Feminismo – Uma luta pelo inerente

Na distopia patriarcal “ A história de uma serva”, Margaret Atwood esboça um pós-guerra civil onde o governo é derrubado por extremistas religiosos de direita, criando um regime totalitário.
Luta feminista, 8M. Foto Plataforma Já Marchavas
Luta feminista, 8M. Foto Plataforma Já Marchavas

A poluição e o aumento de DST resultaram em taxas de fertilização baixas e a facção conservadora fundamentalista no poder que dividiam as mulheres por classes, sendo uma delas a de servas; mulheres férteis que estavam subjugadas a uma elite estéril, permitindo aos comandantes vencedores da guerra civil procriarem. Estas servas eram brutalizadas, violadas, perdendo até o seu nome próprio e os seus filhos para as famílias de elite, tendo funções meramente recreativas e reprodutivas.

As mulheres estrangeiras estavam destinadas ao trabalho doméstico, sendo meramente criadas dos ditos comandantes.

As esposas dos comandantes também participavam nesta brutalização, mas também perderam todos os seus direitos, incluindo o direito ao trabalho, propriedade, opinião e até de leitura livre.

Esta obra reflete os perigos dos regimes extremistas e a importância da liberdade pessoal de cada um, particularmente o direito das mulheres. Retrata a importância da oposição à limitação da individualidade e enfatiza a necessidade da proteção de direitos e liberdades.

Numa altura em que vemos a crescente ideologia de extrema direita na Europa ainda existem, em pleno século XXI, países onde as mulheres não têm direitos e são alvo dos atos mais atrozes imagináveis; nos países subdesenvolvidos há mais discriminação e é necessário uma libertação dos padrões patriarcais e integrar uma igualdade de género.

Países africanos e árabes ainda consideram a mulher como um ser inferior, que é vítima de violência, exclusão, discriminação, opressão e ausência de liberdade.

Segundo a antropóloga Paula Holmes-Eber, na Mesopotâmia antiga, o uso do véu estava associado a classes e não religião; o seu uso era obrigatório para mulheres de classe alta e proibido na classe baixa e escravos, ou seja, era um símbolo de estatuto social.

Nikki Kedie explica que na Península Arábica as mulheres podiam trabalhar e lutar em guerras, embora as cidades fossem mais conservadoras. Mas a preocupação masculina com a paternidade abriu o caminho para um maior controlo das mulheres.

Historiadores relatam que na Arábia as mulheres tinham direito de propriedade, herança, educação e podiam escolher com quem casar. Mas novas interpretações machistas do Alcorão deram azo à exclusão das mulheres da vida pública.

Na Suméria Antiga, as mulheres tinham diversas profissões e participavam no mesmo tipo de atividade económica que os homens, embora em menor escala e as esposas reais tinham responsabilidades diplomáticas e políticas.

No Japão feudal havia um grupo de mulheres, as onna-bugeisha, que eram treinadas em artes marciais e, como samurais, cuidavam e protegiam as terras durante a ausência dos homens, chegando até, durante o século 8 e 14, a colonizar terras. Mas, mais uma vez, no século 19, a oligarquia no poder iniciou reformas para modernizar o exército num estilo mais ocidental, e estas mulheres guerreiras perderam o seu espaço.

A última sociedade matriarcal do mundo também começa a perder-se. No sul da China, perto do Tibete, existe uma tribo, as Mosuo, onde são as mulheres que lideram.

É visível ao longo da história que os direitos das mulheres acabam por ser retirados ou diminuídos e o quão longa foi a jornada da igualdade de género. E esta jornada ainda não terminou. O termo direitos da mulher não se refere a direitos especiais, mas sim aos mesmos direitos que qualquer homem tem e, no entanto, tanta gente se sente ameaçada por este simples fato. Este caminho tem sido longo e penoso e recheado de mulheres que se tornaram ícones nesta luta.

A primeira manifestação de igualdade deu-se em 1673 em Poulain de la Barre e em 1791, Olympe de Gouges publicou a “Declaração dos direitos da mulher e da cidadã”, onde sublinhou que “a mulher tem o direito de subir ao cadafalso, assim como o direito de subir às tribunas”.

Em 1893, a Nova Zelândia foi o primeiro país a reconhecer os direitos da mulher ao sufrágio, fruto da luta de Kate Sheppard, seguindo-se a Austrália, a Finlândia e a Noruega.

No século XX esta luta tornou-se mais acessa. Pretendia-se a eliminação do estatuto de inferioridade das mulheres na vida civil, mas esta visão não era geral a nível mundial.

Foi obtido o direito ao voto em mais de 28 países ente 1914 a 1939 e as Nações Unidas organizaram, em 1975, a 1ª conferência mundial sobre mulheres, seguindo-se, em 1979, a Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra as mulheres.

Os temas da luta do feminismo passam pela libertação da mulher, a luta contra a opressão dos direitos de igualdade, a rejeição da noção de inferioridade ou desigualdade natural e, a partir de 1970, o direito ao divórcio e ao aborto.

O feminismo pode ser dividido em 3 fases.

A primeira, o sufrágio feminino, no século XIX, focando-se na promoção da igualdade dos direitos contratuais e de propriedade, oposição aos casamentos arranjados e, mais tarde, o direito ao sufrágio. Voltairine de Cleyre e Margeret Sanger abordaram os direitos sexuais e reprodutivos da mulher.

O Reino Unido e os EUA reconheceram o direito de voto e na Europa, o movimento obteve direitos importantes, nomeadamente reformas das leis da família e do trabalho. Eventualmente, a maioria dos países ocidentais adotaram estes direitos. Simone de Beauvoir afirmou “que nada nos defina, que nada nos sujeite; que a nossa liberdade seja na própria substância, já que viver é ser livre”.

A segunda englobou os movimentos de libertação feminina iniciados em 1960, promovendo a igualdade legal e social e acabar com a estrutura de poder sexista.

A terceira, iniciada em 1980, baseia-se na definição essencialista da feminilidade, no seu foco maioritariamente na mulher branca de classe média e na defesa de que não há diferenças entre homens e mulheres, acabando portanto, a diferença social no papel representado por ambos os géneros.

De acordo com o relatório WBL do Banco Mundial, 2,4 biliões de mulheres não têm os mesmos direitos económicos que os homens.

O WEF determinou que serão precisos 132 anos para eliminar definitivamente a desigualdade entre géneros.

A sufragista Simone de Beauvoir avisou: “Não se esqueça que basta uma crise política, económica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”. E é por isso que esta luta ainda continua a ser relevante. A única coisa que se pretende é uma igualdade entre todos e que a nossa identidade não seja definida pelo nosso género mas pelas nossas capacidades e que todos tenhamos as mesmas oportunidades.

Pessoalmente acho completamente irrisório que este tema ainda seja um tópico. Somos todos seres humanos e o que nos diferencia não é o nosso género, é quem somos, o nosso caráter, os nossos atos. O direito de escolha é algo que nunca pode ser negado, independentemente da escolha que façamos. Uma mulher não é menos mulher por não querer ter filhos ou optar por uma profissão socialmente vista como sendo “mais para homens”. Aliás, esse termo nem deveria existir. Qualquer profissão ou tarefa é para quem tiver a capacidade de a executar. Esta diferenciação entre géneros apenas nos distrai do que realmente é importante e somente porque um grupo de indivíduos se sente ameaçado e precisa de ter mais direitos para acalmar o seu ego frágil, é que continuamos a lutar por algo que deveria ser um direito inerente a qualquer ser humano. Até a divisão de artigos por género, como relógios, roupa, etc, não faz qualquer sentido. Cada indivíduo deve-se vestir da forma que mais lhe agrada e o seu visual não interfere em nada no seu profissionalismo ou no seu carácter. Afinal, não são atributos físicos que nos fazem ser quem somos, mas sim fatores que nada têm de físico. E enquanto temos de nos preocupar em manter direitos que nunca deveriam sequer ser questionados, existem outros tópicos que merecem realmente a nossa atenção e passam para segundo plano.

Esta insurreição ainda faz sentido, infelizmente. O feminismo é algo necessário enquanto existir a possibilidade de retrocesso das liberdades e direitos conquistados por tantas mulheres, a quem devemos todos os direitos que possuímos e, também, continuar o que iniciaram e não parar esta luta até todas as mulheres tiverem todos os direitos que lhe são inerentes mas negados por uma cultura machista e fundamentalista cuja erradicação já vem tarde.

Que o cenário descrito na obra de Atwood seja alvo de reflexão sobre o que poderia ser e que mantenha acessa a chama do que pretendemos que seja, uma igualdade total e inquestionável.

Margaret Atwood espera, assim como eu, “que as pessoas finalmente compreendam que há apenas uma raça – a raça humana – e que fazemos todos parte dela”.

Related Posts
1.º de Maio
Ler Mais

A liberdade dá muito trabalho

Foto por I, Henrique Matos, CC BY-SA 3.0 <http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/>, via Wikimedia CommonsForam os “capitães de Abril” que lideraram…
Skip to content