Vila Real, dia de Reis

A reboque do PEDU, Plano de Desenvolvimento Urbano, de Vila Real, foram abatidas todas as árvores da Avenida Carvalho Araújo, como acto inaugural do referido plano.

Este plano, financiado pela comunidade europeia, está justificado na necessidade de tornar as cidades amigas dos cidadãos. Cidades circuláveis em conforto e segurança. Isto é, é um plano desenhado para apoiar medidas de mitigação de erros passados, em cidades que foram construídas olhando mais para os veículos, e, menos, para as pessoas. Cidades, amigas dos automóveis, impróprias para pessoas. Cidades desenhadas sem ter em conta as necessidades específicas dos cidadãos, e portanto, cidades que precisam de ser intervencionadas de modo a que, quem circula pela cidade possa ter boas condições de circular e habitar a cidade. No caso, de Vila Real, é óbvia, essa necessidade. Por todo o lado, o peão é confrontado, ora com vias sem passeios, ora com passeios que não cumprem as medidas de largura legais. Impedidos com postes, caixotes de lixo, (…)elementos que barram a livre circulação. Os pavimentos são irregulares, e extremamente desconfortáveis para quem se desloca em carrinho de bebé ou em cadeira de rodas. Os desníveis em degrau, dos passeios para a estrada, nos atravessamentos da via, ditas “passadeiras”, são a regra, enquanto, os acessos a veículos, para garagens públicas e particulares, são comuns. A iluminação nos atravessamentos é ineficaz, quando não são um distúrbio à percepção visual dos condutores. As paragens de transportes públicos, situadas, salvo uma ou outra rara excepção, imediatamente antes das “passadeiras”, constituem um perigo real à segurança dos cidadãos. São um erro de prevenção rodoviária inexplicável, dada a basta informação disponível nos cuidados a ter no desenho da localização das mesmas. Quem sai dos transportes e pretende atravessar a via fica encoberto pelo veículo de onde saiu. A inacessibilidade universal na generalidade dos edifícios públicos, a começar pelos serviços municipais também é a regra em Vila Real. A par destas questões de legalidade, segurança e conforto que se devem assegurar aos cidadãos, no sentido de lhes assegurar uma vivência da urbe condigna, há outras, que importa relevar. São eles, a saúde pública e a amenidade climatérica, a sensação de conforto térmico e a presença de elementos naturais no meio artificial que é a cidade. Para tal, a presença de árvores é capital. As árvores funcionam como filtros, como fixadores de poeiras e partículas sólidas em suspensão na atmosfera, muitos deles libertados pela circulação automóvel, e não só. As árvores constituem elementos chave na prevenção de factores que afectam directamente a saúde pública. A presença de árvores, com a sua sombra, previne o excesso de radiação que atinge os pavimentos e as fachadas, e assim, diminui a reflexão dessa radiação. A árvore em meio urbano, previne dos excessos de calor e de frio, reduz os ventos nas vias, enquadra o edificado na paisagem urbana. Permite, à sua sombra, estar; estar confortável. Além disto, a árvore em meio urbano, constitui um precioso auxiliar, quer no combate à concentração de gases de combustão, quer aos ruídos. Ambos fontes de manifesta poluição na cidade de Vila Real.

A 6 de janeiro de 2020, assistimos, em Vila Real, a um acto de prepotência próprio de um Herodes, aquele que, conforme a Bíblia, por não gostar de herdeiros ao seu trono, mandou matar todas as crianças do seu reino. Em Vila Real, não foram as crianças, foram as árvores da Avenida Carvalho Araújo. Davam sombra na Primavera e Verão, davam folhas verdes nessa altura, tornadas amarelas, laranjas e vermelhas no Outono, e deixavam entrar o Sol no Inverno. Foram abaixo de uma vez, a reboque de um plano que não reflecte nem só por um instante, nem só numa linha traçada, em nada que reconheça como desenvolvimento para uma cidade de futuro.

Licenciado em Engenharia Florestal e Arquitectura Paisagista

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