Covid-19 – Foto wikipedia

Esta pandemia serve, mais uma vez, para comprovar a brutal ditadura dos mercados e do capitalismo ultraliberal. O esforço das autoridades tem sido evitar o pânico, garantir que a população não age de forma desproporcionada relativamente a um comprovado perigo de saúde pública. Evitar a corrida aos supermercados, evitar o auto isolamento, evitar a aquisição desnecessária de máscaras e desinfetantes, garantir que a vida, apesar do Covid-19, continua como se nada, ou quase nada, esteja a acontecer. E contudo, há países inteiros fechados, uma pandemia completamente descontrolada em mais de 130 países, que mata mais de 3% daqueles que infecta e para a qual não existe qualquer cura conhecida.

Os mercados, esse ser frágil, cuja importância se sobrepõe a tudo e a todos, esses, já podem entrar em pânico. Pior, aceitamos esse pânico, o mesmo que não aceitamos entre os comuns mortais, aceitamos que os franzinos, mui nobres e importantes mercados possam colapsar muito rapidamente, colocando em causa a estabilidade económica do planeta e o bem-estar de todos. Bolsas perdem biliões em meia dúzia de dias, empresas desvalorizam barbaramente de um dia para o outro e, pasme-se, todos compreendem, aceitam e não contestam tamanha imbecilidade. 

Há, claramente, uma hipervalorização da economia e dos agentes económicos face aos valores essenciais e basilares da humanidade, sendo a saúde o mais fundamental de todos. E este é o pressuposto para a habitual inércia de governantes e autoridades de saúde no que concerne à tomada de medidas mais enérgicas que poderiam conter mais rapidamente a disseminação do vírus. 

Cristiano Ronaldo pode entrar em pânico, recusando o regresso a Itália, Trump pode entrar em pânico e proteger o seu país. Mas o povo não. Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, pediu a Trump para evitar tomar este tipo de medidas sob pena de potenciar o colapso da economia. No dia 10 de Março tinha dito, na mesma conta do Twitter, que o vírus estava a propagar-se por todos os países da UE, expressando a sua simpatia por todos, especialmente por Itália. Em que ficamos Michel? Resolvemos a pandemia com simpatia e sem beliscar a economia? Conversa fiada, lamenta-se.

Lamenta-se igualmente a incapacidade, a falta de coragem para tomar as medidas certas no tempo certo, tentando evitar a dispersão descontrolada do vírus e o consequente colapso da economia. Lamenta-se a tardia reação da China, de Itália e de Espanha, lamenta-se a inércia das autoridades portuguesas para fechar escolas, impedir navios de cruzeiro de atracar ou, pelo menos evitar que os seus passageiros possam desembarcar e passear livremente por Lisboa. Lamenta-se o silêncio dos partidos da oposição, de todos eles. Têm medo de falar, da potencial acusação de irresponsabilidade ao chamar à razão as autoridades? Esta pandemia veio comprovar a falta de coragem, de nervo e de atitude dos nossos políticos. Não prestam.

Diz o povo que as pessoas se revelam nos momentos de aperto. Neste momento de grande aperto a União Europeia revelou que pouco vale, os seus dirigentes revelaram-se ineptos, meros fantoches de uma economia de mercado gerida por milionários sem escrúpulos. Reuniram-se tarde, sem conseguir agir de forma coerente, nada resolveram que possa impedir, efetivamente, a propagação desenfreada do vírus.

Não chega olhar para os maus exemplos e nada fazer, é muito mais grave ignorar os bons exemplos como Macau e não mimetizar. Macau agiu de forma muito assertiva, fechando todos os espaços públicos, obrigando a população a permanecer em casa, deportando pessoas oriundas de países com focos infeciosos. Até os casinos, pilar da economia macaense, foram encerrados por ordem do governo. Há 35 dias que não se registam novos casos de Covid-19 em Macau. 

Se a sorte não nos abandonar, o vírus irá rumar a outros destinos e, por obra e graça do Espírito Santo, respiraremos de alívio, na grande tradição lusa de deixar que a coisa tome o rumo que entender, enquanto apanhamos uns bons banhos de sol em Carcavelos, bem juntinhos uns aos outros, como tanto gostamos.

Ironicamente, o povo pagará duplamente pela propagação do Covid-19. Pagará pela disseminação descontrolada do vírus resultante da incapacidade de quem nos (des)governa para tomar as decisões necessárias e atempadas ao combate efetivo desta pandemia e pagará pelo inevitável colapso da economia, que decorre da inércia acefalina destes tipos que têm medo de agir, de lesar os grandes grupos económicos.

Pior, se bancos ou grandes empresas colapsarem, serão resgatados pelo Estado, pagará o povo, quem mais?

Merecemos melhor, merecemos gente com fibra, sem medo, capaz de tomar decisões arriscadas mas nobres, sabendo que haverá sempre consequências nefastas para a economia, mas salvaguardando a saúde de todos os cidadãos como valor basilar da nossa sociedade.

Imaginem que Portugal tinha tido, antes de se ter registado o primeiro caso, a coragem para fechar fronteiras, escolas, espaços públicos, impor quarentena obrigatória a todos aqueles chegados de países em que o vírus já se encontrava activo, restringir espectáculos e concentrações de pessoas, obrigando a população a permanecer em casa durante 14 dias. Acham que a economia seria mais afectada? Não creio. 

A mortalidade do Covid-19 em Itália é de 6,6%. É superior à da Gripe Espanhola. 

Boa sorte.

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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