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Portugal, país das praias, do sol, dos santos populares e, também, da corrupção, do nepotismo e das desigualdades sociais e económicas. País onde o interior foi abandonado a um estado em que a renovação geracional está estagnada, a economia é, desculpem o eufemismo, frágil e os jovens têm de “fugir” para o litoral à procura de emprego (caso de vários amigos meus), pois, apesar da elevada qualidade de vida, o interior não consegue satisfazer as suas necessidades e ambições profissionais. Portugal é o país onde os bancos recebem milhares de milhões de euros dos contribuintes (suas vítimas habituais) enquanto existem pessoas a passar fome. E esses mesmos bancos, quando chamados a serem solidários para com os seus benfeitores durante uma crise, negam-se de forma veemente a ajudar a população.

E de quem é a culpa de todos os problemas que assolam a Nação? Pois, segundo o Sr. Deputado André Ventura e os seus ilustres seguidores, a culpa é dos ciganos! Exatamente, a culpa de todos os males do nosso amado Portugal é de uma minoria de pessoas em que a grande maioria da sua população não tem, sequer, o 9o ano de escolaridade e vivem a ser ostracizados há gerações!

O “grande argumento” que este grupo de pessoas, que encostam o D. Afonso Henriques a um lado quando o assunto é o amor à Nação, utiliza é “as ajudas a quem não faz nada”, ora fazendo uma breve pesquisa no Google descobre-se que, em 2018, os beneficiários do RSI eram cerca de 224 mil e recebiam, em média, 114,56 euros mensais , como é sabido apenas 3,8% desses beneficiários são de etnia cigana (o que prova que estas ajudas do Estado estão disponíveis a todos os cidadãos portugueses, dentro da salvaguarda do Estado Social teorizado por Keynes), ou seja, em 2018 o Estado gastou, em média, onze milhões e setecentos mil euros com os ciganos. No mesmo ano o Estado gastou quase 792 milhões de euros apenas com empréstimos ao BES e há uns dias o Novo Banco pediu uma nova injeção de mil e trinta e sete milhões de euros. Mas os factos pouco importam para os “Nazionalistas”, pois o alimento do Sr. Ventura, como todos os fascistas antes dele, é a ignorância.

O ódio desta gente aos ciganos é tal que o Sr. Deputado chegou a propor, na Assembleia da República, o “confinamento” de ciganos. Qual o objetivo desta proposta? Basta ler um livro de história do século XX para descobrir.

Antes fiz um vídeo onde pergunto ao Sr. Deputado se eu, que sou estudante universitário e nunca sequer roubei um chocolate, também seria “confinado”. A resposta está na própria proposta, pois o único que importa é o facto de eu ser cigano. Não importa que eu seja cidadão português, estudante, nunca tenha feito nada de mal ou, até, um ser humano como qualquer outro, pois para estas pessoas eu nem posso ser considerado humano. Sou um criminoso da pior espécie e o meu maior crime foi ter nascido cigano.

Eu sou apenas um jovem estudante como qualquer outro, sou apenas um ser humano como qualquer outro e apenas respondo e me responsabilizo pelas minhas ações, não tenho nada a ver com o que um cigano na outra ponta do país fez e (surpresa!) os ciganos não têm mentalidade de colmeia. Sou apenas mais um indivíduo, isto é difícil de compreender? Parece que sim, pois o discurso de ódio continua a crescer e a inflamar- se.

O que esperar de alguém que se aproveita politicamente do assassinato de uma criança, que promete exclusividade e quebra a promessa assim que é eleito, diz que recebeu uma missão da Nossa senhora ao usar um discurso de ódio ou incumbe aos seguidores a nobre missão de incendiar as redes sociais e criarem perfis falsos de incentivo ao ódio? Apenas peço às verdadeiras pessoas de bem que não fiquem caladas, que se levantem contra o racismo e fascismo, não se calem perante este “reino da ignorância” que pregam estes “neo-salazares” e lutem pela igualdade, pela justiça e pela compreensão. Querem sufocar-me, culpar-me por tudo e prenderem-me por nada. Sou apenas um ser humano como os demais e apenas peço ser tratado como um (nem mais, nem menos). Repito a pergunta que fiz no vídeo (apesar de já saber a resposta): Sr. Deputado André Ventura, eu também serei confinado?

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Natanael Santos, nascido em Castelo Branco em 1999, vive em Zebreira concelho de Idanha-a-Nova e é estudante de Gestão na ESGIN.

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