Foto por Silvision | Flickr

Afinal é mesmo uma gripezinha

Muito para além do impacto na saúde pública e na economia, o Sars-CoV-2 teve um impacto brutal na confiança que depositamos nas instituições e líderes mundiais.

Sabemos hoje que as verdades insofismáveis não eram assim tão insofismáveis, que as certezas científicas de um determinado momento se esfumaram no momento subsequente e que, muito do que nos era dito era bluff, apenas conveniente no instante em que era proferido ou pior, fruto de ignorância profunda do narrador de circunstância. 

Em abono da verdade, as medidas basilares tomadas pela maioria dos estados para combater a disseminação do vírus foram em tudo semelhantes a medidas tomadas no combate à proliferação de vírus e pestes que assolaram a humanidade desde a Idade Média. Nada de novo.

De um vírus aterrador que obrigou a confinamento, certos de uma segunda vaga ainda pior do que a primeira, passámos a uma quase certeza de que não haveria segunda vaga, para logo a seguir nos transmitirem que afinal haveria uma terceira ou até uma segunda ainda durante a vigência da primeira. 

Em nada podíamos tocar, o vírus agarrava-se a todas as superfícies e pobre de quem não lavasse as mãos centenas de vezes por dia. Afinal, parece que já não é assim tanto…

Afirmou-se que sem vacina estaríamos todos condenados, mais cedo ou mais tarde seríamos apanhados pela doença, hoje ouvimos dizer que quem já contraiu a doença não fica imune, quando ontem nos tinham dito que a imunidade de grupo era a solução para acabar com a praga. Afinal, os testes serológicos acabam por confirmar a imunidade de quem já foi infetado, só não se sabe se a imunidade dura cinco minutos ou três anos. 

Usar máscara era meio caminho andado para garantidamente apanhar a doença, afinal usar máscara é a melhor forma de evitar contagiar ou ser contagiado. 

Era preciso desinfetar ruas como se não houvesse amanhã, para depois se concluir pela contraproducência da medida. 

Muitos responsáveis políticos e diretores dos serviços nacionais de saúde afirmaram que o vírus jamais chegaria à Europa, que os idosos não eram um grupo de risco e os netinhos podiam continuar a visitar os avós, para logo a seguir se constatar a mortalidade extrema da doença nesses ambientes. Em Espanha até hoje (28 de Maio de 2020), morreram 27000 pessoas: 20000 viviam em lares de terceira idade, ou seja 75% dos óbitos ocorreram em idosos, muitos, a maioria, com diversos problemas de saúde e quase todos já com a esperança média de vida ultrapassada. Nos Estados Unidos e no Brasil a doença evidenciou, mais uma vez, que são os velhos, os pobres e os mais desfavorecidos que morrem em catadupa. Contudo, a maioria dos governos mundiais e a OMS nada fizeram para proteger estes grupos de elevado risco.

As crianças, dadas como imunes ou quase, podem afinal sofrer do Síndrome de Kawasaki, provocado pelo Sars-Cov-2, dizem-nos agora.

Trump e Bolsonaro têm feito figura de anormais, pelo menos aos olhos da comunidade internacional, cujo quase unanimismo demonstra a incapacidade para tomar decisões fora do registo aprovado pela manada; alguns países como a Suécia e a Coreia do Sul, que escolheram um caminho diferente para controlar a doença, são alvo permanente do escrutínio alheio, de figas feitas para que a sua estratégia falhe, na ânsia de comprovar quão errados possam ter estado na opção tomada.

Trump disse o que o vírus era chinês e a responsabilidade de tudo era da China, Bolsonaro que era uma gripezinha, imunologistas respeitados que emitiram opiniões díspares (no sentido de não ser necessário confinamento), foram completamente ignorados pelos seus pares, pelos media e apelidados de loucos irresponsáveis pelo povo, exceto pelas fações da população que, sem saberem muito bem porquê, estavam contra o confinamento – talvez porque ficar fechado em casa é um aborrecimento ou, quem sabe, porque perceberam que ficariam sem meios de subsistência, impedidos de trabalhar.

A UE passou de austeridade máxima e de afirmações repugnantes a bondade (quase) extrema, considerando a entrega a fundo perdido de avultada maquia para cada um dos estados membros. 

Este vírus colocou a descoberto duas doenças terríveis da sociedade contemporânea: a primeira e a mais grave, a crise de liderança que o planeta atravessa. As funções críticas estão ocupadas, na quase totalidade, por energúmenos, gente sem competência emocional e técnica suficiente para gerir organizações e países essenciais para a estabilidade da comunidade internacional. Trump e Bolsonaro são risíveis, mas não menos risíveis têm sido os responsáveis da OMS, o governo chinês quando, de forma criminosa, silenciou médicos que tentaram avisar atempadamente o que se adivinhava, a UE pela falta de coordenação no combate à pandemia, Boris Johnson pelo apoio incompreensível que continua a dar a Cummings e quase todos os governos mundiais que ignoraram todos os avisos e nem sequer compraram equipamento básico de proteção para o pessoal médico, deixando expostos à pandemia os únicos que a podiam combater. Inenarrável.

A UE criou obstáculos ao financiamento para a investigação sobre a doença e as farmacêuticas ao desenvolvimento de vacinas para este tipo de pandemias. Criminoso.

A segunda doença que emerge desta pandemia, a imprensa. Poucos, se algum, meio de comunicação social, escapou a um registo sensacionalista, brutalmente parcial, inspirado na mais putrefacta instilação de pânico nas populações. Números apresentados sempre pelo lado negativo, silenciando quem fundamentava opinião contrária, independentemente do percurso académico ou competência científica previamente demonstrada. Se a notícia não era concordante com este registo, não se dava. Mostraram-se caixões, mortos empilhados, gente nova que morria da doença (ainda que fossem casos muito pontuais), colocava-se em caixa alta o número de mortos do dia nos países mais afetados pela pandemia, recuperados e assintomáticos raramente entrevistados. Jornalismo de investigação não se viu, a emissão ocupada frequentemente com peças filmadas dentro dos hospitais centrais que rebentavam pelas costuras com doentes, quando concelhos inteiros em Portugal não tiveram um caso registado e nunca foram notícia. Plano muito, muito inclinado.

Hoje (28 de Maio), epítome deste circunstancialismo abjeto da imprensa e dos oportunistas fanfarrões, profetas da desgraça, a notícia de que teria havido muito mais casos graves e mortos se o confinamento não tivesse sido decretado. O estudo, assinado por investigadores da Escola Nacional de Saúde Pública, refere que no período analisado (1 a 15 de Abril) teriam perecido mais 146 pessoas vítimas de Covid-19. Com gravosa postura a imprensa faz eco deste estudo, que louva as virtudes do confinamento e insiste no mesmo registo, medo, medo, medo. O contraditório, exercício laborioso e notável a que a imprensa já não se presta, fica por fazer. Ou talvez não.

1369, número oficial de mortos de acordo com a DGS, a 28 de Maio. 181 tinham 69 anos ou menos. 1188 tinham 70 ou mais anos, quase 87%. A imprensa insistiu até à exaustão no número de mortos, muito raramente detalhando a mortalidade. Admitindo que (e de acordo com este estudo), desde 16 de Março, a cada 15 dias tivessem perecido mais 146 pessoas vítimas de Covid-19, teríamos hoje (28 de Maio) mais 730 mortos, elevando o total para 2099. Especulação? Talvez. Mas certamente a média de idades das vítimas manter-se-ia. Especulando ainda mais: se o vírus mantivesse a sua agressividade durante cinco meses, ou seja, uma temporada de gripe e que não haveria confinamento (de acordo com o estudo da ENSP, claro) morreriam em Portugal 4198 pessoas nesses cinco meses, vítimas de Sars-CoV-2. De acordo com o Instituto Ricardo Jorge, durante a época gripal morreram em Portugal 3700 pessoas em 2017. Conclua-se o que se quiser concluir, é certo que o vírus perdeu, nesta luz, toda a capacidade para fazer manchetes ou gerar pânico. 

Hoje Portugal tem apenas 11563 casos ativos, de entre um universo de 318810 casos suspeitos. Há mais recuperados do que infetados. Mas esta verdade também não vende jornais, nem aumenta audiências.

Findo este filão explora-se a tragédia económica e financeira que se irá abater sobre todos os portugueses e portuguesas, a breve trecho, e que se prolongará até 2022, pelo menos, apesar da União Europeia estar a tomar medidas para que os estados membros possam receber ajudas financeiras de grande monta, a fundo perdido.

Ironia, esta imprensa vai ser ajudada pelo Estado que ardilosamente tenta destruir. Talvez não queiram saber qual o seu papel, possivelmente querem apenas vender “informação”.

Uma última palavra para o governo português e para o povo português: por comparação – factos – Portugal registou menos mortos do que a maioria dos países vizinhos. O nosso SNS não colapsou e a forma como lidámos com a ameaça foi exemplar. Não vale a pena, como adoramos, a habitual autocomiseração, atribuir o resultado a sorte ou acaso, achar que o foi D. Sebastião ou obra e graça do Espírito Santo.  Mas o exercício da autoestima e o elogio aos portugueses e portuguesas e aos seus líderes também não vende jornais. Nós, enquanto nação, não nos temos em grande conta e a profecia permanente da desgraça explora a mediocridade intrínseca que nos vai na alma. 

Vamos continuar no mesmo registo, tenham medo, muito medo.

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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