Foto de Gaelx | Flickr

O capitalismo liberal está fortemente orientado para a massificação, para o grande capital, para criar, manter e perpetuar relações de magnitude extrema com os mais diversos sectores da sociedade. O saque aos recursos naturais do planeta, a organização da economia global, o apelo permanente ao consumo das famílias são atributos de um sistema que muito dificilmente sobreviveria numa cultura orientada para uma dimensão mais comunitária, menos focada nos resultados financeiros e mais centrada no bem-estar dos indivíduos.

As grandes migrações do campo para as cidades – cada vez maiores, mais turbulentas e menos saudáveis – têm esvaziado o interior de gente, de mão-de-obra, de jovens e, consequentemente, de futuro. Ouvimos, mais vezes do que gostaríamos, que no interior nada floresce, nada ou quase nada é viável.

O interior do país tem sido sofrido, como nenhuma outra região, a consequência viral e incapacitante do modelo atual de desenvolvimento económico-social. É urgente, mesmo muito urgente, que os sucessivos governos, o poder local e a própria população percebam a necessidade de inversão completa de políticas regionais e locais sob pena de, em duas ou três décadas, alguns concelhos desaparecerem definitivamente.

O interior carece de uma abordagem especificamente desenvolvida para cada uma das regiões, para cada um dos concelhos, tendo em linha de conta as suas limitações, necessidades, oportunidades e potencial. Esta abordagem não pode, de forma alguma, estar ancorada nos fundamentos que são a matriz de desenvolvimento do litoral e das grandes cidades, locais em que a concentração de riqueza tem contribuído para aumentar exponencialmente o fosso para o interior, que apenas se torna interessante para o grande capital no que concerne à exploração desenfreada dos seus recursos naturais, nada mais.

Se deixarmos morrer esta parcela de Portugal, se deixarmos que mais aldeias desapareçam, que mais escolas fechem, que mais jovens fujam em busca de uma “vida melhor”, vamos deixar morrer o país. O interior não vai sobreviver com as velhas capitais de distrito rodeadas de vilas e pequenas cidades fantasma, desertas. O interior não vai sobreviver com as velhas capitais de distrito cercadas de floresta desordenada, deixadas à mercê de um qualquer fogo florestal impiedoso.

Por limitação de pensamento houve quem julgasse entender que as vias de acesso resolveriam o problema. Não resolveram. Houve quem julgasse entender que a reordenação e concentração de recursos e serviços públicos ajudaria. Não ajudou. Estas e outras medidas contribuíram para a agonia em que o interior se vai esvaindo, a cada minuto. Estas e outras medidas estão viciadas: tentam aplicar ao interior e ao seu povo – aquele que ainda resiste – as regras da economia global, do capitalismo liberal. Um modelo falido já se sabe, especialmente tóxico para estas pequenas comunidades.

Para salvar o interior de um destino que todos já percebemos estar próximo, é absolutamente imperioso que se façam investimentos muito avultados no seu desenvolvimento, no desenvolvimento dos seus recursos endógenos, na requalificação do seu tecido económico-social, de acordo com a especificidade de cada concelho. Urge uma reforma administrativa profunda, ao nível autárquico, de matriz genuína. Apenas um plano de intervenção de longo prazo, que fixe populações, que inverta o sentido da migração atual de pessoas e bens, pode ambicionar salvar o interior.

O poder e a população local são a chave, mas têm de mudar de atitude, tal como a administração central. Um sentimento de união supra pessoal, de consciencialização da magnitude da tarefa em mãos é essencial para inverter este destino aparentemente traçado e selado. Os autarcas são figura central neste processo. Infelizmente parecem, muitas vezes, não ter qualquer ambição. Muitos, resignados, arrastam os seus municípios entre mandatos num estertor de morte evidente, sofrida.

Urge um debate nacional sério, muito sério, centrado em torno desta realidade e na construção de uma solução sólida para atenuar as assimetrias existentes. A discussão desta matéria, estruturante para o país, não se condói com preocupações de superavit ou de deficit, de execução orçamental ou de orientação macroeconómica de um qualquer governo central.

O modelo capitalista liberal (ou ultraliberal) é incapaz de produzir a resposta necessária para criar uma solução sustentada e sustentável.

Se não agirmos já não nos será possível fazê-lo quando atingirmos o ponto de não retorno.
Este não é um problema exclusivamente português, mas o nosso país é, seguramente, um dos piores exemplos da União Europeia neste domínio.

O prazo para salvar o interior do país está a acabar.

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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