Relações de classe, relações de produção, relações de propriedade, relações sociais. É preciso abrir a porta e as janelas para que o espectro do comunismo retorne para voltar a assombrar a europa, ou essa ideia da europa como comunidade viva dos muitos e dos iguais. Não é altura da esquerda voltar a assumir o papel subalterno de regulador de capitalismo, nem, muito menos, de seu salvador e fiador de última instância. É preciso seguir adiante, munidos com a nossa força e a ilimitação da nossa vontade e imaginação.

Confinar a vida política à estreiteza das relações entre as instituições liberais neste contexto de capitalismo em desmoronamento é só insistir na harmonização do horizonte da ação política aos interesses da mesma organização institucional e económica burguesa que nos conduziu até a este ponto. É preciso seguir adiante, revindicar, debater e impor uma agenda emancipatória, pró-comunista, que não seja o contraponto, a correção ou a regulação da agenda das instituições e das forças políticas dominantes. Para que o debate e a ação política não se limitem ao confronto das instituições republicanas, que se constranja ao grande consenso neoliberal e social-democrata, é preciso apostar na fomentação de uma política das bases, pela reivindicação e projeção de um novo sujeito político que não seja o sujeito egoísta, atomizado, híper-consumista, apolítico, esse sujeito do cansaço, do conformismo e do esgotamento existencial do capitalismo tardio.

É preciso atacar visceralmente as relações de produção vigentes que literalmente provocaram o abandono de uma grande parte dos trabalhadores e trabalhadoras à sua sorte. Esse abandono tem apenas uma causa: a matriz das relações de produção, a relação entre os detentores dos meios de produção e os portadores da força ou do intelecto de trabalho. O problema de limitarmos a política à vida das instituições dominantes é que estas não colocam em causa esta matriz, esta estrutura básica do capitalismo. A proteção da propriedade privada é sagrada, ainda que esta propriedade seja na verdade o resultado de uma distorção do mercado ou da relação entre classes antagónicas no processo de produção das mercadorias e da extração de mais-valia. Só há propriedade – entenda-mos propriedade privada – por via desta relação social, desta relação de classe, que funciona como um a priori em relação à conversão do produto social (ao produto do trabalho vivo) em mercadoria e consequente propriedade.

Agora que os patrões nos enxotam para fora das fábricas, das terras, dos hotéis, dos restaurantes, dos estabelecimentos comerciais, nos cortam salários e nos impõem férias – tudo isto enquanto empresas como a Galp aumentam os dividendos dos seus acionistas -, é preciso força e imaginação política para contestarmos as próprias relações económicas que salvaguardam o capital e a propriedade privada em desfavor daqueles que apenas dispõem da força de trabalho e a vendem a troca de um salário. Já chega de sermos as eternas vítimas de uma organização socioeconómica violenta que rouba a riqueza que é o resultado do nosso suor, da nossa inteligência e da nossa criatividade. Urge juntarmos a força necessária e suficiente para desfazermos as correntes que nos prendem a uma estrutura económica e a uma superestrutura jurídica e institucional que preserva o mesmo tipo de relações económicas, sociais e políticas que nos transformaram em corpos-zombies, em seres destituídos de potência, de vida. Gente desempregada ou com salários de sobrevivência, sozinhos com a sua depressão, potenciais ou atuais pedintes, átomos em famílias sem núcleo, despojados dos frutos do seu trabalho. Corpos-zombie, habitantes amedrontados das avenidas vazias, corpos cada vez mais franzinos esquivando-se às forças policiais, atemorizados por um futuro para o qual não foram convocados a participar.

É preciso nos enchermos da coragem que nos permitirá ousar superar o vazio que nos separa dos detentores dos meios de produção, da estrutura produtiva social dividida e repartida entre a classe burguesa em perpétua autofagia. Para isso será preciso contarmos com a força e a imaginação de um proletariado e de uma multitude apostada em arranjar novas soluções institucionais que protejam o trabalho social, o comum e as lógicas comunizantes. O princípio é sempre a liberdade, a igualdade e a solidariedade. Liberdade de projetar e constituir novas formas de organização coletiva apesar ou contra o aparelho repressivo de Estado, retomar a essência da soberania popular como autodeterminação política, como movimento de dinâmica comunizante, que, no seu devir, transforma a soma das partes em totalidade, a propriedade privatizada em [propriedade] comum. Igualdade radicalmente enraizada contra a reprodução das hierarquias e das lógicas top-down, dos eleitos e dos eleitores, dos chefes e dos subordinados, dos competentes e dos incompetentes; igualdade de todos perante todos contra as fronteiras físicas e simbólicas que distorcem ideologicamente a potência primordial da “comunidade dos iguais”, o húmus de onde todos vimos e para onde todos vamos. Por fim, solidariedade horizontal contra a caridade vertical, solidariedade entre os iguais que atravessa as relações de propriedade desvelando a desigualdade como signo de uma ficção social, a expressão de uma necessidade inscrita nas leis económicas dos liberais, uma falsa necessidade reproduzida ideologicamente.

Talvez seja a hora de mandarmos tudo pelos ares. Não só a divisão do trabalho, como a divisão do lazer, do talento, da inteligência… Porque o significado profundo de comunidade não se baseia, como sucede na sociedade neoliberal, nas diversas formas de limitação dos espaços que aprofundam as distâncias entre o nós e os outros, que nos tornam indivíduos-átomos num tecido social estruturado em assimetrias, mas na permeabilidade entre as mais diversas dimensões da vida humana que torna ilimitada a potência criativa do humano. A ideia de comunidade é a ideia de mistura, de promiscuidade, como a ideia de inteligência em Rancière nesse pequeno, luminoso e serenamente revolucionário livro intitulado O mestre ignorante – cinco lições sobre a emancipação intelectual.

Reabilitando o desconcertante pedagogo Joseph Jacotot, o antigo discípulo de Althusser defende a tese, simples mas contra o senso comum, da igualdade das inteligências. Todas as inteligências são iguais, a inteligência é uma faculdade do ser humano e não um órgão biológico – ainda que possa ser um órgão central. A inteligência não pode ser dividida nem quantificada, ela é puro ato, expressão da permanente tradução das coisas do mundo em linguagem humana e desta linguagem em comunicação com os outros. A inteligência é puro ato e pura potência, porque a sua gramática não concebe limites, não tem dentro nem fora, é essa ininterrupta “viagem” em que o veículo se transforma no próprio desejo do viajante. A inteligência é simultaneamente o destino e o veículo, o fim e o meio.

A esta tese Rancière junta uma outra, ancestral, de que “tudo está em tudo”, de que a nossa relação com qualquer coisa que seja do mundo é uma porta para uma outra coisa e assim por diante. Principalmente que a potência da inteligência – de qualquer inteligência – é a de conseguir, passo por passo, repetir os trilhos de uma outra inteligência – de qualquer inteligência. Um pouco como a ideia de comunidade…

 

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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