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Mortos, pessoas com sequelas, vidas destruídas.

Uma recessão inevitável, a Europa a navegar à vista, sem bolina.

Já sabemos que o povo irá pagar, com um sofrimento enorme, por todas as consequências advindas da pandemia provocada pelo Covid-19.

Já percebemos a enorme falta de solidariedade da esmagadora maioria dos mais abastados, em Portugal e lá fora. Todos muito silenciosos, esperando pelas ajudas de estado para “reconstruir” as suas pobres vidas, depois deste cataclismo inesperado. Não há notícia de gente abastada a organizar-se para, em conjunto, contribuir com alguns milhões de euros no sentido de aliviar a carga megalómana caída sobre o povo trabalhador.

Já se sabe, adivinham-se tempos muito, muito difíceis, com a generalidade da população a ver diminuído o seu rendimento mensal, triviais aumentos de impostos directos e indirectos, com os mais desfavorecidos a verem, mais uma vez e ainda mais, a sua vida muito, muito dificultada; aumentará a pobreza envergonhada, o desemprego, haverá muito mais gente a viver abaixo do limiar de pobreza.

Mas já há vítimas desta atitude perniciosa, gananciosa e absolutamente criticável dos grandes grupos económicos. Trabalhadores com vínculo precário já foram dispensados, há já centenas, quem sabe milhares de pessoas sem qualquer rendimento e ainda só estamos no início desta pandemia, que passará de viral a económica e logo financeira, nos próximos meses.

A forma descartável como se tratam os trabalhadores na conjuntura actual é inaceitável. Se algo fica provado com esta pandemia é a necessidade urgentíssima de rever a legislação laboral, de fortalecer este vínculo e de acabar com a precariedade.

Não podemos continuar a admitir que poucos empilhem dinheiro em offshores – que não serve para nada, é completamente estéril – com ajudas de estado e comunitárias para legalmente pagarem menos impostos, por vezes até nenhuns.

Estamos nisto juntos, chega de valorizar o capital, basta! Urge valorizar o trabalho, os trabalhadores, as famílias e o rendimento das famílias. Os políticos têm que, de uma vez por todas, ter a coragem necessária para inverter a mediocridade em que caímos. 

No Reino Unido, um dos bastiões do capitalismo ultraliberal, assassino, as companhias aéreas, entre elas a EasyJet, estão a propor aos seus trabalhadores, sem destrinça de antiguidade ou função, três a seis meses de férias forçadas, pagando-lhes cerca de £500 libras por mês nos três primeiros meses e depois, pasme-se, caso queiram continuar a trabalhar, terão que aceitar uma revisão integral de contrato, perdendo todos os benefícios existentes, o que significa nalguns casos a perda de mais de 50% d rendimento anual. Este oportunismo é deplorável e mais deplorável se torna quando, sabemos, lá como cá, serão estes monstros a receber as maiores ajudas de estado, comunitárias e outras que possam vir a existir, sempre com enormes vantagens financeiras, juros bonificados ou inexistentes, perdões de dívida e fiscais.

Quando a tempestade tiver passado, estes grandes conglomerados empresariais voltarão a ter receitas megalómanas, com custos de mão-de-obra menores.

Serão os estados a pagar mais esta mutação, pela via da redução da receita dos impostos sobre o trabalho, uma vez que a massa salarial diminuirá, diminuindo a base de incidência dos mesmos.

Não se compreendem as democracias europeias, quase todas maduras, aceitam esta ditadura do grande capital.

Quem já perdeu o emprego está em enormes dificuldades. Para além da perda imediata de rendimento, sem ajudas estatais estas pessoas ficarão muitíssimo vulneráveis à pobreza, extrema em alguns casos. Pior, ser-lhes-á muito, muito difícil voltar ao mercado de trabalho, previsivelmente muito contraído nos meses subsequentes à pandemia.

O povo pagará triplamente a pandemia do Covid-19. Para além da ameaça à saúde, perder-se-ão empregos, ver-se-á diminuída a pecúnia mensal e pagaremos, todos, o custo exorbitante desta crise, durante anos.

Acordemos. Assim não vai dar.

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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