No final do século XIX, várias personalidades importantes da vida portuguesa, desapontadas com a situação política portuguesa, passaram a reunir-se, semanalmente, à mesa do Café Tavares e do Hotel Bragança, para jantar e para discutir matérias relacionadas com a cultura, a sociedade, a literatura, não esquecendo a política. Estes herdeiros da Questão Coimbrã e das Conferências Democráticas do Casino pretendiam explicar o seu desapontamento e desânimo em relação ao rumo da sociedade portuguesa.

O grupo era constituído pelos indivíduos mais influentes da geração de 70, nomeadamente Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Carlos Mayer, entre outros.

Em 1888, Oliveira Martins teve a feliz ideia de batizar o grupo com a designação de “Vencidos da Vida”, talvez desencantados com a sociedade e ambicionando uma modificação profunda do país.

Paradoxalmente (ou não!) dei comigo a pensar na expressão “vencidos da vida”, quando olhando para o pequeno ecrã vi os milhares de migrantes que desesperadamente tentavam a nado atingir “terras de Espanha” em Ceuta.

Por que o fazem? Porque não têm nada, e procuram ter alguma coisa. Porque fogem da fome e da guerra, da perseguição política, em busca de uma vida melhor.

Os migrantes não têm nomes. Pelo contrário, são-lhes atribuídos letras e números. Muitos são incapazes de provar as suas origens. Os migrantes são apátridas, mas muito pior são objetos, e são tratados com tal, esquecidos e ignorados.

Neste recente acontecimento, Espanha manda militares em vez de mandar médicos! Manda-os para a sua terra África, já que ali ironicamente estão na Europa.

E a união europeia paladina de todos os direitos, o que faz? Tal qual a avestruz, enterra a cabeça na areia e nada diz e nada faz.

E a presidência portuguesa da União Europeia o que faz? O atual presidente António Costa sofre de uma amnesia galopante, esquecendo as suas raízes indianas e pior que isso esquecendo os anos 60 do século passado onde os nossos compatriotas, tal qual estes saíam “a salto” para terras “melhores” como a França e a Alemanha. Não iam a nado pelo mar porque a França e Alemanha não são ilhas, mas recordo o Francisco Almeida, o “Chico das Ferraduras”, que se afogou no rio Minho que a tentar emigrar, resolveu ir a nado para Espanha em 1961.

O planeta terra é de todos e todos têm o direito de viver onde quiserem. Parece utopia, parece que viola os cânones do direito internacional. Mas não viola o direito à vida digna dos habitantes do mundo.

Um dia isto, será reconhecido e não haverá mais vencidos da (e pela) vida.

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Professor, de 52 anos.
É natural de Carregal do Sal, onde reside e trabalha, sendo no momento docente do Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal.

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