Complexa e plena de equívocos, a relação histórica entre anarquismo e marxismo. As dificuldades começam no conceito que se faz de cada uma das ideologias. É portanto necessário esclarecer (e já isso não é fácil) o que realmente se entende por “marxismo” e igualmente de que «anarquismo» se fala.

Começando pelo primeiro e considerando apenas o conjunto da obra produzida por Karl Marx e Fredrich Engels e deixando de lado as elaborações dos seus putativos discípulos, já nos deparamos com não poucas dificuldades. Por exemplo, até que ponto os primevos sociais-democratas, que se reclamavam marxistas, foram fiéis aos seus referentes? Contemporâneos de Marx, os sociais-democratas alemães declaram o Volkstaat ou Estado Popular. Na altura nem Marx nem Engels pestanejaram: é provável que tal indulgência se devesse ao facto de haver finalmente um partido de massas na Alemanha que lhes fazia referência, se não mesmo reverência.

Foi necessária a furiosa e repetida denúncia do Volkstaat por Bakunin para que Marx e Engels se sentissem obrigados a condenar tais formas de organização e prática políticas. Muito mais tarde, em 1895, um Engels já algo envelhecido, escreveria o seu famoso prefácio à «Luta de Classes na França» de Marx, realizando assim uma completa revisão do marxismo, abraçando o até então rejeitado reformismo, no seu núcleo duro, por admitir o uso do voto como meio ideal, senão único, de tomar o poder. Nesse escrito, pode-se dizer que Engels, já não é marxista no sentido que ainda hoje tantos atribuem ao termo.

Pouco depois, Karl Kautsky torna-se no equívoco sucessor de Marx e Engels. Adepto da luta de classes e da teoria revolucionária marxista, a sua praxis revela-se oportunista e consagra as tendências reformistas do seu partido. simultaneamente, Eduard Bernstein, que também se pretendia “marxista”, pedia a Kautsky mais clareza e repudiava abertamente a luta de classes segundo ele superada, em proveito do eleitorialismo, do parlamentarismo e das reformas sociais.

Kautsky por sua vez, considerava que socialismo e luta de classes eclodiam a partir de premissas diferentes. Para ele, a consciência socialista emanava da ciência cujo fautor não era o proletário e sim o intelectual burguês. Só graças ao burguês esclarecido, o socialismo científico poderia, segundo ele, ser revelado aos proletários. Na sua formulação: “A consciência socialista é um elemento importado de fora para a luta de classes do proletariado, e não qualquer coisa que surge espontaneamente.”

Houve porém, dentro da social-democracia alemã, quem permanecesse fiel ao marxismo original, apesar dos compromissos tácticos que assumiu com a direcção de seu partido: refiro-me a Rosa Luxemburgo.

Embora não se opusse abertamente a Bebel e Kautsky, numa fase inicial (somente a partir de 1910 ela entrará em conflito aberto com Kautsky, quando o seu ex-tutor se opõe à greve como forma de luta política).

Frequentes vezes ela atacou os anarquistas mas não obstante pequenas diferenças de enunciado, não há diferença assinalável entre a formulação da greve geral anarco-sindicalista e a que a prudente Rosa Luxemburgo preferia denominar “greve de massas”. Mesmo as suas violentas controvérsias, a primeira com Lenine, em 1904, a última na primavera de 1918, com o poder bolchevique,coincidem, em larga medida, com a crítica anarquista. Mas são as suas últimas concepções, no movimento spartakista, no final de 1918, que revelam a grande fractura que a opõe ao leninismo, que como ela também se reclamava «marxista».

Nessas polémicas, Rosa Luxemburgo preconiza um socialismo impulsionado de baixo para cima pelos conselhos operários, em oposição ao conceito leninista de «vanguarda iluminada», o que faz dela um dos traços de união entre o anarquismo e o marxismo autêntico.

Portanto, o marxismo não foi somente deformado pela social-democracia alemã mas também foi alterado, em certa medida por Lenine, que agravou consideravelmente alguns dos traços jacobinos e autoritários que esporadicamente ainda que não sempre, assomavam desde os escritos de Marx e Engels. Para combater o divisionismo e as forças centrífugas que ameaçavam a revolução russa, assaz ameaçada pela interferência exterior (que assumiu mesmo a forma de intervenção militar, com a irrupção do Exército Branco, criado e financiado pelo capitalismo a ocidente) Lenine recorreu à tradição secular do ultracentralismo czarista, a uma concepção estreita e sectária de Partido (com um P maiúsculo, como uma nova Igreja) e sobretudo à prática dos revolucionários profissionais enquanto dirigentes das massas (os novos sacerdotes). Não encontramos nenhuma destas noções nos escritos de Marx, sendo muito discutível que lá estejam, mesmo enquanto pulsões embrionárias e subjacentes.

Lenine, em tempos ele mesmo um social-democrata, acusa violentamente os seus «companheiros de viagem» mas apesar da crítica cada vez mais cerrada dos anarquistas que o tomam como alvo, no seu pequeno livro «O Estado e a Revolução», consagra-lhes uma secção inteira, uma espécie de homenagem pela fidelidade anarquista à revolução.

A primeira grande dificuldade: o pensamento de Marx e de Engels é em si mesmo muito difícil de compreender, porque atravessa um quarto de século de trabalho teórico que sempre se esforçou por reflectir a realidade viva de seu tempo.

Ela própria uma realidade em constante mutação. Apesar de todas as tentativas de alguns de seus críticos modernos , não faz qualquer sentido falar de dogmatismo marxista. É certo que sobretudo Marx (mais que Engels) contribuiu muito para que tal imagem se formasse a seu respeito, por insistir nas condições objectivas e desprezar os aspecto subjectivos e isto reflectiu-se na sua própria produção que, como veremos, não foi imune às vicissitudes da sua própria existência material.

O jovem Marx, discípulo do filósofo e humanista Ludwig Feuerbach, é bem diferente do Marx de idade madura. O seu antigo mestre acaba aliás por merecer a sua crítica por apego excessivo um determinismo científico rígido, obsessivo, doentio.

O Marx da Nova Gazeta Renana (Neue Rheinische Zeitung) que desejava somente ser chamado de democrata e que buscava aliar-se à burguesia alemã avançada tem alguns traços comuns mas difere substancialmente do Marx de 1850, comunista, glorificador da revolução permanente e da ditadura do proletariado.

O Marx dos anos seguintes, reformulando a revolução internacional enclausurado numa biblioteca do Museu Britânico no intuito de aprofundar pesquisas científicas extensas e meditadas já é diverso do Marx insurrecto de 1850, que acreditava numa revolta global iminente.

O Marx de 1864-1869 interpretava nos bastidores o papel de conselheiro desinteressado e discreto dos operários reunidos na Primeira Internacional, tornando-se subitamente, a partir de 1870, num Marx fortemente autoritário que, de Londres, regia o Conselho geral da Internacional.

O Marx que no raiar do ano de 1871, se põe severamente em guarda contra uma insurreição parisiense não é o mesmo que pouco depois, na famosa comunicação, publicada sob o título de «Guerra Civil Na França», escrita sob a influência da Comuna de Paris, de onde, seja dito de passagem, ele idealiza alguns dos traços.

Enfim, o Marx que, neste mesmo escrito, afirma que a Comuna teve o mérito de destruir o aparelho de Estado trocando-o pelo poder comunal não é o mesmo que, na Carta sobre o Programa de Gotha, se esforçará para convencer que o Estado deve sobreviver, por um longo período de tempo, antes da revolução proletária.

Deste modo, não se pode considerar o pensamento marxista como um bloco homogéneo. Há no entanto uma ligação de parentesco inegável do seu pensamento com o anarquismo.

A segunda grande dificuldade: O anarquismo é ainda menos que o marxismo uma doutrina de corpo homogéneo. A recusa da autoridade e a tónica colocada sobre a prioridade da consciência individual tornam os anarquistas adversários ferozes de todo o tipo de dogmatismos. Assim as visões libertárias são mais diversas, fluídas e difíceis de serem apreendidas que as dos socialismo autoritário. Existem diferentes correntes no seio do anarquismo mas mesmo as mais individualistas não renegam o papel social do indivíduo. No assunto em análise, o problema que se coloca é saber qual a variante do anarquismo que se confronta com o marxismo original, ou se preferirmos, de que forma as duas formas pensamento revolucionário se poderiam entender.

É evidente que a variante anarquista que se encontra menos distanciada do marxismo é a do anarquismo construtivo, social, o anarquismo colectivista cooperativo ou comunista. É essa variante com que me identifico, as variantes individualistas terão naturalmente toda a legitimidade mas pela sua natureza dispensam e até deploram formas organizadas de agir pelo que não perco tempo sequer a discuti-las: elas se afirmam auto-suficientes, que o sejam até às últimas consequências.

O anarquismo e o marxismo sempre se influenciaram reciprocamente. Errico Malatesta, o grande anarquista italiano, escreveu: “Quase toda a literatura anarquista do século XIX estava impregnada de marxismo.” Bakunin admirava Marx, tanto assim que começou a traduzir para russo o primeiro volume do Capital. Um seu amigo, o anarquista italiano Carlo Cafiero, publicou na sua língua materna um resumo dessa mesma obra.

No sentido oposto, os primeiros livros de Proudhon «O que é a Propriedade?» (1840) e sobretudo o seu grande livro «Sistema das contradições económicas ou Filosofia da Miséria» (1846), influenciaram profundamente o jovem Marx, mesmo se não muito depois, o alemão tenha replicado com a venenosa Misére de la philosophie, ataque cerrado às formulações Proudhonianas.

Apesar das querelas, Marx devia muito aos pontos de vista expressos por Bakunin. Lembrem-se estas duas:
– A carta redigida por Marx sobre a Comuna de Paris é, por todas as razões indicadas mais a frente, inspirada por Bakunine, como Arthur Lehning, editor dos Arquivos Bakunin, sublinhou.

– É graças a Bakunin que Marx, como já foi dito, se vê obrigado a condenar a palavra de ordem do Volkstaat de seus associados social-democratas.

O Marxismo e o anarquismo não são somente influenciados um pelo outro. Eles têm um tronco comum, um parentesco inegável. Enquanto materialistas, nem marxistas nem anarquistas crêem que as ideias são inatas ou plantadas no cérebro humano por nenhuma força sobrenatural mas antes reflectem a experiência acumulada da vivência material com todas as suas vicissitudes e condicionantes.

Os primeiros escritores socialistas, tanto anarquistas quanto marxistas beberam nas mesmas fontes primeiro na grande Revolução francesa do final do século XVIII, em seguida nos esforços empreendidos pelos franceses a partir de 1840 para contrariar a exploração capitalista.

Quantos sabem que houve em Paris, em 1840, uma greve geral? E, durante os anos seguintes assistiu-se a uma profusão de jornais operários, o mais célebre dos quais talvez tenha sido «L’Atelier». Foi nesse mesmo ano de 1840 que Proudhon publicou “Memória contra a propriedade” e, quatro anos depois, em 1844, o jovem Marx atestou, nos seus célebres Manuscritos (que permaneceram inéditos durante muito tempo), o relato da sua visita aos operários franceses e a vívida impressão que estes trabalhadores lhe causaram. Um ano antes, em 1843, uma mulher excepcional, Flora Tristan, discursara diante dos trabalhadores da União Operária após ter viajado pela França para contactar operários das grandes cidades. No congresso de 1869 da Primeira Internacional, antes da guerra franco-alemã de 1870, houve mesmo uma aliança formal entre marxistas e bakuninistas. É de se notar, aliás, que este entendimento foi explicitamente dirigido contra os discípulos reacionários de Proudhon (+ 1865), entre eles Tolain, que recuperou, tal como o seu falecido mestre nos seus últimos anos, a ideia da necessidade da propriedade privada dos meios de produção.

No seio da Revolução francesa, houve dois tipos muito diferentes de revolucionários, duas variantes antagónicas, uma formado pela ala esquerda da burguesia, outra por um proto-proletariado (pequenos artesãos e assalariados). Os primeiros eram defensores do Estado autoritário, ditatorial, centralizado e opressivo. Os segundos, defensores do Estado democrático, federalista, composto daquilo que será conhecido hoje por conselhos operários, isto é, as 48 sessões da vila de Paris associadas na Comuna parisiense e as sociedades populares nas vilas de província. Este segundo grupo era em essência libertário, em alguma medida o precursor da Comuna de Paris de 1871 e dos soviets russos de 1917, ao passo que o primeiro foi baptizado, ( apenas depois do golpe) com a designação de Jacobino. É uma palavra talvez imprópria, ambígua e artificial para o que está aqui em causa, mas impôs-se e não vale a pena tentar revogá-la.

Charles Delescluze, o líder da ala direita maioritária do Conselho da Comuna de Paris, autodenominava- se jacobino, um robespierrista. Proudhon e Bakunin, em seus escritos, denunciaram o “espírito jacobino”, considerado por eles correctamente como um legado político dos revolucionários burgueses. Pelo contrário, Marx e Engels tiveram certo pejo em se demarcar do jacobinismo e chegaram a reverenciar alguns “heróis” da Revolução burguesa, entre os quais Danton (que, de fato, foi um político corrompido e um agente duplo) e Robespierre(que terminou aprendiz de ditador).

Os libertários, graças à acuidade de sua visão antiautoritária, não caíram nesse logro e afirmaram muito claramente que a Revolução francesa não foi apenas uma guerra civil entre a monarquia absoluta e os revolucionários burgueses, mas que ela foi também, pouco tempo depois, uma guerra civil entre o “jacobinismo” e aquilo que chamarei, por falta de melhor designação de  «comunalismo».

Uma guerra civil que terminou em março de 1794, com a defesa da Comuna de Paris e a decapitação de seus dois magistrados municipais, Chaumette e Hébert, isto é, a reversão do poder de base – tal como a revolução de outubro na Rússia terminará com a liquidação dos conselhos de fábricas.

Marx e Engels oscilam durante anos entre o jacobinismo e o comunismo. No início, eles fizeram o elogio da “centralização rigorosa oferecida como modelo pela França em 1793”. Mais tarde, em 1885, Engels percebeu que tinha sido induzido em erro e que a centralização citada abriu caminho à ditadura de Napoleão. Marx chega a escrever uma vez que os Enragés, os partidários do ex-padre esquerdista Jacques Roux, porta-voz da população trabalhadora dos subúrbios, haviam sido os “representantes principais do movimento revolucionário”.

Lénine, mais tarde, se mostrar-se-á mais jacobino que seus mestres, Marx e Engels. Segundo ele, o jacobinismo seria “um dos pontos culminantes da classe oprimida na luta pela sua emancipação”. Mais de uma vez se auto-denominou “Um jacobino ligado à classe operária”. Evidentemente, os anarquistas só poderiam aceitar um acordo com os marxistas se estes se livrassem de vez de qualquer resquício de jacobinismo.

Recapitulemos os principais pontos de divergência entre anarquismo e marxismo:

a) Se ambos estão de acordo sobre a abolição do estado burguês, os marxistas crêem necessário substituí-lo por um novo estado, que designam por “estado operário”, por um período indefinido de tempo; após o qual prometem o seu desaparecimento. Ao contrário, os anarquistas contrapõem que o novo estado será sempre mais omnipotente e opressivo que o estado burguês, uma vez que a propriedade estatal do conjunto da economia pressupõe uma máquina burocrática monstruosa, uma nova élite que se negaria sempre a sair voluntariamente de cena. Afinal, é o próprio Marx que afirma que ao contrário do que acontece com certos indivíduos, as classes dominantes jamais se suicidam.

b) A desconfiança dos anarquistas quanto à assinalada missão (pelo próprio Marx) dos comunistas, pois se no «Manifesto Comunista» se lê que “os comunistas não tem interesses separados dos que constituem os interesses do proletariado” também se pode ler que “eles (os comunistas) representam constantemente o interesse do movimento total” uma vez que suas “concepções teóricas”, juram os autores do Manifesto, “não repousam somente sobre ideias, mas assentam sobre princípios que não são senão a expressão geral das condições efectivas da luta de classes”.

Mas mais alarmante ainda é a proposição que segue: “Teoricamente, eles [Os comunistas] têm sobre o resto da massa proletária a vantagem de compreender as condições, a marcha e os últimos resultados gerais do movimento proletário.”

Esta afirmação decisiva permite que os comunistas reclamem o direito histórico de se atribuírem a si mesmos a direcção do proletariado. Ora isto, para os anarquistas, é inaceitável porque implica reconhecer que possa existir uma vanguarda fora da massa dos oprimidos.

c) A questão da espontaneidade revolucionária das massas, uma noção especificamente libertária: encontramo-la com frequência nos escritos de Proudhon, Kropotkine ou Bakunin. Todavia tal noção parece alheia a Marx e a Engels, pelo menos na redacção de seus originais em alemão e/ou inglês. Nas traduções, a palavra em questão aparece de vez em quando, mas são equivalentes inexactos. Marx e Engels referem somente a auto-atividade (Selbsttätigkeit) das massas, noção mais específica que espontaneidade. Será porque a espontaneidade compromete a pretensão ao papel de dirigente do Partido? Rosa Luxemburgo foi a primeira e das poucas marxistas a utilizar, em alemão, a palavra spontan (espontâneo) em seus escritos.
d) Marx não se dedicou às questões da autogestão, apesar de antes dele Proudhon lhe ter consagrado inúmeras páginas. Tendo começado a sua vida como operário, havia observado com grande atenção as “associaçõe operárias” nascidas durante a revolução de 1848. A razão desse desprezo de Marx pela auto-gestão, prende-se provavelmente ao facto de ele considerar tal prática como “utópica”.

Recordemos alguns conflitos históricos entre anarquistas e marxistas. Talvez a primeira escaramuça tenha sido protagonizada pela dupla por Marx Engels contra Stirner no livro: A Ideologia Alemã(9). Talvez neste caso não tenha passado de um mal entendido recíproco. Stirner não sublinhou claramente que além da exaltação do Ego, o indivíduo considerado como um “Único”, pressupõe, de facto, uma associação voluntária desse “Único” com um outro, isto é um novo tipo de sociedade formada sobre a livre escolha federativa e o direito de secessão – uma ideia que será retomada mais tarde por Bakunin e até mesmo por Lénine quando tratou da questão nacional.

Por seu lado,Marx e Engels interpretaram de maneira errada as diatribes de Stirner contra o comunismo, que eles acreditavam de inspiração reaccionária, enquanto Stirner, na realidade, praguejava contra uma variedade bem particular de comunismo, o “grosseiro” comunismo estatal dos comunistas utópicos de seu tempo, tal como Weitling na Alemanha e Cabet na França, isto porque Stirner supunha (com razão) que este tipo de comunismo ameaçava a liberdade individual.

Mais tarde, o mesmo Marx abriria nova frente, desta vez contra Proudhon e em parte pelas mesmas razões: Proudhon celebrava a pequena propriedade privada porque via nela um desejável grau de liberdade individual. Mas Marx ignorava que para as grandes indústrias, ou seja, para o sector capitalista, Proudhon preconizava a propriedade colectiva.

De resto Proudhon, em «Capacidade Política das Classes Operárias» opõe, tal como Marx, a classe operária à classe burguesa e confirma a existência da luta de classes mas tal não impedirá Marx de tratar o proudhonismo de socialismo pequeno-burguês. E assim chegamos à violenta querela Marx vs Bakunin no seio da Primeira Internacional. Bakunin atribuía a Marx horríveis intenções autoritárias, uma sede de dominação sobre o movimento operário. Talvez a acusação fosse injusta, ao ser pessoalizada mas no geral pode-se dizer que o anarquista teve uma visão bem lúcida de um futuro distante. Ele previa a entrada em cena de uma “burocracia vermelha” e pressentia a tirania que deveriam um dia exercer os dirigentes da Terceira Internacional sobre o movimento operário mundial. Marx contra-atacou caluniando Bakunin e fez votar, no Congresso de Haia, em setembro de 1872, a exclusão dos bakuninistas.

Durante toda a década de 1880 houve uma tentativa de criar uma esquelética Internacional anarquista. No mesmo período, o marxismo desenvolveu-se rapidamente na Alemanha como cruzamento com a social-democracia e na França com a fundação do Partido operário de Justles Guesde.

Mais tarde os diversos partidos social-democratas uniram-se para criar a segunda internacional. Em seus sucessivos congressos produziram inúmeras diatribes contra os libertários, criando entraves à sua participação. Em Zurique, em 1893, a socialista libertária holandesa Domela Nieuwnhuis atacou em termos tão violentos quanto brilhantes o processo da social-democracia alemã sendo fortemente vaiada.

Em Londres, em 1896, a própria filha de Marx, Mme. Aveling e o líder socialista francês Jean Jaurès insultaram e colocaram na rua os poucos anarquistas que puderam penetrar nos recintos do congresso enquanto delegados dos diversos sindicatos operários.

De 1860 à 1914 a social-democracia alemã e mais ainda a máquina surda dos sindicatos operários alemães rejeitaram o anarquismo: mesmo Kautsky, no tempo em que ainda se declarava a favor da greve de massas, foi acusado pelos burocratas operários de ser um “anarquista”.

Na França, produzia- se o efeito oposto: o reformismo eleitorialista e parlamentar de Jaurès degradou as condições de vida dos trabalhadores e Fernand Pelloutier, Émile Pouget e Pierre Monatte, vindos do movimento anarquista fundaram a legendária C.G.T.

A revolução russa e mais tarde a revolução espanhola acabaram por abrir entre anarquistas e marxistas, uma fractura que não será doravante apenas ideológica, mas também (e sobretudo) de sangrenta e dolorosa memória. No caso francês porém comunistas e anarquistas lutaram lado a lado na resistência contra o ocupante alemão, sem que houvesse fricções ou antagonismos dignos de registo.

No pós segunda guerra mundial, ressurgiu das cinzas um novo activismo anarquista, cuja expressão mais forte e evidente se produziu na França em maio de 1968. Foi a mais espontânea, a mais imprevista, a menos preparada das rebeliões. Um vento forte de liberdade soprou devastador e ao mesmo tempo criador, especialmente entre os jovens estudantes. Não houve, neste caso, barreiras estanques entre os movimentos libertários e aqueles que se reivindicavam do “marxismo-leninismo”. Existiu mesmo uma certa permeabilidade não sectária entre os diferentes movimentos.

Na Catalunha, assistiu-se também a um ressurgimento anarquista nos meios urbanos, protagonizado pelos jovens okupas.

Recentemente, no Curdistão, aconteceu o que parecia impossível. O Partido Comunista Curdo converteu-se à causa libertária, após a prisão de Oçalan, o seu líder histórico. Esta evolução é ainda mais surpreendente por ter sido o Estalinismo a linha abandonada pelo líder e seus seguidores.

As mulheres da região, assumem-se como vanguarda, combatendo os invasores de armas na mão e assegurando, tal como os seus irmãos e maridos, a própria ordem interna nas suas comunidades, isentas de polícias estatais.

Os trotskistas evoluíram em algumas de suas perspectivas e abandonaram muitos de seus preconceitos em relação aos escritos e teóricos libertários. Existem sempre alguns grupos marxistas autoritários que são particularmente anti-anarquistas e também não faltam anarquistas que permanecem violentamente anti-marxistas.

A noção de alienação contida nos Manuscritos de 1844 do jovem Marx vai de encontro às fontes anarquistas que consagram o imperativo da liberdade e da consciência dos indivíduos. Da mesma forma, a teoria reveladora do capital e seus mecanismos permanece, ainda hoje, uma das chaves que permitem compreender o funcionamento do sistema capitalista, assim como o método da dialética materialista e histórica permanece um dos fios condutores para uma compreensão dos eventos do passado e do presente. Para que se produza um novo e fecundo encontro entre as duas grandes correntes do materialismo histórico, este não deve reduzir- se a um simples determinismo, deverá assegurar um fluxo contínuo entre a vontade individual e a espontaneidade revolucionária das multidões. Uma síntese entre o anarquismo e o marxismo não é somente necessária, tornou-se mesmo inevitável. Um comunismo libertário, fruto de uma tal síntese, seria certamente mais sedutor e eficaz que o marxismo autoritário degenerado ou o velho anarquismo fossilizado.

(Nota- O presente artigo foi baseado numa comunicação de Daniel Guérin em Nova York, ano de 1973. Em artigo posterior, farei um reavaliação deste texto com as devidas actualizações.)

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Nascido em Angola em 10-09-1963. Cursou Arquitectura na ESBAP e na FAUTL. Professor do 3ºCiclo. Activista, Poeta, Ficcionista, Autor Satírico (sob o nome Jo King), Cartoonista (sob o nome Jo) vive actualmente em Viseu.

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