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Durante o debate “Que proteção e cuidados para os +60?”, Júlio Machado Vaz alertou para a discriminação dos mais velhos e repudiou a “noção de velhice burocrática”. Maria Isaura Ribeiro defendeu, por sua vez, que os lares devem surgir “como último recurso”.

Que proteção e cuidados para os +60? foi o mote do debate do ciclo Ao Encontro desta terça-feira, que contou com a participação de Berta Alves, do Grupo +60 do Bloco, Júlio Machado Vaz, médico psiquiatra, e Maria Isaura Ribeiro, diretora de uma estrutura residencial para idosos.

Durante a apresentação da sessão, com interpretação em Língua Gestual Portuguesa de Cláudia Braga, Berta Alves relembrou os mais recentes números oficiais da Covid-19 entre a população mais velha, frisando que esta “passou a estar no centro das atenções”, seja por constituir um grupo de risco como devido à sua vivência nos lares e aos focos de infeção que se têm registado nestes estabelecimentos.

A representante do Grupo +60 do Bloco defendeu que “ser velho ou velha não é uma realidade homogénea”, e que em causa está um “cidadão ou cidadã com direitos plenos de cidadania”.

Lares devem “cada vez mais surgir como último recurso”

Na sua intervenção, Isaura Ribeiro destacou que os lares são também verdadeiras unidades de tratamento, e que é necessário garantir equipas maiores, constituídas não só por enfermeiros mas também por médicos. A importância da formação das equipas de ação direta, designadamente no que respeita a lidar com doenças infetocontagiosas, também mereceu ênfase da sua parte.

Isaura Ribeiro sinalizou ainda que a ligação que se estabeleceu entre os lares e as delegações de saúde, que foram verdadeiros parceiros de apoio e transmissão de informação, deve manter-se e aprofundar-se.

No que respeita à oferta de Serviço de Apoio Domiciliário (SAD), defendeu que é preciso aumentar e ampliar a oferta, com resposta noturna e aos fins-de-semana e o reforço das visitas durante o dia. Bem como é fundamental acompanhar e apoiar os cuidadores informais. De acordo com Isaura Ribeiro, os lares devem “cada vez mais surgir como último recurso”, mais destinado a pessoas com demências, grandes dependências e múltiplas patologias.

A diretora de uma estrutura residencial para idosos reconheceu ainda que assegurar, durante toda a vida, condições de saúde, emprego, e de rendimentos adequadas reflete-se num envelhecimento mais saudável.

Isaura Ribeiro deixou também dois alertas: a carência de resposta ao nível dos cuidados continuados e dos lares; e o facto de os lares terem de dar resposta a pessoas com doenças mentais complicadas sem terem, muitas vezes, as melhores condições para o fazer.

“Noção de que os mais velhos são um grupo homogéneo é injusta e perigosa”

Júlio Machado Vaz reforçou a ideia de que na nossa sociedade, já muito antes desta pandemia, existe a “noção de que os mais velhos são um grupo homogéneo: os idosos”, advertindo que esta forma de pensar “não é justa e é perigosa”, nomeadamente em termos de saúde e de narrativas de vida.

O médico psiquiatra referiu ainda que todos nós “enfrentamos a mesma tempestade mas não navegamos no mesmo barco”. De acordo com Júlio Machado Vaz, no que aos mais velhos diz respeito, não é plausível comparar a situação de uma pessoa que está internada num lar ilegal sem condições de dignidade com a de outra pessoa com um nível cultural e económico bastante superior e com apoio familiar.

Sobre as consequências do confinamento, o médico psiquiatra alertou que, mesmo com o surgimento de uma vacina ou tratamento eficaz, há que ter em atenção a ansiedade, as situações de depressão e de stress pós-traumático que podem resultar do isolamento. No caso dos mais velhos, um discurso como o de Ursula von der Leyen, que prevê que o seu confinamento possa prolongar até ao fim do ano ou, inclusive, até 2021, equivale a pôr estas pessoas perante “um túnel sem fim à vista” e infantiliza-as.

Sabendo que têm uma esperança de média mais reduzida, as pessoas mais velhas pesam a quantidade de vida e a necessidade de manter qualidade de vida e há quem esteja disponível a correr riscos, explicou Júlio Machado Vaz.

Na sua intervenção, alertou ainda para a importância dos cuidados primários, que podem aliviar “as grandes catedrais” do SNS, os hospitais, e para a necessidade de criar melhores condições de trabalho para estes profissionais.

O médico assinalou a tendência para a responsabilização individual dos cidadãos no que respeita à sua condição de saúde, ressalvando que nem todos têm condições para seguir as recomendações e ter um estilo de vida mais saudável. “Se querem atacar a doença nas pessoas, antes de tudo o resto, ataquem a pobreza”, vincou.

Júlio Machado Vaz concordou com as observações de muitas das pessoas que assistiram e participaram no debate, no sentido de que é fundamental assegurar uma resposta pública a nível dos lares e de reforçar a fiscalização, bem como com a necessidade de garantir a formação aos cuidadores.

Combater o idadismo, a discriminação dos mais velhos, que são, muitas vezes, considerados “ultrapassados” e cuja experiência de vida é desprezada, é fundamental, avançou, lamentando que exista uma “noção de velhice burocrática”. “Um dia acordamos velhos”, apontou.

O médico psiquiatra advertiu ainda que a “possibilidade de fingirmos que não estamos a envelhecer é profundamente desfavorável”.

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