Entre 12 de Abril de 2009 e 10 de Abril de 2010 o Centers for Disease Control and Prevention (EUA) estimou que o surto de H1N1 nos Estados Unidos teria infetado 60.8 milhões de pessoas, teria hospitalizado mais de 274.000 e 12.469 pessoas teriam morrido, apenas nos Estados Unidos. Globalmente o CDC estima que terão perdido a vida entre 150 a 575 mil pessoas no primeiro ano do surto.

De acordo com a mesma fonte, estima-se que 80% das mortes terão atingido pessoas com menos de 65 anos.

Não se pretende comparar estes números com os da Covid-19 que até hoje (29.03.2020), terá morto 32000 pessoas e infetado 685.000 – até porque a comparação direta destes números não fará qualquer sentido, quer pela diferença de tempo/duração da pandemia, quer pelo registo muito mais fino que está ser realizado pelos diversos países no que à Covid-19 concerne.

Fica, contudo, a referência a este facto: não é esta a primeira pandemia contemporânea, há uma década fomos confrontados com algo similar.

No rescaldo do surto de H1N1 em 2010, os Estados Unidos decidiram que a falta de ventiladores tinha sido um dos fatores que tinha contribuído para o elevado número de vítimas mortais. Foi tomada a decisão de mandar produzir uma quantidade de ventiladores suficientes, para stock, que possibilitasse às autoridades norte-americanas uma resposta mais eficaz em caso de novo surto, deste, ou de outro vírus semelhante.
70.000 unidades seriam necessárias para responder eficazmente em caso de surto pandémico moderado de influenza.

Partindo do pressuposto que os ventiladores existentes eram caros, pouco manobráveis e que requeriam pessoal médico especializado para serem operados, a Biomedical Advanced Research and Development Authority reuniu um painel de especialistas para que se desenvolvessem um conjunto de papéis no sentido de viabilizar a produção de ventiladores menos dispendiosos, portáteis.

O projeto recebeu o nome de Aura e o desafio era produzir inicialmente 40.000 ventiladores pelo preço unitário de 3000 dólares, muito abaixo dos 10.000 dólares, preço de mercado normal para um ventilador.

As autoridades norte-americanas decidiram entregar o projeto à Newport Medical Instruments, uma pequena empresa de Mesa, Califórnia, detida a 100% por uma empresa japonesa, especialista em desenvolvimento e manufatura de equipamentos médicos. Os gigantes da indústria médica foram preteridos.

Em 2011 a Newport enviou três protótipos funcionais para Washington, no sentido de serem avaliados pelas autoridades de saúde americanas.
Em Abril de 2012, um oficial sénior das Autoridades de Saúde dos EUA testemunhou perante o Congresso que o projeto estava a correr de acordo com o esperado, sem desvios orçamentais e que, em Setembro de 2013 os ventiladores se iriam submeter à necessária aprovação para serem comercializados, após o que se daria início à fase de produção.

Em Maio de 2012, a Covidien, um gigante da indústria da saúde com uma faturação anual de 12 biliões de dólares, produtora de ventiladores tradicionais, adquiriu a Newport por 100 milhões de dólares.

Quase imediatamente exigiu mais dinheiro à administração federal americana para que o projeto continuasse. Mais 1.4 milhões de dólares foram pagos à Covidien.

Hong-Lin Du, o presidente da Newport foi afastado do projeto, bem como os seus principais mentores e responsáveis. Outros, ligados ao projeto inicial, acabaram por abandonar a companhia. Em 2014, sem ter sido entregue nenhum ventilador às autoridades de saúde americanas, a Covidien abandona o projeto alegando que o mesmo não seria suficientemente rentável para a empresa.

Anos mais tarde, a Biomedical Advanced Research and Development Authority entrega o projeto à holandesa Philips por 13.8 milhões de dólares. Até hoje a Philips não entregou nenhum ventilador, estima-se que o faça em meados deste ano.

O atraso irremediável na entrega dos ventiladores colocou os Estados Unidos numa posição muito frágil para enfrentar a pandemia de Covid-19. Reafirma-se, o projeto foi iniciado em 2010, com previsão de entrega das primeiras 40.000 unidades em 2014.

Este acidente da história empresarial recente dos Estados Unidos prova de forma clara que os mercados não se podem autorregular de forma livre, como tem acontecido. Há sectores em que os estados têm, obrigatoriamente, que intervir. O ultraliberalismo mata este tipo de iniciativas, não tem em linha de conta necessidades críticas das populações e não produz nada que não tenha margens de lucro obscenas.

Por outro lado, uma das mais nefastas consequências do ultraliberalismo tem sido a concentração de empresas e de capital. Ao invés do que é propalado, a concentração de marcas, de empresas e de capital em conglomerados megalómanos apenas favorece as empresas e o capital, em nada favorece o consumidor. O resultado é um mercado dominado por algumas, poucas, grandes empresas, que podem entre si e de forma simples cartelizar, não inovar (a investigação e desenvolvimento é um processo muito dispendioso), atrasando fatalmente a chegada ao mercado de produtos melhores e mais baratos, aniquilando todas as pequenas empresas que ousam inovar e, de alguma forma, colocar em causa estes impérios. Por fim, a pressão dos lobbies destes cefalópodes sobre as decisões políticas da maioria dos governos é nefasta; estão apenas focados no lucro, subornam, corrompem, dominam.

A indústria farmacêutica, a indústria automóvel, as novas tecnologias, a aviação – aeronaves e transportadores – a banca, as seguradoras, e a indústria alimentar estão fortemente concentradas nas mãos de um punhado de companhias.

De acordo com um artigo da Business Insider, a Nestlé, PepsiCo, Coca-Cola, Unilever, Danone, General Mills, Kellogg’s, Mars, Associated British Foods, e a Mondelez tem o controlo absoluto do mercado de bens alimentares. O seu volume de negócios anual é superior a 10% do PIB global.
A maior, a Nestlé, possui 2000 marcas e opera em 193 países. Cinco países controlam estas empresas: Suíça, Bélgica, França, Estados Unidos e Reino Unido.

Os três maiores construtores de automóveis mundiais detêm 26 marcas com as quais comercializam os seus produtos.

Este não é o caminho, seguramente.

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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