Quando vivi no Reino Unido e o afamado clima britânico não permitia a viagem de moto, era de comboio que chegava ao trabalho. Cinquenta minutos entre o sul de Inglaterra e a Estação de London Bridge.

Em todas as viagens o cenário era o mesmo: dezenas de zombies sentados com a cabeça enterrada no smartphone; alguns, mais dotados, levavam laptop, tablet e smartphone para falar com a cara-metade pelo WhatsApp, com a amiga colorida pelo Messenger, colocar likes e “deslikes” em tudo e mais alguma coisa e, em simultâneo, terminar um relatório sobre propulsores iónicos para a NASA. Duas ou três aves raras, muito raras, liam o jornal ou um livro a cheirar a mofo – gente que não evoluiu e desconhece em absoluto as maravilhas da tecnologia moderna e das redes 4G. Os mais anormais olhavam pela janela e contemplavam a paisagem, mas esses eram de outro planeta e só apareciam uma ou duas vezes por mês; ninguém gostava deles.

Ensurdecedor o silêncio sepulcral reinante a bordo. Letreiros, bem visíveis, advertem os passageiros para não ouvir música alto nos seus headphones, para não falarem ao telemóvel de forma incomodativa – em suma, para estarem quietos e calados, mind your own business, ignore whoever may sit next to you, ignore any other form of life that slightly resembles a human being. Period.

Não há muitos anos esta carruagem estaria cheia de energia, de gente a cuscar a vida de quem se sentou ao seu lado, de grupos de jovens alegremente discutindo quem apanhou a pior bebedeira na noite anterior, qual a miúda ou miúdo mais interessante da festa, pais e filhos metendo conversa com outras famílias, crianças correndo e rindo desbragadamente. Nesta carruagem encontrar-se-iam amantes loucamente apaixonados, segredando sobre carícias desejadas, descobrir-se-iam metades cuja vida prometeriam até que a morte as separasse, zangar-se-iam namoros velhos e novos, prometer-se-iam casamentos, quebrar-se-iam laços de sangue. Nesta carruagem, há não muito tempo, seres humanos, gente, sufocaria o ar de palavras, risos, esgares, alegrias e tristezas, de política e de futebol de bancada, amigos para a vida descobrir-se-iam, mortes choravam-se, afagos e carinhos trocavam-se. Pela janela se observava o contínuo desfiar da paisagem, diferente todos os dias, nova a todas as estações. Enfim, tédio.

Agora não.

Agora uma massa informe de piões, todos com milhares de amigos, com biliões de likes na vulgaríssima, pirosa e desinteressante selfie de ontem, igual a todas as outras, “conversa” com “gente” igual enfiada noutro comboio noutra parte qualquer do país ou do mundo. E que conversa… São habitualmente profundas como sabemos. Aprende-se muito nestas conversas.

Outros preferem ver toda a temporada de uma série Netflix em duas ou três viagens, auscultadores enfiados até ao tímpano, ecrã minúsculo, olhos em bico, sem rir nem chorar, sem sorrir nem saltar – há gente à volta, controlem lá as emoções e não incomodem ninguém. Sejam civilizados.

Meter conversa com alguém poderá significar um processo em tribunal, por assédio, um dos diversos tipos de assédio qualificados na lei; parece mal, muito mal, dirigirmo-nos a um estranho e tentar começar uma conversa. Se não têm ninguém com quem falar, nenhum like para colocar, nenhum email urgentíssimo para ler, não querem ver mais uma vez que o vosso último post só teve um like daquele cromo que tem dentes tortos e só 51 amigos, todos com nomes duvidosos, se não têm mesmo nada para fazer com o vosso smartphone, façam de conta que sim e tirem-no do bolso com atitude, esfreguem o dedo no ecrã, finjam ler “o” email que Deus vos acaba de enviar – não esqueçam a pose – e voltarão a sentir-se humanos, integrados na sociedade cosmopolita e tecnológica do século XXI – estarão, novamente, entre iguais. Alívio.

Enfermos, já não vivem o momento. Estão no mais fabuloso concerto ao vivo e, incapazes de se sentirem satisfeitos com a fruição do instante, alimentando a alma com a energia única do evento que diante dos seus olhos se descerra e lhes alimentaria todos os sentidos, pele de galinha, tiram o seu melhor amigo, confidente e voyeur do bolso e perdem-se num registo audiovisual que pretendem executar na perfeição, colocando-o de imediato nas redes, na ânsia de obterem mais três triliões de likes. Vinte mil pessoas acabaram de fazer o mesmo e na realidade todas ficaram com um filme merdoso, roga-se não o mostrem a ninguém, perderam o momento, cortaram toda a magia que se estabelece quando um artista interage com o seu público e afirmaram-se, indubitavelmente, como seres solitários buscando incessantemente aprovação para aquilo de que julgam gostar, ansiosos pela douta confirmação dos seus pares: sim, é muito cool, ganda pinta pá. Ir, estar e absorver, vivendo, não conta. Mostrar, partilhar e ser aprovado, assim sim. Urge ser um dos milhões da manada, igual a todos os outros, achando-se único e muito especial.

Mas há pior. Pais que entregam aos filhos os seus smartphones nos almoços com a família ou amigos, para que os putos deixem de chatear e se calem de uma vez por todas. Privar as crianças de partilhar estes momentos, privando todos da sua companhia é uma demonstração clara de tolerância e de modernidade. Criar e vibrar com conceitos de família, amizade, conversa, troca de opiniões, descoberta mútua, é um chorrilho de disparates que não tem qualquer relevo no desenvolvimento social da criançada. Esta atitude continuada dos papás e das mamãs, que se perpetua nas viagens em família, nas idas ao supermercado ou sempre que a criança se revele incomodativa ou ameace fazer uma birrita, é um forte pilar de desenvolvimento dos petizes, preparando-os para as viagens de combóio na idade adulta, momento em que revelarão toda a sua habilidade para lidar com as redes e com os smartphones.

Namorados, socialmente maduros, são vistos bastas vezes à mesa numa refeição em que o silêncio é doloroso. Ambos, enquanto mastigam um pedaço de rosbife malpassado, boca aberta mostrando alva e muito alinhada dentadura, tamborilam no seu aparelho inteligente com a mestria de quem domina a coisa há muito, muito tempo, umas quantas palavras escritas num português arcaico e cheio de erros alegremente enviadas aos amigos e amigas do Facebook, Instagram, Twitter, WhatsApp e afins. Uma refeição em boa companhia, épica, agora tudo é épico, até uma ida ao Pingo Doce para comprar Estrelitas. Mas talvez o epíteto da degenerescência social propiciada pelas redes não seja este.

Quando duas pessoas se conhecem por este meio e trocam umas quantas mensagens indiciando haver um interesse maior acabam, por vezes, por se conhecer. Não raras vezes este é um momento de profunda desilusão, para um ou para ambos. A forma como imaginámos o outro não foi aquela: sejam as fotografias, as sábias citações (essa luz de sabedoria rara, utilizada a eito e sem critério por milhões, para parecerem inteligentes e cultíssimos aos olhos de quem os vê, mas apenas assim percepcionados pelos igualmente incultos e muito limitados pares) ou até o teor de uma conversa filtrada, em que se escreveu cuidadosamente para causar grande impressão, sem espontaneidade, sem realismo, sem grandes emoções, elevam a “realidade” a um patamar onde nem a ficção ousaria pousar. Esta versão moderna do casamento por correspondência é pior do que a original, assente em fotografias a preto e branco tiradas por um fotógrafo a sério e na caligrafia desenhada numa alva folha de papel de carta, sem possibilidade de delete, copy-paste ou qualquer outro truque barato da maravilhosa tecnologia dos nossos dias. Nesse tempo era a sério, agora é uma brincadeira inventada por geeks cuja relação mais excitante e hardcore com alguém foi uma masturbação ao vivo e a cores no provador da Lefties, num live stream partilhado com a suposta cara-metade e rapidamente colocado num dos sites de pornografia barata que proliferam aos milhões na web. Feito! Mas talvez haja ainda pior.

Talvez o expoente máximo das redes seja outro. Talvez seja aquele em que duas pessoas se conhecem num qualquer bar ou evento de circunstância, trocam olhares inequívocos, acabam a conversar e, ao invés de assumirem naquele momento a pretensão de se conhecer melhor, decidem algo muito mais rebuscado: não agendam nada, não deixam clara a intenção de continuar a conversa, de continuar a interagir, decidem pedir amizade no Facebook no dia seguinte, sendo essa a maior manifestação de interesse revelada por alguém, como se sabe. Na prática e na maioria das vezes nada mais acontece. Sem surpresa.

As redes sociais e os smartphones, a conectividade permanente castrou-nos socialmente. Deixámos de assumir como referencial o relacionamento pessoal tradicional, milenar, em que todos os nossos sentidos estão alerta, em que a linguagem corporal, os odores, os maneirismos, como andamos, como nos sentamos, como bebemos ou comemos, o tom de voz, o olhar, como trajamos, como interagimos com outros e em grupo, como ouvimos, como respondemos, as expressões, como tocamos uns nos outros, como é que nos integramos ou não em determinados contextos, a quem ou a quê damos verdadeiramente atenção, já nada vale. Valem as impressões deixadas através de um ecrã, o número de amigos e de likes, tudo filtrado pelos algoritmos do senhor Zuckerberg. Decidimos deitar fora as nossas ferramentas sensoriais afinadas pelo tempo, substituindo-as por zeros e uns, pela distância, pelas duas dimensões da fotografia e do vídeo, pela dúvida persistente relativamente à autoria de um texto, pela percepção vaga de alguém que se apresenta por detrás de um denso véu, silhueta questionável, âmago encapotado. Mas lindo(a).

Passámos a relacionar-nos à distância, a escrever: deixámos a palavra na primeira pessoa, ignoramos o tom e o timbre da voz, lemos um texto e respondemos com outro. Asséptico.

Encontrámos uma nova definição para amigo. Amigo é agora uma cara e um perfil de alguém com quem nunca estivemos, com quem nunca estaremos e cuja relação assentará numa troca de likes perpetuada pelo Facebook. Elevámos o significado de desconhecido a amigo, são agora sinónimos. Amizade é um sentimento nobre, que une efectivamente duas pessoas. Jamais poderá ser validada pela superficialidade de uma relação online. Amizade é algo que se sente, que mexe connosco, que nos faz vibrar, é um conjunto de sensações, de valores e de expectativas muito concretas em relação a alguém. Não é a(o) gaja(o) gira(o), sugerida(o), sabe-se lá como, pelo Facebook para uma amizade duradoura. Amizade vive-se, encerra-se dentro de nós, vai connosco quando partimos. Amizade é chorar copiosamente a morte do amigo(a) que nos deixou precocemente. Não é colocar um emoji choroso num post que anuncia a morte de alguém que era nosso amigo nas redes sociais mas de quem não sabemos, realmente, nada. Esse emoji, colocado entre o anterior (ira, era o que ficava bem naquele post do Zé) e o seguinte (riso, pois então, a Maria é uma bem-disposta) não vale nada, está desprovido de qualquer sentimento. Nada nos ligava àquele ser humano. Finou-se, riso não, tristeza sim. Já esqueci. Venha o próximo.

As redes sociais estão a transformar uma das maiores virtudes do ser humano – a capacidade para se inter-relacionar e para viver em sociedade numa espécie de defeito anacrónico, de doença viral que urge extinguir. Estamos hoje mais à vontade atrás de um teclado do que olhando nos olhos de outro ser humano. Estamos a diminuir as nossas capacidades sensoriais de forma voluntária. Uma espécie de auto-flagelação colectiva supervisionada pela Internet.

Talvez Variações não soubesse, talvez adivinhasse: com a proliferação das redes sociais apenas estamos bem aonde não estamos e só queremos ir aonde não vamos.

As redes sociais têm inúmeros atributos, tal como o vinho, o bom vinho. Se bebermos um copo por dia somos bons apreciadores, bebendo com descomedimento somos alcoólicos. O problema reside na adicção, não na substância. Esta adicção é uma pandemia fora de controlo; ninguém está disponível para a dominar.

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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