Foto por João Duarte

Porque não há Ministério do Turismo. Só uma Secretaria de Estado a operar na dependência do Ministério da Economia. 

O turismo representa 13,7% do PIB nacional. A agricultura representa 2%. Como se compreende Ministérios atrapalham, complicam e inibem o crescimento. O ideal seria correr tudo a secretarias de estado. Imagine-se a eficiência do Estado Português se fosse gerido por uma qualquer Secretaria de Estado com sede em Mértola, ou na aldeia do Couto, nas Desertas, talvez. Também não há nenhum Ministério da Indústria que representa 22% do PIB. Confirma-se, ministérios atrapalham.

Espanha tem um Ministério da Indústria, Comércio e Turismo. Estes três sectores representam quase 80% do PIB espanhol; o turismo representa 14,6% do PIB no país vizinho.

Em França o turismo representa 7,2% do PIB. O Ministério do Artesanato, do Comércio e do Turismo foi criado em 1812 em França. 1812 (!). O resultado? 89,4 milhões de pessoas visitaram França em 2018: é o país mais visitado do mundo, seguido de Espanha e dos Estados Unidos. Portugal é o 24º destino mais visitado (2017).

O fenómeno do turismo em Portugal parece isso mesmo, um fenómeno, ou melhor um epifenómeno. Percebe-se a ausência de estratégia – nunca terá existido; tudo vai acontecendo de forma mais ou menos aleatória – à portuguesa.

Se num dia corremos a promover a coisa, no dia seguinte corremos a limitar a abertura de mais alojamento local. Já se percebeu, iremos cometer os mesmos erros que foram cometidos em cidades como Barcelona. Não faltará muito para que turistas atrapalhem turistas nas zonas mais populares de Lisboa, para que nada reste de verdadeiramente genuíno e autóctone nas áreas mais pitorescas das maiores cidades do país. Starbucks, Pizza Hut e Burger King serão, a breve trecho, as principais atracções da Mouraria.

Iremos ter um novo aeroporto no Montijo. Com as alterações climáticas será, pouco depois da inauguração, a maior infra-estrutura para hidroaviões do planeta – sempre a inovar.

Não promovemos Portugal de forma coesa e coerente. Não há campanhas decentes – com investimento coordenado – que promovam gastronomia e vinho, por exemplo. Não há qualquer investimento concertado no interior do país, permitindo recuperar tradições, aldeias, hábitos gastronómicos, rituais. No interior, em boa parte dele pelo menos, promovem-se concertos de música pimba como filet mignon da região. Há, em centenas de autarquias, um desconhecimento brutal do potencial que a região tem para atrair visitantes, nacionais e estrangeiros.

No site Visit Portugal ainda nos apresentamos como um destino de praia. O site do Turismo de Portugal está completamente apontado aos investidores e promotores da estrutura turística do país. Não existe o domínio portugal.pt.

França? www.france.fr – Vejam como é que os franceses promovem o seu país.

Espanha? Incrível rede de sites, com www.espanaescultura.es e www.spain.info como bandeiras. Neste último promovem-se as tradições do Natal espanhol… Gastronomia, vinhos, hábitos. Espertos estes tipos, ainda por cima parece que o Natal é uma daquelas celebrações quase universais…

Os britânicos vendem o país todo no site www.visitbritain.com e, de acordo com o país de onde provém, ao visitante é apresentada uma homepage específica. Adaptabilidade, mais uns tipos espertos.

www.italia.it sugere uma viagem inspirada nos 500 anos da morte de Leonardo da Vinci.

Num filme promocional português com um minuto e dois segundos, patente no site Visit Portugal e intitulado “Land of Art”, em 25 planos 16 são de Lisboa e do Porto. Não conseguimos sair deste registo macrocéfalo.

Uma pesquisa por Vasco da Gama nada devolve relativamente ao navegador português. Imaginem o que acontece quando pesquisam Robin Hood ou Sherlock Holmes no site dos britânicos.

Se Deus estiver connosco esta aventura do turismo até poderá vir a ser sustentável. Se Deus descobrir outros países em que passe a gostar mais de passar férias estaremos tramados e esta febre que agora traz turistas maioritariamente oriundos do Reino Unido, Espanha, França e Alemanha terminará abruptamente.

Façam uma campanha simpática dirigida a Deus, vai ajudar. Mas primeiro descubram do que é que Ele gosta mais: de bacalhau à braz ou de cozido à portuguesa. Se Ele adorar gaspacho levem-lhe um caldinho verde fresquinho que é quase a mesma coisa.

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Fotógrafo e videógrafo sócio documental com trabalho reconhecido pelo jornal The Guardian, pela Royal Photographic Society e pelo Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa.
Os seus ensaios têm sido publicados em media de referência em Portugal, no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Itália e Áustria, entre muitos outros.

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