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Esta semana recuperei um texto que escrevi por altura do Natal e que tem o ambiente como tema central – a ação passa-se em 2040.

Estão 28 graus. Não chove há meses. Um pó finíssimo entranha-se nos poros, fustigados pelo sol, pelo sevo calor. Respirar é cada vez mais penoso, um martírio incessante.

Sentado no canto mais distante daquilo que outrora terá sido uma ampla janela, mero buraco por estes dias, Bernardo olha para dentro e para o vazio da sua torturada existência.

O dia nem correu muito mal. Conseguiu apanhar uma ratazana escanzelada e um punhado de insectos para a ceia de Natal. Enquanto improvisa uma pequena fogueira com uma vela e giestas secas, os olhos enchem-se de lágrimas. Devia ter uns doze anos – os natais pares eram com o pai, os ímpares com a mãe – a vida prometia-lhe tudo aquilo que queria alcançar. Havia nos seus olhos um brilho permanente, o brilho de quem tudo almeja, de quem tudo quer viver, de quem não vai perder um minuto de uma vida que se exige cheia. Queria ser cientista.

Foi nesse Natal que o pai deixou que molhasse a língua no vinho do Zica – o melhor vinho do Dão; já adorava os aromas de um tinto de exceção, as poucas gotas que levou ao palato deixaram-no extasiado. Iria, sem dúvida, ser um verdadeiro apreciador do néctar dos deuses. 

 

E que Natal tinha sido esse… Mesa farta, cheia de iguarias, salgados, doces, chocolates e chocolatinhos e claro, um alto bacalhau de cura amarela, acompanhado com todos. Ainda sente o aroma do alho picadinho a paciência e do azeite transmontano, regando a fartos fios o fiel amigo. Nesse dia esmagou as batatinhas todas em cima do azeite com um sorriso do tamanho do mundo. Barriga cheia a estourar correu para os braços da irmã mais velha que já não via há meses; Bárbara estudava em Liverpool e só vinha a Portugal uma ou duas vezes por ano. 

Claro, não haveria Natal sem prendas. E que prendas…. Muitas, claro!

Não se cansa de reviver a paz, conforto e amor que sentiu naquela consoada em que a família se perdeu noite dentro em abraços, carinhos e conversas; estórias contadas, gargalhadas repimpas; exaustos, quase madrugada, todos se recolheram e dormiram profundamente. Estava frio lá fora e nesse ano, estranhamente, caiu um forte nevão em Viseu.

 

O cheiro a esturro, nauseabundo, trouxe-o de volta. Deixou queimar o repasto de Natal; uma ratazana magrela e um punhado de insectos sensaborões marcham na mesma, torrados ou não. Apagado o lume levou à boca os dedos sujos de mãos gretadas, calejadas, marcadas pela difícil subsistência dos últimos anos. Embora só tivesse 29 anos, tinha mãos de velho, poucos dentes e a pele queimada, atestada de rugas pelo fustigo permanente do sol. A dificuldade para respirar era cada vez maior – um farfalho gritante já se ouvia sempre que inspirava. Fado certo.

 

Tirou do bolso o que restava de uma pequena fotografia. Fitou prolongadamente o pedaço de papel e acariciou-o com o indicador direito. Sorriu e desatou a chorar desalmadamente. Alice tinha o sorriso mais bonito do mundo, era sempre assim que ficava nas fotografias; os grandes olhos negros ajudavam aquele sorriso a ganhar uma dimensão única, quase bíblica. Depois do apocalipse ambiental, em 2031, nunca mais a viu. Não a sabe morta nem viva. Quando os oceanos subiram tragando vastas extensões de terra, refugiara-se com ela e com a mãe numa quinta dos avós nas terras altas. Umas semanas depois foram visitados pela Ordem. Mataram os avós, levaram a mãe e a sua irmã mais nova.

O pai, militante de esquerda, foi preso pela extrema-direita que em 2026 tomou o poder pela força. Diziam que os migrantes, os ciganos, os negros, os homossexuais, os comunas e demais párias eram os responsáveis pelo estado a que o planeta chegara. Prometeram que, com a sua eliminação, o planeta e os seus delicados ecossistemas recuperariam em menos de uma década. O povo acreditou. 

Homens, mulheres e crianças em todo o mundo tiveram o mesmo destino à mão de governos despóticos, ignorantes, emergidos anos antes do colapso, legitimados pelo povo ou não, agitando a bandeira do ódio, do medo, da repulsa, do racismo, da xenofobia.

 

Muitos milhões morreram nos dias seguintes à subida dos oceanos. Todas as infraestruturas do planeta colapsaram – nenhum exército se conseguiu reorganizar. Milhões pilharam o que puderam, mataram, fugiram sabe-se lá para onde. O que restou foi dominado por gangues de assassinos, violadores, foras-da-lei e radicais de direita, de esquerda, do centro – dominam, pela força, o que ainda sobra. Matam com a mesma voracidade de quem bebe um copo de água depois de uns dias à deriva no deserto.

O clima extremou-se tanto que o planeta se tornou infértil. Onde antes a vista se perdia na fartura, agora perde-se num deserto de pó vermelho que se entranha nos pulmões e mata em meia dúzia de anos. Raramente chove; quando cai, a água leva tudo; já quase não há estradas, não há agricultura, o gado morreu todo.

Dos ricos e poderosos não há relato. Vivos, empilhados num bunker dourado, mortos numa vala comum – indiferente.

Certo um curto caminho para a morte, seja às mãos da Ordem ou de outro gangue, seja pela fome, pela desidratação, doença. Vive-se em fuga, em fuga permanente de uma morte precoce.

 

Bernardo ouviu falar do ambiente desde que nasceu, em 2011. Era tema de conversa no café, nos jantares lá em casa, omnipresente nos meios de comunicação social, tema central no discurso de políticos, ladrões, empresários, burlões, clérigos, violadores, mecânicos, aprendizes, picheleiros, céticos, cientistas, trolhas, prostitutas, ativistas, presidentes, artistas, agricultores, gananciosos, cabeleireiros, crentes, estilistas, homossexuais, polícias, criminosos, autarcas, milionários, juízes, corruptos, empreiteiros, aldrabões, enfermeiros, frustrados, seguranças, grevistas, professores, explorados, pais, engenheiros, mães, deputadas, irmãos, exploradores, amigos invejosos e parceiros sínicos. Verborreia, bazófia. Nunca ninguém quis saber da merda do ambiente. Nem os pais nem as mães, nem os políticos, muito menos as grandes corporações. Nunca ninguém quis garantir a sustentabilidade do planeta. Um punhado de gente séria tentou evitar o inevitável; eram poucos e porventura não eram suficientemente bons. A ganância desmesurada e o modelo social “de sucesso”, o galope inexorável para ter mais e mais e mais, a que a humanidade esteve obrigada mantendo elevadíssimos níveis de consumo, apenas poderia ter tido este desfecho.

 

P.S.: Bernardo, este é o Natal que eu, a minha geração e as que a precederam, 

guardamos para ti. 

 

Feliz Natal, filho.

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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