Foto por Pedro Ribeiro Simões | Flickr

Há já muitos meses que o INEM avisara não haver condições no aeródromo de Viseu para realizar a manutenção do helicóptero ali estacionado. Viseu, opção de circunstância depois do heliporto de Santa Comba ter sido interditado por falta licença e condições para poder operar uma aeronave deste tipo, também não conseguiu reunir os necessários mínimos para reter a aeronave em serviço nesta zona do país.

Se no primeiro caso (Santa Comba) parece estar em curso o (longo) processo de certificação do heliporto, no caso de Viseu nada parece ter sido feito para criar as condições de permanência da aeronave.

Este processo iniciou-se a 22 de Outubro de 2019, data em que a ANAC interditou o heliporto de Santa Comba. 

Este episódio não é novo e a história da localização do helicóptero do INEM nas Beiras tem tido diversos sobressaltos. Em 2011 foi notícia que o aparelho iria passar a estar baseado em Aguiar da Beira, saindo de Santa Comba. As razões eram outras naquele momento, mas resultado similar.

O que espanta – ou talvez não – é a enorme incapacidade das autoridades regionais, da ANAC e do INEM para resolver uma questão que afinal é brutalmente simples: criar as condições necessárias, num heliporto ou aeródromo da região, para manter a aeronave numa zona crítica do país servindo mais de dois milhões de pessoas que, de outra forma, verão este direito básico negado. É absolutamente fundamental que este meio de socorro e auxílio, que atua em situações limite de vida ou morte, esteja localizado neste eixo geográfico.

Em sete meses não foi dado nenhum passo em frente. Lamenta-se profundamente que os intervenientes neste processo não tenham conseguido chegar a um consenso para a localização deste meio, é profundamente lamentável que a burocracia pestilenta que grassa na maioria das instituições públicas portuguesas seja prevalente num processo com esta importância para as populações. Quando a esta tão lusa burocracia se juntam os egos, falta de visão e de sentido de estado, tudo corre mal.

É certo e sabido, com o helicóptero localizado em Loures, vida ou vidas perder-se-ão na zona centro do país por falta de transporte urgente de um ser humano para um hospital central. Nesse dia iremos assistir ao habitual corrupio de entrevistas a diretores de serviço, presidente do INEM, autarcas, secretários de estado, ministros e até quem sabe primeiro-ministro, todos, todos sem exceção, sacudindo a água do capote, fazendo o habitual jogo do puxa-empurra, garantindo que todos fizeram ou estavam a fazer tudo para resolver a situação. E ninguém terá peso algum na consciência.

A impressão com que ficamos é que aeronave tem vontade própria e resolveu ir passar uma temporada a Loures. As Beiras causam-lhe uma certa urticária. Tomou a decisão e foi. Em Portugal os helicópteros do INEM são muito intranquilos e este é especialmente intranquilo, adora mudar de poiso. Nunca gostou muito de andar por estas bandas, e ninguém parece saber muito bem porquê.

Se tudo correr mesmo mal e a tragédia atingir mortalmente uns quantos concidadãos, Marcelo fará uma visita emocionada à família da vítima ou vítimas, com ampla cobertura da imprensa e logo tudo ficará perdoado, caindo no mais profundo esquecimento.

Nós, lusos, temos essas duas assombrosas capacidades: complicar o que é nesciamente simples e perdoar o absolutamente imperdoável.

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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