e tendo esta como fim.

Agora ao lado do corpo-contágio temos o corpo-fascista, aquele que zela para que o corpo-contágio não quebre a barreira dos 2 metros de segurança, aquele que infantiliza e monitoriza a conduta dos velhos, aquele que vê em todo e qualquer comportamento irrefletido um potencial de contaminação, aquele que vive assombrado pela potência exponencial do contágio, aquele que, enfim, internaliza na sua vontade particular aqueles que são os dispositivos governamentais de vigilância, controlo e punição; ele é o corpo-Estado com uma alma fascizante. Ao lado dos dispositivos biopolíticos que combinam autoridade de Estado e autoridade científica, temos aqueles e aquelas que incorporam a missão de imunizarem as comunidades a que pertencem.

Eles se autoproclamam guardiões da saúde pública, o primeiro pelotão contra os eventuais desvios dos corpos daquela que é a nova norma, o novo social, e intensificam a sua violência contra os reais ou putativos transgressores na medida do seu sentimento – real ou imaginário – de perda de controlo e de colapso social. Não importam os valores de liberdade e solidariedade, a empatia social, nem o Estado de direito, nem sequer as recomendações ou ditames das autoridades de saúde que dizem escrupulosamente seguir, para o corpo-fascista está aberta a janela de oportunidade para que tudo possa ser sacrificado em nome da imunização das comunidades: é a essência da política fascista em todo o seu esplendor racista. E este corpo-fascista, como vírus que é, cola-se a uma camada da vida social que é prévia à própria ideologia, quer dizer, mesmo pessoas que se afirmam de esquerda não estão imunes ao corpo-fascista; as ideologias, como as células, não comportam defesas suficientes contra o seu efeito viral, o seu efeito desestruturador.

Eles investiram para si a função de paramilitares da salus publica, da saúde pública (com o seu duplo significado médico e militar, enquanto defesa da saúde coletiva e manutenção da ordem social), tanto como higienização das relações sociais entre os membros de uma mesma comunidade, como quanto, no mesmo movimento, expulsão do corpo-estrangeiro convertido em corpo-contágio, tudo em nome da purificação da comunidade3. O covid19 está para o efeito de reestruturação celular como o corpo-fascista está para os processos de resposta social à pandemia – enfim, ninguém se pode dizer cabalmente livre e de ambos os vírus nos temos de saber defender.

As vociferações silenciosas – porque camufladas pela info-distância da rede – contra a celebração do 25 de abril são sintoma dessa outra contaminação: as lógicas e representações fascizantes de comunidade. O corpo-fascista é tanto o corpo-polícia que assegura que o comportamento dos seus vizinhos segue os mandamentos da nova ordem, como o corpo-político que se articula contra os valores perseguidos pela democracia no seu enquadramento constitucional e na sua forma parlamentar. Para este o desígnio político securitário estará sempre à frente da liberdade civil, a defesa da imunidade comunitária tem precedência sobre qualquer salvaguarda constitucional, da mesma maneira que a necessidade de ação autoritária/musculada terá precedência sobre a deliberação democrática, e, por fim, o Estado de exceção sobre o Estado normal.

Da nossa parte não se tratará de uma qualquer recusa em seguir responsavelmente as recomendações das autoridades sanitárias de forma a mais do que nos protegermos a nós mesmos protegermos os outros, mas da incorporação subjetiva de elementos protofascistas que sempre habitaram – na forma da latência ou da incubação – entre nós. Se conjugarmos estes corpos-fascistas a um contexto social de desemprego de massa, de depauperação geral e de uma ordem político-policial apertada, teremos o caldo perfeito para a emergência de velhos e novos imaginários fascistas. A compulsão pela higienização individual e a vigilância pidesca do comportamento dos membros da comunidade facilmente se transformará no ódio pelo Outro, pelo corpo-estrangeiro ou corpo-Outro.

Contrariamente à perceção geral não é altura de nos fecharmos e excluirmos – tanto individual como coletivamente, tanto comunitária como socialmente – é altura de nos abrirmos ao Outro e o incluirmos, só assim nos poderemos salvar dos projetos de eugenização/higienização/purificação social em curso.

2 Este artigo do Diego Garcia convoca-nos precisamente para termos atenção a este tipo de reação discriminatória. Ver, https://interiordoavesso.pt/diego-garcia/discriminacao-em-tempos-de-pandemia/.

3 A este propósito ler o artigo de Ângelo Milhado publicado aqui e que justamente aborda esta transmutação na forma como nos relacionamos com o Outro principalmente em relação ao “corpo-estrangeiro”. Ver “A pandemia, a máscara sanitária e a necessidade de um humanismo renovado”.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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