Quando se sabe que as lojas de tatuagens podem reabrir dia 1 de junho, após um longo período de incerteza e contestação dos profissionais da área, que consideram a atividade das mais bem preparadas para evitar contaminação, o Interior do Avesso entrou em contacto com Miguel Castilho da L’inked Family, estúdio de tatuagens no centro histórico de Viseu.

Miguel Castilho conta como “as medidas de higiene e segurança nesta área sempre estiveram presentes, são extensas e é difícil de enumerar, até porque, tão ou mais importante do que as medidas em si, é o processo com que são aplicadas, principalmente no que toca a evitar a contaminação cruzada existem vários procedimentos metódicos a ser seguidos.”

O estúdio L’inked Family encerrou por “iniciativa própria no dia 13 de Março”. Durante este período, o tatuador diz ter recorrido “a um apoio para trabalhadores independentes com o seu volume de negócio reduzido ou inexistente devido à pandemia”. Apesar desse apoio, com “com uma quebra de 100% na facturação o dinheiro não chegou sequer para as contas e encargos do estúdio que de uma ou outra forma tive de continuar a pagar”, tendo mesmo assim a “sorte de  não ter uma renda do estúdio para pagar visto que o espaço é da minha família, se não fosse esse o caso certamente já teria encerrado de vez”.

Quanto à influência do confinamento no processo criativa, confessa que “no início foi apenas impulsionador e sinceramente soube-me a férias, dediquei-me à exploração individual de artes performativas na primeira semana e na segunda agarrei-me ao desenho e pintura sem ser para “vender” mas apenas para explorar o que foi muito gratificante”. Ainda assim, “com o passar do tempo e o aumento da incerteza tudo isso acabou, na terceira semana a motivação já tinha desaparecido e pouco ou nada fiz de produtivo, daí para a frente só piorou, agora que já vejo uma luz de esperança para retomar a uma normalidade relativa em breve já voltei a criar de novo com uma vontade redobrada.”

“Fiquei a saber há pouco que iremos finalmente voltar ao trabalho a partir de dia 1 de junho”. Mesmo com esta novidade, ansiada desde o fim do Estado de Emergência, Miguel não deixa de considerar que “não faz sentido para mim actividades com o mesmo CAE terem sido tratadas de forma diferente. De qualquer forma a meu ver o problema está mesmo aí, a nossa actividade deveria ter um CAE específico e legislação apropriada, a inexistência de tal faz com que todas as entidades vivam no desconhecimento no que toca aos procedimentos de um tatuador profissional e consciente, e onde reina o desconhecimento floresce a dúvida e o receio. No fim de contas somos dos profissionais mais bem preparados para lidar com uma situação deste género, no que toca a procedimentos estamos bem mais perto de um enfermeiro, médico, dentista, etc.”.

Com a reabertura do estúdio L’inked Family, irão ser aplicadas novas medidas “tendo em conta a pandemia”, como por exemplo “o uso de batas descartáveis, a obrigatoriedade de uso de máscaras quer pelo cliente como pelo tatuador, não iremos permitir acompanhantes na sala onde a tatuagem é realizada, o cliente terá de desinfetar as mãos à entrada do estabelecimento”, entre outras. Miguel teme “que as muitas medidas que serão implementadas não só na minha área como em várias darão uma falsa ilusão de segurança, sem o conhecimento do que é a contaminação cruzada e de como a evitar.”

 

 

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