Foto de Pxhere |Banco de imagens

A ascensão da extrema-direita parece ser, também em Portugal, uma tragédia inevitável. A razão de fundo para esta ascensão reside, por um lado, na profunda crise social e económica que tem destruído a classe-média nos últimos vinte anos e, por outro, na profunda, inexpressável e sinistra ausência de valores sociais e culturais da sociedade contemporânea. Ambos transgeracionais, condenaram a maioria das famílias portuguesas a viver com dificuldade, desligando-se de todos os valores estruturais e estruturantes para a estabilidade e sucesso de qualquer modelo social.

A extrema direita acusa os mais frágeis, as franjas sociais, os “diferentes”, seja pela cor da pele, pela orientação sexual, etnia, crença ou por qualquer outra razão meramente circunstancial e de oportunidade, como os grandes responsáveis pelas dores, dificuldades, sofrimento e mágoa da maioria da população. A falta de cultura e a ignorância do povo são o maior aliado da extrema-direita e de gente execrável como Le Pen, Abascal Conde, Ventura e tantos outros. A falta de esperança no futuro, as dificuldades económicas e as desigualdades sociais são fermento poderoso para crescimento de Venturas e similares.

A propaganda capitalista, por osmose, incutiu na população em geral uma ideia de sucesso, em teoria sustentável, não fora a ganância desmedida da maioria dos defensores do modelo, acabando invariavelmente por trabalhar no sentido do enriquecimento ilícito, poroso, em teias de corrupção gigantescas, roubando o povo, explorando-o inexoravelmente, obrigando-o a viver com dificuldade. Esta degenerescência do modelo capitalista tem um lado ainda mais perverso. Subjugando os Estados a este arquétipo, garante que estes pagam os seus devaneios, falências e todos os custos associados ao neoliberalismo. Concomitantemente, sucessivos governos aumentam impostos, diminuem investimento público em áreas-chave como a saúde e a educação, daqui resultando a tempestade perfeita.

E tem sido a falência do capitalismo a levar, invariavelmente, estas aberrações ao poder, sendo a democracia a permitir esta ascensão.

É categórica a necessidade de implementação de um novo modelo social, um modelo que possa, efetivamente, servir as necessidades da população, redistribuir a riqueza produzida pelos estados de forma mais equitativa, gerando mais equilíbrios, proporcionando melhor qualidade de vida às famílias, investindo fortemente em áreas como a cultura, educação, saúde e justiça, diminuindo a elevadíssima carga fiscal atual. Dever-se-ia promover uma ampla discussão pública, envolvendo todos os intervenientes sociais, políticos e económicos, no sentido de encontrar soluções para os problemas de fundo da nossa sociedade, sobretudo na redistribuição de riqueza. O modelo vigente serve apenas uma minoria, sacrificando a maioria.

Não é a extrema-direita que irá realizar esta mudança. A extrema-direita é uma ameaça real, brutalmente perigosa para a democracia, para o bem-estar da população e para a manutenção de todos os valores sociais que conquistámos até hoje. A ideia de pátria perpetuada por estes extremistas é a de uma pátria narcísica, fechada sobre si mesma, puritana, seletiva, xenófoba, cultivando a ideia de que um estado será melhor sem multiculturalidade, sem miscigenação. Totalitarismo, ditadura, censura, reclusão, tortura e assassínio generalizado de opositores, centralização da mensagem política, promoção da cultura como parte integrante de uma máquina de propaganda destinada a perpetuar o regime. Chega, não há pior modelo de atrofio absoluto e de descaracterização de um povo. A extrema direita é um buraco negro.

Mas é o povo, apesar das razões objetivas de insatisfação com o atual estado da sua existência que, por ignorância e por desespero, acabará por dar perigosa expressão política a estes extremistas. E isso será uma tragédia.

É muito fácil dizer que são os ciganos que vendem droga, que são os romenos que assaltam (palavras de Ventura), que são os titulares do rendimento mínimo que nos obrigam a todos a fazer sacrifícios e a viver pior para “os sustentar”. É muito fácil mandar deputados “embora, para o seu país”, negar que um jogador foi injuriado e humilhado com insultos racistas. É fácil culpar os fracos, as minorias e os desfavorecidos. É fácil ser cobarde e incitar à cobardia. 

Difícil é olhar de frente para os enormes problemas e desafios da sociedade contemporânea e tentar, de forma harmoniosa e coerente, encontrar soluções, melhorar a vida das populações, garantir um futuro mais promissor para as gerações vindouras.

A atitude permanentemente baixa, simplista e desprovida de razão da extrema-direita é uma atitude censurável, fraca, de quem não tem a inteligência, a coragem, a elevação, sapiência e clarividência necessárias para perceber, sequer, quais são os reais problemas do povo.

Infelizmente esta é também a atitude de uma boa parte da população. É fácil condenar, responsabilizar tudo e todos pelo nosso insucesso. É mais difícil, dá trabalho ter que trabalhar, sair da zona de conforto, ir à luta, enfrentar os desafios da vida com a bravura que se impõe, sabendo que por vezes ganhamos, por vezes perdemos.

É muito, muito mais fácil dizer que “isto não se endireita” por causa do RSI milionário pago a famílias desfavorecidas – que vivem sem “fazer nenhum” – do que confrontar o administrador da empresa, questionando, censurando o bónus pornográfico que acaba de receber. É muito mais fácil subscrever o discurso de Ventura do que é sair de casa para participar ativamente na vida política e social do nosso país. É muito mais fácil ignorar o roubo continuado das grandes corporações, a fuga orquestrada aos impostos destes gigantes do que é aceitar alguém que não tem a mesma orientação sexual da maioria.

A cobardia da extrema-direita ancora-se na cobardia de uma fação do povo que prefere acreditar que a eleição destes tipos resolverá as suas angústias. É árduo compreender que apenas a sua (nossa) ação pode ajudar a tornar o mundo em que vivemos um lugar melhor para todos. Ventura e os seus pares apelam ao mais medíocre do ser humano, aos sentimentos mais nefastos, reptilianos e destrutivos que existem dentro de cada um de nós.

Pela ascensão destes enfermos ao poder pagarão por igual aqueles que os vierem a eleger e todos aqueles que preferiam ter continuado a trilhar o caminho mais difícil.

Nenhum Ventura, até hoje, resolveu nenhum problema de fundo da sociedade. Nenhum Ventura, até hoje, conseguiu perpetuar o seu modelo, as suas convicções; acabam por cair pela mão do povo que os elegeu, cansado da tortura, do abuso, da guerra, da censura, da escuridão pútrida que é a (des)governação da extrema-direita.

Numa sondagem recente Ventura tem quase dez por cento das intenções de voto para a presidência da república; Ana Gomes 8,8%. André Ventura sobe nas intenções de voto dos portugueses, o único a subir nesta sondagem, face ao estudo anterior.

Continuem. Enterrem a cabeça ainda mais na areia, já só falta convencer mais alguns cobardes, ignorantes e acéfalos a legitimar a calamidade.

Mas, acontecido e consumado o desastre, quando o povo compreender a extensão da miséria em que se terá colocado, ninguém terá votado nos Venturas desta vida.

Resta saber como se serve melhor o capitalismo ultraliberal.

Outros artigos deste autor >

Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

Deixe o seu comentário

Skip to content