Não há política sem a forma-política, isto é, sem a sua configuração prática, a sua praxis. Não há política sem a razão prática, sem o cálculo, sem a relação instrumental entre os meios e os fins, em suma, sem agenciamento. Não há política sem a forma-política, sem o dispor em prática dos recursos – materiais e imateriais – com vista aos fins pretendidos. Afirmarmos que não há política sem a forma-política será suficiente para refutarmos os utópicos que julgam poder processar a política conservando imaculada a sua pureza doutrinária. Não há política sem estratégia nem cálculo, o que não significa que tudo seja permitido para atingir os fins pretendidos, até porque os fins não têm todos a mesma dignidade ética e a(s) forma(s)-política(s) só é democrática quando se encontra em processo.

A política diz respeito à polis, à constituição de comunidades políticas. A política é também processo, um processo relacionado com o modo de como podemos e queremos viver-em-conjunto. A polis é a vida-em-conjunto constituída enquanto comunidade política, enquanto vontade colectiva. É preciso encetar o processo, um processo que é democrático quando é um processo com vista à constituição colectiva da liberdade. A política não pode ser desvinculada da forma-política, mas a forma-política não pode ser democrática se não estiver em relação com o processo. O processo político é a força constituinte; a constituição de cidades, isto é, de formas de vida-em-conjunto, de comunidades de desejo e inspiração.

O processo político é simultaneamente um processo ontológico. A praxis política em processo é um processo que se apropria do tempo com vista não apenas a transformar a realidade da vida-em-conjunto, como a (re)criá-la, a (re)criar novas formas de comunidade, de colectivização da liberdade, de socialismo. É a força constituinte dos homens e mulheres em liberdade que cria o ser, a constituição da polis confunde-se com a constituição da liberdade. Uma liberdade conquistada aos ciclos reprodutivos das necessidades biológicas ou do capital.

A ontologia do processo político é uma ontologia criativa. A praxis democrática é a da multiplicidade, do desdobramento da potência da multitude enquanto se encontra em processo, em constituição de ser, de realidade. A ontologia do processo político é constitutivamente anárquica, ela tem a necessidade de estar em contínuo processo de criação de ser. Criação de ser que deriva das possibilidades potencializadas pela vida-em-conjunto. A polis da multitude é a polis sem fronteiras, sejam físicas, sejam simbólicas.

Mas a política em processo com as suas diversas formas-políticas encontra resistência, mais, encontra-se num quadro de luta de classes. Fazer processar o poder da multitude, a sua liberdade, é fazê-lo no quadro da dominação capitalista. Contra a ontologia do único, da unidade, de encerramento do ser, que perfaz o corpo da dominação, a ontologia da criação de liberdade, de desdobramento do múltiplo. Fazer processar a liberdade da multitude é encetar um processo de libertação do trabalho explorado, é fazer encetar um processo de libertação sexual, de libertação do patriarcado e da mitologia da supremacia branca. A política em processo é a praxis por uma conquista ontológica à dominação burguesa, à própria filosofia burguesa, em nome da liberdade colectiva.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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