Em carta enviada ao Primeiro Ministro e ao Presidente da Assembleia da República a 12 de Agosto, 204 ex-presos políticos manifestam-se contra a criação do ‘Memorial ao Ditador’. Entre estes a nossa colaboradora, Maria da Graça Marques Pinto.

A polémica não é nova e a autarquia de Santa Comba Dão prepara a inauguração de um museu dedicado a Salazar e ao Estado Novo para outubro, depois de anos de polémica que passaram pelos Tribunais e pela condenação da sua criação por parte da Assembleia da República.

Também vários historiadores se manifestaram recentemente contra este projecto, tendo o Bloco de Esquerda, em comunitário, corroborado:

“O fascismo vive de revivalismos adornados de boas intenções, a democracia constrói-se no tempo desconstruindo as narrativas que contrariam o seu espírito livre e igualitário. Só isso, e nesse “só” se concentra toda a elevação democrática, deve ser exigido a qualquer representante político e a qualquer instituição pública do nosso regime.”

Deixamos a carta destes ex-presos políticos na integra:

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República

Lisboa, 12 de Agosto de 2019

Os abaixo-assinados, ex-presos políticos, manifestam, em nome próprio e no da memória de milhares de vítimas do regime fascista – de que Salazar foi principal mentor e responsável – o mais veemente repúdio pelo anúncio da criação de um “Museu Salazar” feito pelo Presidente da Câmara de Santa Comba Dão e apelam ao Governo para que, em conformidade com o relatório aprovado por unanimidade, em Julho de 2008, pela Comissão de Assuntos Constitucionais da Assembleia da República e com normas da Constituição da República Portuguesa, intervenha para impedir a concretização desse projeto que, longe de visar esclarecer a população e sobretudo as jovens gerações sobre o que foi o regime fascista, se prefigura como um instrumento ao serviço do seu branqueamento e um centro de romagem para os saudosistas do regime derrubado com o 25 de Abril.

Quando em muitos países se assiste ao renascer de forças fascistas e fascizantes, o país precisa, não de instrumentos de propaganda do fascismo – que a Constituição da República expressamente proíbe – mas de meios de pedagogia democrática que não deixem esquecer o cortejo de crimes do fascismo salazarista e preserve a memória das suas vítimas.

Os abaixo-assinados apelam ainda a todos os democratas e amantes da liberdade que se manifestem contra a criação, nos termos em que tem vindo a ser anunciado, desse memorial ao ditador.

Adelino Pereira da Silva, Afonso Rodrigues, Aguinaldo Cabral, Aguinaldo Espada de Oliveira Santos, Aires de Aguiar Bustorff, Albertino Almeida, Alberto Borges, Alexandre Jorge Almeida, Alexandre José Pirata, Alfredo Caldeira, Alfredo Guaparrão, Alfredo de Matos, Alice Capela, Álvaro Monteiro, Álvaro Pato, Américo Joaquim Brás, Américo Leal, Ana Abel, António Almeida, António Antunes Canais, António Borges Coelho, António Caçola Alcântara, António Cerqueira, António Espirito Santo, António Gervásio, António Graça, António Inácio Baião, António José Baltazar Condeço, António Lenine Moiteiro, António Melo, António Pedro Braga, António Ramalho Alcântara, António Redol, António, Rodrigues Canelas, António Rodrigues Correia, António Santos, António Santos Pereira, António Velhinho Ventura, Armando Cerqueira, Arménio Marques Gil, Armando de Lacerda, Artur Monteiro de Oliveira, Artur Pinto, Aurélio Pato, Aurora Rodrigues, Bárbara Judas, Camilo Mortágua, Carlos Brito, Carlos Campos Rodrigues Costa, Carlos Coutinho, Carlos Marum, Carlos Myre Dores, Carlos Oliveira Santos, Clemente Alves, Conceição Matos, Cristiano de Freitas, Daniel Cabrita, Danilo Matos, Diana Andringa, Domingos Abrantes, Domingos Lopes, Domingos Pinho, Duarte Nuno Clímaco Pinto, Eduardo Baptista, Eduardo Ferreira, Eduardo Meireles, Elídia Rosa Caeiro, Emília Brederode, Encarnação Raminho, Estevão A. P. Caeiro Oca, Eugénia Varela Gomes, Eugénio Ruivo, Feliciano David, Fernando Almeida Simões, Fernando Baeta Neves, Fernando Chambel, Fernando Correia, Fernando Cortez Pinto, Fernando Flávio Espada, Fernando Martins Adão, Fernando Miguel Bernardes, Fernando Rosas, Fernando Vicente, Filipe Augusto Neves do Carmo, Filipe Mendes Rosas, Firmino Martins, Francisco Braga, Francisco Bruto da Costa, Francisco Carrasco dos Santos, Francisco do Carmo Martins, Francisco Lobo. Francisco Melo. Francisco Nilha Jorge, Francisco Silva Alves, Graça Érica Rodrigues, Helena Cabeçadas, Helena Neves, Helena Pato, Herculano Neto Silva, Humberto Rui Moreira, Isabel do Carmo
Jaime Fernandes, Jaime Serra, João Augusto Aldeia, João Carrasco Caeiro, João Queirós, João Viegas, Joaquim Barata, Joaquim Henrique Rodrigues, Joaquim Jorge Araújo, Joaquim Judas, Joaquim Labaredas, Joaquim Monteiro Matias, Joaquim P. Pinto Isidro, Joaquim Santos, Jorge Carvalho, Jorge Querido, Jorge Neto Valente, Jorge Seabra, Jorge Vasconcelos, José A . Guimarães Morais, José Carlos Almeida, José Eduardo Baião, José Eduardo Brissos, José Ernesto Cartaxo, José Guimarães Morais, José, Jaime Fernandes, José Lamego, José Leitão, José Luís Machado Feronha, José Manuel Serra Picão de Abreu, José Marcelino, José Mário Branco, José Marques, José Oliveira, José Revés, José Ribeiro Sineiro, José Silva Melo, José Teodósio Cachochas, José Pedro Soares, Justino Pinto de Andrade, Laura Valente, Luís Firmino, Luís Fonseca, Luís Moita, Luís Figueiredo, Luísa Oliveira, Manuel Candeias, Manuel Custódio Jesus, Manuel Ferreira Gonçalves, Manuel Henriques Estevão, Manuel José Brás, Manuel Pedro, Manuel Pedro Baião, Manuel Policarpo Guerreiro, Manuel Quinteiro Gomes, Manuel Ruivo, Manuel dos Santos Guerreiro, Manuela Bernardino, Maria da Conceição Moita, Maria Custódia Chibante, Maria Dulce Antunes, Maria Emilia Miranda de Sousa, Maria Fernanda Dâmaso Marques, Maria da Graça Marques Pinto, Maria Guilhermina Ferreira Galveias, Maria Helena Rocha Soares, Maria Hermínia de Sousa Santos, Maria Isabel Areosa Feio de Barros, Maria João Gerardo, Maria José Pinto Coelho da Silva, Maria João Lobo, Maria José Ribeiro, Maria Luíza Sarsfield Cabral, Maria de Lurdes Clarisse, Maria Lourença Cabecinha, Maria Margarida Barbosa de Carvalho Pino, Mário Abrantes, Mário Araújo, Mário de Carvalho, Mário Lino, Matilde Bento, Miguel Guimarães, Miriam Halpern Pereira, Modesto Navarro, Nozes Pires, Nuno Luís Silva, Nuno Pereira da Silva Miguel, Nuno Potes Duarte, Óscar Manuel Romualdo, Óscar Vieira, Osvaldo Osório, Paula Correia, Pedro Borges, Raúl Carvalho, Sara Amâncio, Saúl Nunes, Sérgio Ribeiro, Sérgio Valente, Teresa Dias Coelho, Teresa Tito de Morais, Úrsula da Conceição Farinha, Vasco Paiva, Violante Saramago Matos, Vítor Dias e Vítor Zacarias.

Imagem: (1930-1940), “O Ministro da Educação Nacional, Carneiro Pacheco, num evento da Mocidade Portuguesa.”, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_114743 (2019-8-15)

(Por CC)

Contra a Turistificação do Fascismo

Numa época onde a extrema direita, os movimentos neonazis e fascistas estão a resurgir, em Santa Comba Dão presta-se um mau serviço público com a tentativa de turistificação do fascismo…#antifa #SantaCombaDão #DistritodeViseu #FazerAcontecer:::: Comunicado:O Bloco de Esquerda não compactua com a reprodução legitimadora do fascismo sob a justificação reducionista de um apressado “interesse histórico”. O que está em causa com o projeto de um “Centro Interpretativo do Estado Novo” sediado em Santa Comba Dão não é a tentativa de responder a uma qualquer lacuna no interesse historiográfico ou museológico, mas a uma relegitimação da história do fascismo, a uma normalização da ditadura e do seu ditador no contexto da história de Portugal em quase metade do século vinte. Não se trata por parte do executivo camarário de Santa Comba Dão – e como poderíamos ingenuamente pensar – de uma resposta a um branqueamento da história, mas a um branqueamento de um combate político que permanecerá sempre atual para a democracia e para os democratas enquanto o imaginário fascista se insinuar por vias torpes e até aparentemente bem-intencionadas. E esse branqueamento do regime ditatorial já está bem presente no discurso do presidente da câmara Leonel Gouveia quando acredita poder situar-se numa posição politicamente neutra ao recusar tanto a ideia de que o Centro possa transformar-se “num santuário destinado a nacionalistas” quanto “num museu onde se vai diabolizar o estadista de Santa Comba Dão”. O fascismo não se relativiza.O retorno da nostalgia da “boa ordem fascista”, do “bom ditador”, do homem das “contas certas”, concretiza-se das maneiras mais flagrantes às mais aparentemente inócuas e “democráticas”. Como bem nos alerta Fernando Rosas o risco da construção de um “Centro” desta dimensão é transformá-lo num local de turismo para os nostálgicos do fascismo, transformando-o numa “romagem dos saudosos do fascismo”. Banalizar princípios republicanos pela promessa de dinamização da economia local apenas revela um ativo comprometimento com uma visão neoliberal das dinâmicas sociais.A memória histórica de uma comunidade, de um povo, é feita sempre de escolhas igualmente coletivas não só sobre a narrativa que queremos perpetuar, como sobre o próprio devir histórico em que nos queremos inscrever e queremos ajudar a preservar e continuar – a tarefa democrática é sempre uma tarefa igualmente histórica. Associar a construção deste Centro a uma “Rota das Figuras Históricas” é tanto uma empreitada ingénua quanto perigosa – como se o “caldeirão da história” tudo justificasse e redimisse. A história da democracia nunca pode deixar de ser a contra-história, a negação em ato, de toda a tentativa de naturalização do fascismo – ainda que por um falacioso “amor à história”. A consciência histórica do salazarismo deve estar bem presente nos nossos espíritos cívicos não para o revivermos em formato de museu ou de centro de “estudos”, mas para o derrubarmos histórica, crítica, cívica e politicamente.O fascismo vive de revivalismos adornados de boas intenções, a democracia constrói-se no tempo desconstruindo as narrativas que contrariam o seu espírito livre e igualitário. Só isso, e nesse “só” se concentra toda a elevação democrática, deve ser exigido a qualquer representante político e a qualquer instituição pública do nosso regime.A Comissão Coordenadora Distrital de Viseu do Bloco de Esquerda

Pubblicato da Bloco de Esquerda Distrito de Viseu su Sabato 3 agosto 2019

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