Financiar a cultura é financiar a criação cultural, financiar pequenos produtores e festivais multidisciplinares, financiar artistas que estejam em início de carreira ou que se queiram projetar internacionalmente, levando a nossa cultura, a nossa identidade, mais longe.

O investimento público dos estados do sul da Europa em cultura é absolutamente vergonhoso. Excetuando a Grécia, Portugal foi, dos 28 estados membros da UE, o que menos investiu na cultura em 2015. Em 2004 apenas Eslováquia e Grécia investiram menos do que o nosso país neste sector, capital para a formação, visão e mentalidade de um povo, consequentemente crítico para a sua capacidade de inovação em todos os sectores da sociedade e da economia. A cultura é central para a perceção do mundo, um pilar na criação de valor e na formação de opiniões assentes na tolerância e na diversidade. Boa formação cultural permite-nos fazer melhores escolhas, permite-nos interagir de forma mais eficiente; um povo cuja formação neste domínio seja substantiva é um povo mais feliz, capaz de transmitir um conjunto de predicados muito importantes para a formação das gerações mais jovens.

Em 2008 a administração central investiu 19 Euros per capita em cultura no nosso país. O investimento das autarquias é três vezes maior e, no entanto, o valor global que Portugal consagra a este sector é ridiculamente baixo.

O investimento (administração central) médio dos países do norte da Europa, entre 2007 e 2015 foi de 186 Euros per capita. Dinamarca, Holanda e até Eslovénia investem de forma consistente valores muito significativos neste domínio. 

No mesmo período o PIB dos países do sul da Europa (Espanha, Portugal, Grécia e Itália) decresceu 9%, contudo o desinvestimento na cultura atingiu 30% em 2014. Em 2015 Portugal reduziu o orçamento para a cultura em 41%.

A Dinamarca investe cerca de 300 Euros per capita anualmente em cultura. O nosso investimento é quinze vezes inferior apesar do PIB dinamarquês ser apenas uma vez e meia superior ao português. O investimento espanhol neste domínio foi de aproximadamente 100 Euros per capita em 2015.

Esta é uma situação vergonhosa, calamitosa. Para além dos factos sabemos que em Portugal a maioria dos governantes e dos governados ainda olha para a cultura com sobranceria, algo que se tolera, na realidade pouca ou nenhuma falta fará; muitos, demais, entendem que a cultura deve ser gratuita. Os agentes culturais em Portugal vivem quase exclusivamente de subvenções estatais, mas vivem mal, com imensa dificuldade e são cada vez menos. Grassa a ideia de que a cultura é o ermo de uns personagens meios estranhos a que chamam artistas, que não podem nem devem ganhar dinheiro com a sua atividade.

A iniciativa privada patrocina megaeventos, especialmente na área da música – há uma concentração de grandes players neste sector, competindo desenfreadamente por um cêntimo de notoriedade; patrocinar concertos e festivais não é financiar a cultura de forma eficiente, criteriosa. Estes patrocínios servem apenas para trazer a Portugal músicos cujo cachet é disforme, em nada se identificam com a nossa cultura, em nada a promovem, a defendem ou levam além-fronteiras. O resultado mais significativo destes investimentos é a aculturação do nosso povo a valores oriundos de outros países, sem qualquer contrapartida.

Financiar a cultura é financiar a criação cultural, financiar pequenos produtores e festivais multidisciplinares, financiar artistas que estejam em início de carreira ou que se queiram projetar internacionalmente, levando a nossa cultura, a nossa identidade, mais longe.

Financiar a cultura é financiar de acordo com critérios qualitativos e não de acordo com audiências, com retornos de investimento assegurados pela quantidade de pessoas que assiste a um concerto ao vivo de um qualquer cantor(a) funk, piroso(a), brega e sem qualquer valor artístico.

Financiar a cultura é garantir que a nossa cultura, em todas a áreas, se funda e fundamenta nos nossos valores, naquilo que somos enquanto povo e nação, na mensagem que podemos e devemos transmitir ao mundo. 

Financiar a cultura é garantir a utilização de fundos públicos para trazer “cultura de fora” com valor acrescentado, qualidade, alavancando a nossa e inspirando artistas, produtores e a população em geral.

Fica uma nota: o orçamento total para o ano de 2015 do Teatro Nacional D. Maria II foi de 861 mil Euros. No mesmo ano o orçamento total do National Theatre no Reino Unido foi de 130 milhões de Libras. O PIB britânico é cerca de 12 vezes superior ao nosso; o orçamento do teatro britânico é 150 vezes superior ao do D. Maria II… A disparidade orçamental entre os dois teatros é exponencial e não tem qualquer relação com a riqueza produzida em cada um dos países. Porque será a cultura britânica/anglo-saxónica a cultura dominante?

Em 2016 o sector cultural contribuiu com 10.8 biliões de Libras para a economia britânica, mais do que a agricultura ou alguns sectores da indústria. Os 365000 empregos neste sector representaram 2.8 biliões de Libras de receitas fiscais para o erário público no Reino Unido.

Portugal ainda não percebeu, certamente nunca perceberá, que a forma mais eficaz de se promover e afirmar internacionalmente é com um fortíssimo investimento público e privado na cultura; esta é uma área válida da economia, assim seja entendida por quem de direito, façam-se os investimentos necessários. Para isso urge mudar a mentalidade de quem decide, quase sempre gente de fraca cultura e pobre visão.

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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