Foto por Autor Anónimo

Quando a filosofia encontra a política encontra-a sempre sob a forma de uma polémica, como diria Rancière, de um recontro. A política acontece ao arrepio da produção filosófica e faz-se, ou constitui-se, sempre como um excesso em relação às premissas e projeções da mesma, ao progresso da produção teórica.

O que faz a política acontecer tem como primado a praxis e não a theoria. A política é aqui qualquer movimento de resistência e contestação pontual e local a uma determinada situação – a política inscreve-se na situação abrindo o campo de uma relação de forças, de uma tensão existencial. A autonomia do movimento de resistência dispensa o enquadramento filosófico. É a pura revolta, desidentificação, desobediência e reivindicação. O sujeito político encontra nas suas próprias palavras e ideias – independentemente das suas origens, da sua dignidade teórica – a legitimação para o seu ato de dissenso, de cesura em relação ao real, ao “estado da situação”. A praxis encontra-se aqui inteiramente enredada na textura da situação, ainda não é projeto ou força constituinte, ainda não é um fazer. É o gesto do escravo que se rebela contra o seu senhor em nome da sua dignidade e sobrevivência. É o grupo de trabalhadores que suspende a produção nacional para exigir melhores salários ou uma carga horária mais reduzida. São as mulheres unidas reivindicando na rua igualdade de salários e outra distribuição do trabalho reprodutivo. São os imigrantes à porta do SEF demandando por maior celeridade nos processos de legalização da sua circunstância…

A política não é a arte de bem governar, não se confunde com a administração da coisa pública que é atravessava pelas disputas ideológicas e o confronto entre as oligarquias que organizam o poder – partidos, sindicatos, associações de toda a índole… A política que acontece é a que confronta os limites do paradigma. Os sucessivos desdobramentos e injunções do poder com vista a organizar a vida social; a naturalização da distribuição da desigualdade; a política concebida como conformação da realidade social à ideologia ou aos interesses particulares; a hierarquização da vida social; a distribuição do “sensível comunitário”, isto é, dos lugares, dos tempos e das competências (Rancière). A política que acontece abre uma fenda que desloca a linearidade do tempo, por isso tem o estatuto de acontecimento, age como um travão à locomotiva do “progresso”, e retroage como exigência de reconhecimento e reparação de um dano (tort) à comunidade – dano este apresentado seja na forma da reprodução da desigualdade e/ou da injustiça social. Neste caso a política não é o exercício dos “politicamente competentes”, da vanguarda, mas algo que pode acontecer em qualquer hora e em qualquer lugar por efeito da reivindicação de um lugar e de uma dignidade que o poder e a hierarquia fazem por não reconhecer.

O fundamento ontológico da política que faz acontecer é anárquico, nenhuma filosofia, nenhuma forma de controlo e poder, podem antecipar o seu surgimento. Em suma, a política como o que acontece marca os limites da própria filosofia como “filosofia política”; a dessincronização entre estas duas dimensões é absoluta e fraturante. A política como o que acontece não tem agentes privilegiados, pelo contrário, ela articula-se contra a naturalização do privilégio que perpetua a situação dos desfavorecidos, dos oprimidos e/ou dos explorados.

A política que acontece encontra a política que se faz quando o acontecimento resulta de uma forma de constituição, de uma forma de fazer, isto é, de um conjunto de estratégias e ações colocadas em movimento que visam produzir um determinado acontecimento político. Diz-se que a política se faz, isto é, que conquista o seu próprio espaço, tempo e comunidade, que se inscreve ontologicamente. Canonicamente foi assim na revolução francesa de 1789, na revolução russa de 1917 ou na revolução dos cravos de 1974. Quando se diz que a política se faz quer dizer-se que ela supera a atomização da multitude (a irredutibilidade dos diferentes pontos de partida), da sua divisão por interesses particulares e/ou associativos, para reivindicar qualquer coisa de comum a todos eles. A política que se faz é a que articulando diversos pontos, sectores, interesses, causas e lutas distintas acha um princípio comum a todas elas e desenvolve a sua força tendo em conta uma causa ou um fim igualmente comum. O segredo da designada interseccionalidade encontra-se aqui. A política que se faz é a política que em nome do comum que une a multitude (o irredutivelmente múltiplo) desdobra essa mesma potência do comum [em potência] para o inscrever na realidade política, no substrato contingente da conjuntura, da ordem social e económica. É assim que em nome do comum as mulheres conquistam o direito ao voto, ou os homossexuais o direito de liberdade de orientação sexual, ou os sujeitos racializados o comum da “raça” humana, ou os trabalhadores e trabalhadoras o comum da sociedade do trabalho contra o parasitismo e/ou a exploração burguesa.

Tal como a política que acontece a política que se faz não se faz por meio dos dispositivos filosóficos da ontologia, mas o comum, por seu turno, é uma espécie de dispositivo do ser. E o ser desdobra-se através da praxis que é sempre uma praxis do comum e para o comum. É entre o dispositivo anárquico da política que acontece e a determinação da política que se faz, que a liberdade e a igualdade resultam como conquistas e desdobramentos do comum.

Se a política que acontece tem um fundamento ôntico a política que se faz reivindica um horizonte ontológico. Uma é temporal e espacialmente circunscrita à situação, a outra procura a atemporalidade e universalidade no rasto de comum que deixa na história. Mas uma e outra forma de inscrição da política são dialeticamente inseparáveis. O caráter anárquico da política que acontece não só antagoniza o paradigma como atualiza a sempre aberta, parcial e incompleta realização do comum da comunidade política. É essa fratura dentro do próprio horizonte temporal da realização política que permite que a multitude nunca se transforme numa unidade totalitária, numa massa uniforme, desde que permaneça militantemente aberta ao comum. Afinal para que diferentes direitos civis, que afetam sujeitos sociais igualmente díspares, possam ocupar o seu espaço na realidade política (com o seu corpo jurídico e a sua constituição), torna-se determinante construir uma realidade que é comum a todos e todas. É assim que os direitos das mulheres encontram/interseccionam os direitos dos sujeitos racializados, estes os direitos dos homossexuais, estes os direitos dos trabalhadores…, e todo o tipo de direitos que o paradigma e a organização económica burguesa (o capitalismo) apropriam/capturam do comum.

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Nasce em 1986 e habita nesse território geográfico e imaginário que é o Interior. Cresce em Viseu e faz a sua formação universitária na Covilhã, cresce tendo a Serra da Estrela como pano de fundo. As suas áreas de interesse académico são a filosofia, a política e a literatura. Actualmente está a terminar um doutoramento em filosofia.

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Nesta rubrica se procurará reflectir – e provocar a reflexão – sobre os caminhos da filosofia e da produção teórica na esquerda radical, na esquerda igualitária e libertária, particularmente de tradição marxista, e, principalmente, com uma orientação emancipatória.

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