Extrema-direita – Ecos do passado

Com toda a situação política actual, tanto em Portugal, como no resto da Europa, talvez seja um bom momento para se reflectir um pouco sobre o passado. 
Foto de Robert Thivierge Flickr

Em 1922, Benito Mussolini foi nomeado primeiro ministro da Itália; em 1933, Adolf Hitler tornou-se no chanceler alemão e António Salazar no chefe do governo português; em 1936, Francisco Franco conquistou o poder, passando a ser o chefe do estado e governo de Espanha.

O que é que estes nomes têm em comum? Praticamente tudo. Regimes totalitários, fascistas crescem de uma insatisfação popular, crises económicas, climas de instabilidade. De uma frustração generalizada e falta de fé no sistema político, sendo, muitas vezes, apenas um voto de protesto, uma resposta à procura de alguém fora do sistema político tradicional, um “anti-político” ou “anti-sistema”.

Hitler era apenas um ex-militar que se tornou famoso devido aos seus discursos contra as minorias e quando Mussolini criou uma organização com um pensamento fascista, contava com o apoio de pouco mais de 100 pessoas.

Mas, com o aproveitamento do momento social e económico desfavorável à população, a um esvaziar da confiança do sistema político, na democracia, culpavam as minorias pela situação e a população, ávida por uma solução e por ter algo ou alguém para culpar, permitiam o seu crescimento.

Pensamentos ultra-nacionalistas com intenções de unir o país, acabar com o multiculturalismo e qualquer indivíduo ou grupo que discorde. Uma visão tradicionalista, com um ideal etnocêntrico. Ideais de limpezas étnicas, com um padrão de cidadãos (no caso de Hitler, a raça ariana; Mussolini com o seu conceito padrão do que um italiano deveria de ser), cidadãos ou pessoas de bem e tradicionais.

Este tipo de sistema é militarista, refugiando-se nas forças de segurança e usam uma solução militar para problemas políticos. Enfatizam os valores militares, a disciplina dos cidadãos e o sacrifício em prol da nação.

Usam formas de comunicação simplistas, com discursos informais, fluídos e populistas, desprezando o pensamento individual. Recorrem também a informação falsa.

Baseiam-se num pensamento patriarcal, até sexista, usando a violência para manter a ordem, recorrendo à perseguição de indivíduos e grupos que não concordam com o sistema.

Com uma oposição a outros sistemas políticos e de pensamento, como o socialismo e o liberalismo, perseguem quem consideram impuros (no caso de Hitler, ciganos, judeus e homossexuais).

Citando Luiz António Simas, “uma das lições mais assustadoras do fascismo é que não precisa de uma revolução ou armas para chegar ao poder; chegando por vias legais, como um movimento moralizador, purificador e salvacionista da classe média”.

É neste ponto em que nos encontramos. Os discursos que ouvimos hoje não são novos, são ecos dos gritos que outrora moldaram nações; este caminho que agora pisamos já foi trilhado no passado e todos sabemos para onde se dirige, porque existem inúmeros exemplos no passado da devastação que causaram. A liberdade é algo demasiado precioso para se perder e os direitos que tanto custaram a ser obtidos não podem ser colocados em risco.

A liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade do outro e a ideia de que a liberdade de um determinado grupo pode ser condicionada, meramente pelo facto de outro grupo não concordar com ela, é, não apenas diminutiva como indivíduo, mas ofensiva como sociedade. Nunca os direitos de alguém limitaram os direitos de outros e a audácia de achar que os nossos valores pessoais podem, por si só, delinear a escolha de vida dos outros e a forma como podem ou não agir ou pensar, é, no mínimo, narcisista.

Existem tantos pontos de vista diferentes como pessoas no mundo. Afinal, todos somos uma combinação de atributos, factores e experiências que nos tornam únicos. E todas as formas de viver, desde que não provoquem danos a terceiros, são aceitáveis. E, garantidamente, não é por alguém ter o direito de ser quem é ou de fazer algo, que obriga outros a ser ou fazer o mesmo.

Portanto, eu pergunto, em que tipo de mundo queremos viver? Um mundo que repete os mesmos erros do passado, especialmente quando estamos cientes das suas consequências? Afinal, “insanidade é continuar a fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.

Queremos ser uma sociedade onde alguém pode, só porque não concorda, remover o direito de escolha de alguém? Proibir, inibir, humilhar e até recorrer a violência só porque a mera existência de alguém é considerada como um insulto à forma de ver o mundo de terceiros? Num mundo onde é necessário pedir permissão para apenas ser ou amar alguém? Um mundo que só procura razões para espalhar o ódio, porque esse mesmo ódio o consumiu tão total e completamente?

Ou queremos viver num mundo de respeito e compreensão, que valoriza a diversidade, que aprende com os erros, que se deleita no que melhor novas culturas têm para oferecer e não procura respostas vazias e desculpas efémeras para as suas expectativas falhadas?

De que lado da história queremos estar? Repetir os mesmos erros e esperar consequências diferentes ou aprender com esses mesmos erros e fazer diferente? Que tipo de legado queremos deixar, um de ódio e intolerância ou um de compaixão e amor fraterno?

Iremos ouvir os ecos do passado ou gritar uma nova realidade?

Citando Miguel Portas: “Mas há uma coisa que eu sei: ao chegar ao fim da vida, quero poder olhar para trás e dizer: terei feito algumas asneiras, mas no conjunto posso partir, lá para onde for, com tranquilidade”.

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