Foto por Gira Sol Azul | Facebook

O Centro concentra 23% da população nacional, no entanto só concentra 4% das candidaturas aprovadas pelo programa de apoios da DGArtes. Em Lisboa, foram aprovadas 1 em cada 3, no Centro, apenas 1 em cada 10, números que revelam uma profunda assimetria territorial no acesso à cultura.

Os agentes culturais da região Centro têm criticado estes resultados, que deixam de fora muitas candidaturas elegíveis e com avaliações elevadas. Questionam assim a política cultural do país, que negligencia a coesão territorial e consideram que deveriam ser criados mecanismos que combatam estes desequilíbrios.

O último programa de apoio a projetos nas áreas de criação e edição da DGArtes, cujos resultados foram recentemente divulgados, revela que a maioria das candidaturas aprovadas (mais de 70%) são da Área Metropolitana de Lisboa (AML).

De acordo com cálculos da agência Lusa, mesmo considerando que a AML registou um número muito superior de candidaturas elegíveis, a taxa de aprovação dos projetos foi muito superior (um em cada três projetos de Lisboa foram aprovados), em comparação com os do Norte (um em cada quatro) ou as do Centro (um em cada dez).

Ana Bento, da Gira Sol Azul, de Viseu, que também viu a sua candidatura rejeitada, assumiu à Lusa que o assunto é “muito complexo”, mas salienta que “há coisas que são factos e matemática”, e, olhando para a lista, percebe-se que “há uma percentagem muito pequena de projetos fora de Lisboa”.

“Não sei se as quotas são uma solução, mas tem que haver uma atenção, porque um dos objetivos que a DGArtes define para si é precisamente o equilíbrio na distribuição territorial”, acrescentou Ana Bento.

Tiago Pereira, da cooperativa Coruja do Mato, em Valhelhas, na Guarda, considera que deveria existir uma forma de melhorar a distribuição dos fundos, fosse através de “quotas ou de uma planificação de distribuição de apoios por regiões, com um número máximo e mínimo de projetos que podem ser apoiados”, disse à Lusa.

Hugo Ferreira, presidente da cooperativa cultural Ccer, que gere, entre outros projetos, a editora Omnichord de Leiria, segundo a Lusa, contabiliza cinco candidaturas reprovadas a programas da DGArtes. Curiosamente, apenas decidiu avançar com a última candidatura depois de desafiado pela ministra, quando visitou as instalações da cooperativa este ano.

Hugo Ferreira defende uma distribuição mais justa dos apoios e uma capacitação das estruturas fora dos grandes centros, acrescentando à Lusa que os artistas da grande Lisboa e Porto “têm tudo a ganhar com o desenvolvimento cultural noutros polos do país”. “Neste momento, em que é necessário tentar salvar as instituições, é preciso dinamizar o território da forma mais equilibrada possível”, disse.

Mário Montenegro, diretor da Marionet, companhia de teatro de Coimbra, estar na região Centro significa sempre “menos visibilidade do que no Porto e em Lisboa”. Este responsável disse à Lusa que os projetos, mesmo quando financiados, ficam sem acompanhamento.

“Durante os dois anos em que tivemos apoio sustentado, ninguém veio avaliar ou ver o que fizemos. Se já não é fácil sem visibilidade, o desconhecimento sobre o que fazemos mina todas as possibilidades”, critica o diretor da companhia. “Cansamo-nos de estar sempre de candidatura em candidatura, elegível, mas rejeitada porque não há dinheiro. Isto começa a parecer muito miserável. Não haver dinheiro é uma falsa questão. É uma opção política”, sublinhou.

Como já noticiado pelo Interior do Avesso, a Companhia da Chanca, do Rabaçal, em Penela, no distrito de Coimbra, lançou uma carta aberta dirigida ao Governo, na qual lamenta que sejam distribuídos “apenas 4% dos fundos disponíveis para a região Centro, onde vive 23% da população nacional”.

 

Viseu ficou fora dos apoios. Catarina Martins reuniu com agentes culturais locais.

O concelho de Viseu ficou fora dos apoios da Direção-Geral das Artes (DGArtes). As candidaturas apresentadas pelo encenador Graeme Pulleyn e pelas associações Acrítica, Sweetfields, Gira Sol Azul, Ardemente e Ritual de Domingo foram todas rejeitadas, apesar de apenas as candidaturas da Acrítica e da Sweetfields não terem sido consideradas elegíveis.

Catarina Martins esteve esta semana em Viseu, no espaço Carmo 81, onde reuniu com agentes culturais locais, que testemunharam esta desigualdade e disparidade territorial na atribuição dos fundos da DGArtes. Catarina Martins defendeu que esta situação de gravidade extrema deve “ser corrigida o quanto antes”, sendo necessárias alterações na forma como a cultura é financiada e como são distribuídos os financiamentos em todo o território, pois “em todo o território as pessoas têm direito de acesso à cultura.”

 

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Política cultural colocada em causa pela Companhia da Chanca: pouco ou nada está a ser feito pela coesão territorial

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